quarta-feira, setembro 15, 2010

Nuvens no horizonte

O oceano que nos separa não tem fundo.
Nem superfície.
O que vemos do lado de lá agiganta-se.
Ou engrandece-nos.

Mas sempre longe,
inalcançável.
(Os sonhadores são os impotentes...)


Cansados do horizonte
A afastar-se a cada passo,
O oceano que nos separa não tem mundo.


"Que caminho tão longo,
que deserto tão comprido..."

Porque o mundo deixou de girar.
Porque o mundo é plano.
(Sim, e quente e cheio, senhor Thomas. L. Friedman...)


Subtraída a esfericidade do mundo,
apenas os obstáculos,
os objectos,
os meteoros
ou
PESSOAS
nos dão horizonte.


A consciência de si
é-nos dada pela noção do outro.

A liberdade
é a liberdade do outro.

A paz que pudermos dar
é para o outro.

Aquilo que somos
só existe para o outro.



Laços invisíveis,
tendencialmente insensíveis,
na solidariedade absurda
da sociedade
em que ninguém quer depender de ninguém.



A consciência de si...
Para quê?
"Sei lá o que penso do mundo..."



Não tenho fotografia para vos mostrar o futuro.
Nem sequer a tarde a cair ao meu lado.
Vejo apenas, nestas proximidades,
um horizonte adensado de nuvens e humidade.

Essas nuvens vêem-se no longe.
De longe.

Porque a nossa visão limitada,
no espaço e no tempo,
não consegue concretizar
cada gota e
cada partícula de fumo
que ali,
ao longe,
no horizonte,
se vão avolumando,
expondo-se
ao ser ultrapassável que somos.

A consciência do perto,
do aqui,
do si,
ganha-se ali.

Na viagem que fazemos
entre nós e o outro.

As nuvens no horizonte
significam
as nuvens que nos envolvem já.
Aqui mesmo.

Mas
As nuvens de que não nos vamos dando conta.
Que vamos suportando.
Que vamos respirando.
Em que sobrevivemos e morremos
A cada dia que não passa.

Altair, 15.09.10

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