sábado, julho 10, 2010

Olha, não há - Mais um inquérito sobre a res publica

Quem vai passando pelas terras deste (ou de outro) país, por vezes apercebe-se de pequenos aspectos, similaridades e dissemelhanças com as terras (ou a) que temos como modelo de comparação.
Em Arruda dos Vinhos e em Sendim (Miranda do Douro) pensei para pensar nisto.


Há freguesias onde se vislumbra um "centro". Noutras infere-se perfeitamente o seu desenvolvimento / crescimento / expansão através de eixos viários, sem qualquer centro.
(Numa cidade, congregação de espaços e terras, é normal haver mais que um "centro")
Muitas vezes, esse suposto "centro" (terá sempre de existir um?) está onde está o monumento do credo religioso. Ao lado pode estar a Junta de Freguesia (muitas vezes, está).

Nos tempos de ignomínia actual, em que o capitalismo tomou conta das nossas aldeias, vilas e cidades, tomou conta até dos nossos sentimentos e sensibilidades, poderíamos pensar que uma "praça" foi um lapso, um esquecimento, um abandono ("não é economicamente viável...") por parte dos detentores do dinheiro, que a deixando assim, livre (LIVRE e aberta), não a puseram a render, a dar lucro, a gerar emprego, e essas tretas todas que todos aprendemos desde bem pequeninos a dizer que são necessariamente necessárias (sublinhe-se o reforço).

Dessas praças os elementos mais característicos podem ser, talvez (aceitamos outras sugestões):

- edifícios À VOLTA
- a sombra
- o espaço vazio
- bancos
- um fontanário
- um jardim ou um pequeno monumento (estátua, por exemplo...)
- a calma dos espaços reservados à locomoção pedestre (ou com locomoção automóvel restrita e em favor daquela)

Mas há um elemento que bem poderia figurar nesse então "espaço central":

- a casa de banho pública




Na minha terra
- e, para o inquérito que fazemos, vamos entender por terra a cidade ou a freguesia onde habitamos presentemente -
não há casa de banho pública.


Podemos perguntar-nos:

- E justifica-se?
- Com que condições? (Com a possibilidade de se tomar um banho?, por exemplo)
- Com que modelo de gestão, ou - mais concretamente -, com zelo da parte de quem?

(Porque é que o que é de todos acaba parece que invariavelmente por não ser de ninguém? Quem precisa, respeita? Sim. Portanto, que direito tem de usar um bem público quem o danifica ou lhe retira qualidade de próximas utilizações?
Etc., etc.
Colocai também as vossas questões, por favor.)

Há pessoas que não têm tecto, nem o conforto da privacidade, nem o do amor.
São seres humanos. Que lutam, com maiores dificuldades que os outros, pela sua dignidade em existir, em se alimentar, em estar, em sobreviver. Em viver.

Onde vai um sem-abrigo tomar um banho, hoje?
Tem de ir necessariamente a uma instituição dita de solidariedade social?
As cidades que dispõem de casas de banho públicas criaram-nas recentemente?
De quem partiu a ideia da sua criação? De entidades privadas? Do governo local? De cidadãos mobilizados democraticamente unidos?


Na cidade de Braga, a realidade mais aqui à mão, há - tanto quanto sabemos - apenas uma casa de banho pública (mas indicai-nos, se mais houver). Fica em frente ao edifício onde funciona a Sede do Município, num largo onde há uma Igreja e onde figura a estátua de um senhor que foi por aí abaixo para ajudar a trazer-nos um regime que se soube e ainda nos volta à boca, vacas humanas que somos.
Desce-se uns "míseros" degraus e, se estiver aberta, lá está uma pessoa.
E...
uns míseros degraus bastam para impedir alguns de aceder ao que devia ser-lhes garantido.


Casas de banho públicas? Humm... pensemos bem nisto.

Quais usamos nós quando estamos "aflitinhos" (e não por tomar um banho...) que não fazem parte de um edifício comercial, ou de um espaço que pertence ou é gerido por uma empresa?
Pensemos bem nisto.

Analisemos e conheçamos melhor o que é realmente
- público,
- privado,
- privado com uso / para usufruto público, e
- público com uso privatizado (apropriado)


Se repararmos bem, à luz dos valores democráticos (por exemplo, o do "acesso gratuito" ou tendencialmente gratuito e universal) poderemos concluir que esta questão não cheira nada bem...

Até ao fim de Julho estamos a perguntar-nos:

Na minha terra há casa de banho pública?
Sim?
Não?

O inquérito está ali do lado esquerdo.
Participem.

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