terça-feira, outubro 05, 2010

Espaços vitais

Uma noite de lua cheia
atravessámos a montanha.
Lentamente. Sem dizer nada.
Se a lua era plena
também o era a nossa pena.

Para que se nos perdoe
a guerra, que a estropia,
me ajoelho e beijo a minha terra.
Com a sombra a acaricio,
antes de passar a raia.

Na Catalunha deixei
No dia da minha partida
meia vida adormecida.
A outra metade veio comigo
para não me deixar sem vida.

Na minha terra do Vallés
três montes fazem uma serra,
quatro pinheiros um bosque denso,
cinco quarteirões muita terra!
"Não há terra como o Vallés!"

Hoje em terras de França
E amanhã mais longe, talvez,
Não morrerei de saudade,
Antes de saudade viverei.

Uma esperança desfeita.
Um pesar infinito
E uma pátria tão pequena
que sonho completa.


Joan Oliver (Pere-Quart)
Tradução de Eduardo F.


Espaços vitais

O arrumador de carros afasta os companheiros, aos gritos:
- A minha zona vai daqui até ali!

O colonialista impõe-se, em todas as frentes:
(na quantidade de produtos, meios de expressão, valores e significações...)
mais ou menos ruidosamente.
Na consumo expansivo e incessante, todo o espaço, uma vez conquistado, se torna pequeno.

(...a Terra é finita...)

(...)


Espaços sociais

No autocarro e no comboio, um pressuposto, aceite conforme a densidade, da distância dos corpos (que vai, em último caso, a uma questão de milímetros, ou mesmo ao contacto físico.)
Um ombro que se toca...

Se os transportes públicos estão vazios, aceitamos -esperamos- que as pessoas se sentem isoladas umas das outras.
"Porque têm medo da solidariedade!"...
?

Nas filas para os pagamentos ou para os levantamentos, necessário é, por privacidade e respeito, que se conserve uma certa distância.
Não invasiva. Na ordem dos centímetros até ao metro.

(...)


Espaços íntimos

À mesa com a família, as conversas privadas da vida e da morte, do crescimento e do envelhecimento. Das ilusões e desilusões de cá estarmos, ficarmos, das penas por quem cá deixarmos.
Palavras íntimas que estranhos também terão. Noutra língua. Para designar as mesmas coisas. Precisamente as mesmas coisas...


Os amantes precisam de um lugar, aberto ou fechado, onde mais ninguém exista.
Onde, conforme o poder de abstracção que um invocar no outro, mais ninguém consiga existir.
Ali. Naquele momento.
Durante aquela eternidade.


Não pensar em mais ninguém:
- És só meu / És só minha...
- Sim, mas será para sempre?
Como, então, suportar a ideia da exclusividade que vai durando?

(...)


Espaços desencontrados / Espaços perdidos

Os mendigos não têm espaços íntimos.
Os sem-abrigo não têm espaço social.
Os refugiados não têm espaço vital - têm um não-espaço vital.
Donde não podem sair.

Os exilados e os emigrantes têm de recomeçar tudo de novo.


A nossa vida é
a soma dos lugares em que criámos raízes,
a soma, diferencial, das pessoas em que criámos laços.

A liberdade do indivíduo mede-se com as liberdades das pessoas que o fazem.



À medida que o mundo nos vai estrangulando a paz, invadindo-nos em todos os campos da nossa vida, seja através do ruído, do trabalho ou da falta dele, da economia inelutável, da política do desleixo, da cultura do consumo, dos média sufocantes ..., fugas se impõem.
Necessariamente.

Para mantermos a sanidade.
Para continuarmos vivos.
Precisamos de paz.

Precisamos de um espaço que seja nosso.
Precisamos de uma loucura que seja só nossa...

- O meu vício é só meu!
- Sim, mas já viste quantos milhões como tu têm esse vício?

Pessoas com auscultadores, deixando para longe o mundo à sua volta.
Pessoas ao telemóvel, trazendo para perto o mundo não à sua volta.
Cada um na sua.
Solidão multiplicada.
Desencontros continuamente adiados.
Negação do mundo.


As fugas encontradas, se muito perseguidas e mesmo assim não achadas, podem ir ao ponto de disfunções: reacções químicas, psicológicas, psicossomáticas. Obsessivo-compulsivas. Esquizofrénicas.
Ansiedade. Carências contínuas e irresolúveis.
(Inexoráveis?)

Criação de mundos imaginários.
Mundos irreais que nos respondam ao que o mundo não nos soube responder...
Que nos devolvam a nossa realidade.
O nosso direito de existir.
Não abdicarmos da nossa vida.

Onde nos sintamos nós.
Onde possamos gritar.
Onde possamos finalmente ouvir a nossa voz.

Negação da solidão inútil, estioladora.
Apurada, aprimorada...
...com a solidão.


"Perguntando a um grande filósofo qual era a melhor terra do mundo,
respondeu que a mais deserta.
Porque a mais afastada dos homens!"

"Sermão de Santo António aos Peixes",
Padre António Vieira


Viva a liberdade.

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