segunda-feira, março 28, 2011

É a economia estúpida (sem vírgula nem ponto de interrogação)

Pongo en tus manos abiertas (Lp, 1969, Víctor Jara)


Todo o ser vivo, entidade ou instituição trabalha para a sua sobrevivência.
Na família, os pais educam os filhos à sua maneira, conforme o que acham que é mais correcto: isto é, pretendem dar continuidade, nos filhos, aos valores dos pais.

A sociedade enche-se de símbolos e agentes que pretendem perpetuar as suas formas de pensamento e funcionamento.

Uma empresa pretende atingir o sucesso e crescer.

Um sistema, seja ele qual for, político, económico, age à mesma maneira.

As ideologias - religiosas, económicas, políticas ou outras - pretendem manter-se pelo tempo. Através dos seus fiéis e seguidores.
Para que os seus seguidores o sejam, dando-lhes continuidade, é preciso que creiam nos valores que esses "sistemas" defendem, estimulam, propagandeiam e fazem reproduzir.

Uma pergunta se coloca, a todo o momento:
Quem sai beneficiado com a "saúde" do sistema (funcionamento e reprodução)?
São as pessoas?
Todas?
A maior parte delas?
Só algumas?
Sejam quais e quantas forem, certo é que elas têm todo o interesse em controlar o "sistema", impedindo-o que se auto-destrua.

.....

Qual é o mecanismo de funcionamento do Monetarismo para além da auto-perpetuação?

Será a sustentabilidade? A eficiência?

Nada produzido numa sociedade baseada no lucro é sustentável ou eficiente.
Se fosse, os aparelhos electrónicos teriam que durar muito mais tempo funcionais ou até se tornarem obsoletos.

Será a abundância dos recursos?
A abundância, em termos e oferta e procura, é na verdade um termo negativo:
se uma empresa mineira descobre dez vezes mais diamantes do que o costume, isso significa que a oferta de diamantes sobe, o que significa que o custo em lucro por diamante decresce.
Por isso os destroem.

(Não vimos, com as políticas económicas da PAC, os agricultores a despejar leite nos rios, a descarregar laranjas e tomates nos campos? - é disto que se trata.

Se os fornecêssemos a quem não os pode comprar, aqueles que os podem comprar reclamariam também direito sobre eles.
Portanto, isso não pode ser.
Logo, nem comem os que têm fome, nem os que não passam fome.

Tudo porque os produtores dos alimentos - no caso - precisam do dinheiro que receberiam por eles. Acham que estão preocupados com os esfomeados?
Até podem estar, mas isso não tem consequências úteis.
A utilidade mede-se em possibilidade de reduzir a dívida que lhes pesa no lombo.)


Isto significa que a sustentabilidade, a eficiência e a abundância são INIMIGAS do lucro.
Por outras palavras, o lucro deriva da escassez (e a pobreza é uma forma extrema de escassez).

Portanto, a sustentabilidade e a abundância nunca acontecerão num sistema baseado no lucro.
No Monetarismo.
O sistema em que todos vivemos.

O Monetarismo é controlado por quem?
Por aqueles que produzem a moeda.
Quem são aqueles que produzem a moeda?
Os bancos.
A partir do quê produzem eles a moeda?
Do nada.
Porque é que produzem a moeda?
Cedem-na aos governos dando-lhes crédito de que um dia esse valor, saído do nada, seja devolvido. Acrescido, claro está e ainda por cima, com um juro.

Se todo o dinheiro vem dos bancos, como é que é possível os governos pagarem todo o dinheiro que pediram emprestado mais a taxa de juro devida?

Não é possível.
É matematicamente impossível.

Impossível.


E repetimos, para quem ainda não compreendeu:
Impossível.

Voltamos a repetir:

IM-POS-SÍ-VEL


(ainda vos lembrais da equação acima?
Existe x dinheiro, criado pelos bancos, que esperam reavê-lo com a soma do juro: x+y.
Se x é todo o dinheiro que existe, onde é que vamos buscar y?
- Ah, os bancos produzem mais dinheiro.
Pois, repetindo o processo e iludindo-nos, adiando a resposta, que não existe.
E é esta produção ulterior de dinheiro que o desvaloriza a si mesmo. Como é que se chama a este processo?)


Assim, a dívida é a forma de manipulação de massas.
A forma mais avançada de sempre que o homem soube criar até hoje.
A manipulação das massas que têm de trabalhar para ganhar dinheiro. E que para ganhar dinheiro têm de competir. Não importando quem está a seu lado: cada um trata de si.

Assim, à semelhança das empresas, o Monetarismo tem fabricado em cada humano uma empresa que apenas visa o lucro. Que apenas visa o lucro porque é do lucro que depende para sobreviver, para se auto-perpetuar.

Por isso, as empresas e os humanos que agem à maneira de empresas, tomados uns e outras pelo pensamento único do Monetarismo, não se importam com as consequências sociais ou ambientais das suas acções.

Destroem tudo o que for preciso e assassinam quem for preciso.
O sistema inquestionável do Monetarismo tem virado todos contra todos.
Com guerras e pobreza, as formas de controlo e domínio dos mais fracos.

Com assassinatos, como o que fizeram a Víctor Jara.
Vejam quão subversiva pode ser uma pessoa que diz e canta o direito de viver em paz. Assassinado pelo regime de Pinochet, um dos muitos ditadores postos ao serviço do lucro de uns quantos.

Tem sido assim desde há alguns anos. Há demasiados.
Mas, como vimos, a sua forma de funcionamento não é infinita, não é sustentável.
Isto não pode ser sempre.
Isto não vai ser para sempre.


...


A escravatura física requer que os escravos sejam alimentados e alojados.
A escravatura económica requer que as pessoas se alojem e alimentem a elas próprias.

E em situação de fragilidade, de vítima da violência, seja através do medo que as religiões instituem, seja através da pobreza que as empresas e agentes financeiros impõem, é impossível que o comportamento humano seja ético.

O interesse é o divórcio do ser humano de si mesmo. Se não se ajudar a si mesmo... caminha para a extinção. E mais rapidamente se andar a matar-se entre si.

O interesse é a negação do ser humano.
O interesse é o que se interpõe entre uma pessoa e outra quando o interesse não é a PRÓPRIA pessoa.
O interesse, o LUCRO, é a vantagem que querermos tirar do outro que é igual a nós.
Ligeiramente diferente:
O interesse, o LUCRO, é o querermos tirar vantagem do outro, que é igual a nós.


E todo o trabalho que não desmonte esta forma perversa de funcionarmos e sermos, todo o trabalho que não destrua os preconceitos e o desentendimento entre os homens está a ir no sentido errado.
Está a conduzir-nos à destruição e à dos meios para a sobrevivência.
O planeta.

É isto sustentável?

Não temos TODAS as dúvidas.
Uma é suficiente.

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