terça-feira, maio 18, 2010

Olha!, tem mesmo de ser


Não anda longe de ser um dos meus discos preferidos (dos Moody Blues é-o, claro), mas a capa deste álbum, "A Question of Balance" (Uma Questão de Equilíbrio, para quem não souber Inglês) (disco editado em Agosto de 1970), parece concentrar todas as maiores preocupações que desde cedo me têm feito como sou.
Esta é, de momento, a minha capa de disco preferida (e já vi milhares, acreditem...)

Apresento-a na íntegra (frente e verso), pois só assim está completa.

A autoria é de Phil Travers.
Estávamos em 1970 e parece que todas as inquietações que hoje (talvez desde sempre, desde o pós-guerra) nos assolam já se entreviam, pressentiam, existiam. (talvez falte o aquecimento global...)
São apenas 40 anos, isso é certo.
Mas neste segundo de vida da Humanidade, quanto não mudou?

Pelo que conheço, na música pop (é o caso), os Moody Blues foram pioneiros a demonstrar a sua preocupação pelos problemas ambientais. E este álbum torna evidente que havia já um passado, que aqui veio a culminar.

Mas não foram os únicos.
O ano era o de 1967, ano de grandes revoluções e transpirações no mundo. Social, político, artístico e, dentro deste, obviamente, musical.

Em Setembro, os Doors, de Los Angeles (Califórnia), editam o seu segundo álbum, "Strange Days", que contém a canção "When the Music's Over", onde Jim Morrison diz o seguinte:

"What have they done to the Earth?
What have they done to our fair sister?
Ravaged and plundered and ripped her and bit her
Stuck her with knives in the side of the dawn
And tied her with fences and dragged her down."


Dois meses depois, em Novembro, sai um disco em cuja contra-capa se denunciava o problema do consumismo e, claro está, do desperdício (avançado, não?). No chão (o lixo físico, ainda e só), vê-se sucata de automóveis velhos e muitas latas de bebida. No meio desse monturo, uma placa com um trocadilho inglês intraduzível mas que pouca gente terá dificuldade em perceber:

"Every litter bit hurts"

No disco propriamente dito, "After Bathing at Baxter's", dos Jefferson Airplane, banda de São Francisco (origem que não podemos dissociar do movimento emancipador da década de 60), uma canção incrível e belissimamente interpretada pela Grace Slick: "Rejoice":

"
Chemical change like a laser beam
you've shattered the warning amber light
Make me warm
let me see you moving everything over
smiling in my room
you know you'll be inside of my mind soon."

que também ousa dizer o seguinte
(ninguém o faz hoje em voz alta, talvez porque sem meios para o expressar...):

"War's good business so give your son
and I'd rather have my country die for me."


Nesse mesmo Novembro, os Moodies editam o single "Nights in White Satin", ainda hoje a canção mais celebrada e versionada do conjunto da industrial Birmingham. Pouco notado foi que do lado B estava uma canção que, já na altura, apontava o dedo à insalubridade dos grandes aglomerados urbanos:

"Here the flowers don't grow,
Here the river's just a sewer"
(Aqui as flores não crescem,
Aqui o rio é apenas um esgoto").

Ou seja, a vida tornada morte, a vida, água, tornada, morte e solução (sempre provisória, insustentável) da remoção da poluição que criamos nas cidades.
Vejam lá se 43 anos chegam para aprendermos...
Ainda não, ainda não...

Concepção errada e não pensada, filha da Revolução Industrial, essa mãe alimentada a farelo de engordar a pança de uns poucos capitalistas.
Ainda não a ultrapassámos completamente.
Este rio como metáfora do que por cá se vai passando, que tudo lá vai parar. E o pior é o mar, que é o fim-último de tudo. Os derramamentos de petróleo têm apenas a nossa cara.

Cantam eles, neste álbum de 1970, na faixa "Don't You Feel Small?":

"
Look at progress,
Then count the cost,
We
'll spoil the seas
With the rivers we've lost
"


Da capa, que dizer?
Olhemos bem para ela.
Está lá tudo.

A chaminé de fumo e a morte da ave; o avanço para a lua e o progresso nas formas de matar, a diversão-fuga e o ar preocupado de Einstein; o anonimato do sexo e nisso o atrofiamento do amor, que devia ser criador, colectivizante, e libertador; o assassínio à queima-roupa e o assassino sem vergonha, identificável e conhecido...
Por fim, a noção de que o espectáculo do mundo é aterrador, mas que a única paz que podemos ter é a de sermos espectadores, tranquilos...
Mas que bela paz...
Porra!


Mas que bela capa...

2 comentários:

bissaide disse...

Belo texto, Eduardo! "What have they done to the earth" indeed... Por cá, Fausto e depois Lena d'Água alertavam-nos para os perigos do nuclear - tenho que ver melhor quem também o fez nessa altura. Creio que os Evolução abordaram temáticas semelhantes em 1970... Abraço grande

Eduardo F. disse...

Obrigado, amigo bissaide.

Tu por aí, eu por aqui...
E todos podemos fazer alguma coisa.
Seja onde for.

Abraço.