quarta-feira, agosto 18, 2010

Et aussi les arbres

É todos os anos a mesma coisa: chega o verão e começam os incêndios, os jornalistas fazem reportagens em direto à frente das chamas, os bombeiros queixam-se da falta de meios, os comentadores perguntam como é possível que ninguém se tenha lembrado de limpar as florestas e há sempre um parvo que assinala que é todos os anos a mesma coisa.

RAP, Visão de 12.08.2010

O parvo que assinala que "é todos os anos a mesma coisa" tem a memória, pelo menos, do ano anterior. O que, com o ano que vai passando, perfaz dois anos. Por isso, "é todos os anos a mesma coisa", que a tanto chega a nossa memória...
Aqui, alguns ainda se apercebem.

O desordenamento... sim, claro. E depois?
Portas arrombadas, trancas à porta.
Os incêndios à porta, as pessoas a limparem os perímetros das suas vidas...

Já no terreno das eleições legislativas...
(- Ui!, mas aí estamos a falar em algo COMPLETAMENTE diferente, uma outra escala.... são, se tudo corre bem, 4 anos... QUATRO. Quem tem memória para 8 anos? Quem é que já teve o desplante de ter memória para REPARAR que praticamente apenas dois, ou seja, sempre os mesmos, partidos estão a revezar-se no Governo há mais de 30 anos??? Desopila o fígado!. Não há memória que aguente!!
Mas continuamos nisto.
E vamos continuar.
E continuar.
Vamos.
E.
Até ver, indefinidamente...)


Com o terreno gasto,
com o terreno minado,
com o terreno esterilizado...

... um dia quererás plantar uma árvore e vais perguntar-te

"Onde?"


Na memória dos anos que já levamos a viver na mesma terra, na nossa terra cada vez mais pequenina, vamos notando as diferenças (isto só acontece se, pelos dias, criarmos memória e, ao longo dos dias, exercitarmos memória) que ela foi sofrendo, as alterações que lhe fomos infligindo.

Os tempos dominados pela rentabilidade do espaço, pela funcionalidade do espaço, pela eliminação (sem olhar a outra escala temporal) do aparentemente inútil, do desnecessário ou do que estorva.

Por falar em árvores,
as árvores que não choram, que se chorassem não podíamos suportar a gritaria horrível que o nosso desleixo e o nosso desordenamento andaram (têm andado, e continuam) a semear por este país cada vez menos país e mais fósforo,
lembrarmo-nos de que
ali, havia uma,
ali, havia uma outra,
ali já houve uma árvore...

(o nosso desrespeito soa sempre maior, se de desrespeito falamos, que a idade que cada uma dessas árvores durou a crescer... até ter sido abatida, cortada, derrubada, arrancada... desaparecida.)

Ficou a memória, volátil, do ser vivo, físico, tocável.
Ficou a memória... em quem pôde criá-la, alimentá-la, partilhá-la.

Para que comunicamos, afinal?
Para, impotentes, assistirmos às vontades de uma maioria silenciosa com força de lei (e a lei é a de no-las roubarem, que é isso que fica, é isso que vale... uma vez cortada, não há volta atrás) ?

O que queremos do mundo?
Que queremos da vida?
Com que direito?
Com que direito?

- Ah, esta árvore está a tapar a vista e é perigosa para a segurança dos automobilistas.
(o reino do automóvel, esse ser vivo que em vez de produzir oxigénio, no-lo consome)

- Ah, esta árvore está a estragar o alcatrão e a pôr em perigo este muro, os automobilistas, esta casa
(o reino do betão, a que estamos rendidinhos da silva, e do qual todos extraímos sustento do nosso corpo...
- Bah!! não é do betão, seu estúpido!, mas da tijoleira dos hipermercados que retiramos o pão nosso de cada dia... ... Antiquado!)

- Ah, estas árvores estão a ocupar espaço muito apto... (veja-se só!!) a construção de moradias...
(depois, algumas sobrevivem, por arrogante "tolerância" (passe o pleonasmo) dos mestres construtores, e ficam... (veja-se só novamente) a pôr em perigo as casas, por causa do risco de incêndio...)

Que respeito pelos espaços?
Pelas árvores?
Que distância?

Acautelar as distâncias e proteger os espaços implica ter respeito pela diferença, consciência das necessidades.

As nossas terras estão a ficar deslavadas, descoloridas, deserdadas, destapadas, desgarradas.
Nunca um B52 encontrou terreno de "jogo" tão apto a matar peões e "inimigos". Lá do alto, as casas estão à vista. E as pessoas já não podem ocultar-se à sombra... das árvores.

...

Nestes Verões Quentes em que se travam as reais batalhas pela sobrevivência das espécies, os noticiários
(Coitados, eles não sabem ler...
Coitados, eles não percebem nada de biologia
- nem têm que perceber! Têm de falar com especialistas e serem veículo de transmissão dessas sabedorias.
Coitados de nós, que quase tudo o que vamos sabendo é por eles que o vamos sabendo... coitados de nós...!)
falam da área ardida
mas
não
falam
de que espécies arderam
nem
dos seres vivos, não domésticos!, que nelas habitam.

(já poucos restam...)
As aves e os insectos...
tudo destruído após um incêndio.
O chão, em vários centímetros abaixo da superfície, calcinado,
as rochas, até, metamorfizadas pela intensidade do calor (sim, é verdade),

- Terreno fértil! - argumentamos nós, armados em ovelhas
(ou em pastores de vistas curtas)
Sim, é fértil, mas a cada fogo, a cada destruição, cada vez mais pobre: em nutrientes, em vida, em capacidade regenerativa...

A resiliência tem limites, não sabíamos?

E, a propósito, após um fogo, por cá, os únicos que gostam disso são os eucaliptos e os seus exploradores.
(Brisas e Portucéis... ide plantar desgovernos para as VOSSAS tumbas!)

É isto que queremos?
E claro que queremos, também, as árvores, em pinhais de Leiria espalhados pelo país, e mais vezes.

b


Mas voltando ao mundo...
Que queremos nós, afinal?

Não deve ser isto...

- Ah, mas 90 e tal por cento dos incêndios, suspeita-se, têm origem criminosa...

Olhai! Decidi vós se é realmente isto que queremos ou não!!

Porra, estou farto.

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