sábado, dezembro 14, 2013

A Gaia Sapiência (também de Reclus)

A acção do homem dá a maior diversidade de aspecto à superfície terrestre. Por um lado ela destrói, por outro, melhora; segundo o estado social e os progressos de cada povo, ela contribui para degradar a natureza ou para a embelezar. 

Acampado como um viajante de passagem, o bárbaro pilha a terra; ele explora-a com violência sem lhe devolver em cultura e cuidados inteligentes as riquezas que lhe tomou; acaba, inclusive, por devastar a região que lhe serve de moradia e torná-la inabitável.

O homem verdadeiramente civilizado, compreendendo que o seu próprio interesse se confunde com o interesse de todos e o da própria natureza, age de forma completamente distinta. Repara os estragos perpetrados pelos seus antecessores, ajuda a terra em vez de se encarniçar brutalmente contra ela; trabalha pelo seu embelezamento tanto quanto pela melhoria da sua extensão. Não só ele sabe, na qualidade de agricultor e de industrial, utilizar cada mais os produtos e as forças do globo, como aprende, como artista, a dar às paisagens que o cercam mais encanto, graça ou majestade.

Tornado "a consciência da Terra", o homem digno da sua missão assume por isso mesmo uma parte de responsabilidade na harmonia e na beleza da natureza circundante.



Élisée Reclus, 
"Da Acção Humana Sobre a Geografia Física", 1864.*


Para muitas coisas com que o ser pensante se confronta ele pode vê-las de dois lados, portanto opostos. Os nossos escritos enformam, quase sempre, essa metodologia - a de um maniqueísmo insuficiente: para podermos concluir que, vistas de dois prismas apenas, muito do mundo em questão nos fica por explicar (coisas que caem fora do entendimento). Este maniqueísmo insuficiente deve sê-lo, isto é, devemos construir o olhar até percebermos onde ele consegue chegar. Ora, é esse "até" a expressão mesma da sua insuficiência.

O nosso cérebro sente-se incapaz e pobre. Mas tal pobreza deriva de um esforço de compreensão, activo, e não de uma imersão, exaustão, nos factos indistintos, nos dados, intratados (não-crivados, não tratados) com que o mundo, uno e materialmente indivisível, nos afoga.

Este é, portanto, um primeiro passo para nos lançarmos sobre ele e o agarrarmos.
É apenas um. 
E é necessário dá-lo.

A passagem do geógrafo francês, de olhar atento e tão cedo (1864!) com tão grande alcance, emprega este método: o da abordagem da postura do homem face à natureza, na relação que ele mantém com o espaço e a transformação e utilização dos seus elementos (vulgarizados pelos economistas como "recursos").

Por um lado, a do passageiro: quem não conhece não pode amar. Pode apaixonar-se, sim. Conquanto que essa paixão o leve a conhecê-la, ela dará inspirá-lo-á positivamente.

Por outro, a do que cria raízes e sabe da sua dependência: quem precisa, cuida. Pode entrar numa relação de submissão, também. Mas essa consciência, necessária, está já nele. 
E ele não deve perdê-la.

Se quisermos, podemos tentar "encaixar" os espaços com boa e má qualidade ambiental (repararam em mais estes dois antónimos? : também é por isso que o argumentário depois funciona) como os resultantes destas duas posturas.

De um lado o interesse no lucro, que é privado, pois então! (sementes transgénicas, petróleos, curas para doenças fabricadas e doenças fabricadas para as curas, incêndios para pasta de papel, expropriação e construção, rentabilização do espaço...)

Do outro, o prejuízo, que é um somatório que se rege por outros parâmetros.
E que é colectivo, pois então: saúde, educação, transportes, segurança social, democracia, ambiente...

(Que se der lucro, é privatizado: assim se vê de que lado estão os que vão dirigir o que é de todos.
Que é, dizíamos, colectivo, e que não tem de dar prejuízo. Mas que é normal que dê: são funções que têm de ser asseguradas... mas estou a desviar-me...)

É o prejuízo colectivo é o económico. E assim se aferem os valores por que nos regemos.
É colectivo no sentido de "colectivizado".
Para que todos paguemos e alguns não tenham que pagar o mal todo que causaram. Ou, melhor dos mundos, se der, e dá sempre, ainda beneficiar com tal "estatização", "publicação" dos prejuízos.


Apesar de "Eco-nomia" ser a "lei" da "terra", esta disciplina foi mal-entendida por uma besta, o homem já afastado da verdadeira lei da terra: a Ecologia.
Aprendeu mal a lição e profetiza há séculos que só saibamos tirar negas.
Pois só "passa", só vence, quem conseguir maus resultados: em nome do "crescimento", da prosperidade, do capital.
Oremos, irmãos.
Ajoelhemo-nos e glorifiquemos o deus guito e os seus propaladores.

O mundo invertido.

Em suma, se quisermos, podemos tentar encaixar a acumulação da riqueza e do poder, na balança já inicialmente desequilibrada do mundo, nestes dois últimos parâmetros: privado e público.

Vão ver: não cabe lá tudo.
Mas o que lá cabe é demasiado.


*Editora Imaginário / Edição Expressão & Arte, 2010, São Paulo
Tradução, adaptada, de Plínio Augusto Coêlho

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