sexta-feira, agosto 14, 2015

Dentro e fora, dentro e fora

"Era todo o dia
Sempre dentro e fora
E o Conan dizia 
- "Crise.. Qual crise?""

"Conan, o Homem-Rã", Irmãos Catita

Qualquer velha questão começa com antinomias.
O homem questiona sobre as coisas até questionar a sua rês, aquilo que é, como é e porque é que é.

Fora da sua cabeça as diferenças existem.
Só dentro da sua cabeça elas podem ser apreendidas como luz ou breu, caloroso ou frialdade, dentro e fora e por aí fora.

Os aguadeiros pertencem à profissão de um tempo em que as casas eram desprovidas de instalações de água canalizada.
Os namoros e as pedrinhas nos cântaros que obrigavam as moçoilas a voltar à fonte, descalças e não seguras, para os reencherem.
- Vai prà fila, sua megera! - podiam dizer. 
Mas onde, a compra e a venda?
Da água pública, da água ali, à mão de todos para a maré cheia...


Tenho um amigo cuja casa terá um espaço útil (belo conceito moderno) será pouco maior que a sala do tecto em que me vou abrigando.
Um casebre não é um tugúrio.
"A louse is not a home", né, Pedro?
Mas, cabe perguntar?

Seríamos assim tão pobres?
Seremos assim tão ricos?

Porque seria um espaço tão pequeno suficiente...
(O homem habitua-se a tudo, mesmo que o hábito possa fazer o monstro)
... para viver / sobreviver / ter sobrevivido até hoje?

E porque parece hoje ter deixado de ser suficiente?


Gosto das casas com a porta aberta. Com porta, mas aberta.
Em que a rua e o interior se interpenetra.
E clamam que isso é que é pornográfico, nos tempos que correm.
Ninguém os mandou correr...

Ah, mas uma grande casa, carro à porta, jardim, quiçá piscina, um cão a ladrar a quem queira meter o bedelho para cá do muro, um ladrão a infalivelmente mandar o seu cãozar para o lado de lá do muro.

A separação.
A separação que nos rasga o corpo e alma, vivências, paixões e memórias e as erode para longe, até onde nos faça menos dano.
A separação.

Dentro e fora.

O espaço pequeno, comido, sob formas antigas de edificação, desapropriado para os moldes da desconstrução urbana vigente. Apropriado.

Propriedade somada.

Resultado:
Mais dentro e menos fora.
Pornografia espacial no comboio descendente e excitante mais das terminações nervosas que da base, cerebral.

Imagem e o seu efeito nefasto e implacável, estatuto para quem o suga dos seus adoradores-por-isso-súbditos, poder, ostentação, riqueza, ambição, a distinção
...

a distinção assenta muito bem para engavetar cada um no seu devido compartimento, para que cada um, isolado no seus altares imaginários, não repare que todos vivemos em caixotes betonizados de que alguém se vai aproveitando...

competição... privacidade.
(Dentro e fora)

- Não, não! Alto lá, privacidade é um direito.
Consagrado na constituição consentânea com o parasita vira-casacas do capital. 
Faz parte da liberdade, a privacidade.

Cremos que a privacidade não se teria tornado, não a teríamos tornado, num valor tão extremo, tão democrático, portanto, se o terrorismo da voragem do espaço tivesse conhecido obstáculos e valores que não se comprassem.

Mas quem não tem privacidade, então, ó tu que tanto gostas do racionalismo lógico, concluo que não é livre.
- Exacto, é correcto.
- Ai sim? Então quero:

a) que me devolvas o tecto que pagaste para demolir,
b) que me ressarças do silêncio de que me tens privado quando sais à minha rua,
c) que não ter de comprar direitos, incluindo esse.

E quero muito mais coisas, agora.
Quero o mundo de que tenho sido espoliado, não quero que me dês, nem muito menos que me vendas mais, o teu mundo que me espolia.

Passámos a ter a água dentro, à nossa mão.
Passámos a viver dentro, entre muros fechados, porque o espaço exterior tem vindo a ser comprado, degradado, apropriado, traído e subtraído reduzido, pois claro. 

Nas ruas esconsas e que os privados deixaram para a "liberdade" dos planos urbanísticos, quais relvados atrás dos blocos de apartamentos e sob linhas de alta tensão, vão passando os deserdados, os humilhados e ofendidos do mundo que já não é deles, que já não é nosso. Foi vendido aos "livres" do mundo livre, o mundo capitalista. Não há outro, sussurrantemente nos apregoam por todos filmes, publicidades, musiquinhas da treta nas rádios da treta, nos intervalos imensos dos telejornais esguios.

 Dizemos tudos juntos
Pim, pam, pum,
que cada nota pra cá
mata muitos.
Lá.


O paradigma mudou com a colonização imperialista, expansionista do capital.
Quando passámos a fazer cada vez mais coisas com o fito no guito, mesmo as colectivas, que das egoístas já se perderam as palavras.
Algo mudou:

--- Por fora, na forma como vivemos - mais dentro que fora (futebol de rua é brincadeira de crianças. Vejam o espaço de que precisam para fazer um estádio de futebol - símbolo moderno do poder disfarçado de apenas entretenimento). 
Com medo do outro, que está fora de nós, que não somos nós, que estamos sós.

--- Por dentro, na forma de pensar, que estamos menos solidários, menos activos, menos interventivos, menos curiosos, menos reflexivos, menos atentos (ao que se passa fora de nós, que estamos demasiado preocupados a tentar compreender as nossas histerias e psicoses - sinal do isolamento e da fragmentação do indivíduo social). 
Com medo de nós, na vertigem auto-enganadora dos telemóveis no vai-vem da mão para o bolso de trás, a pensar que quebramos o isolamento com uma comunicação depauperada e de cará-cá-cá; que estamos fora de nós.

Que somos nós?

Estamos sós.
Por dentro e por fora.

 Os serões habituais
As conversas sempre iguais
Os horóscopos, os signos e ascendentes
Mais a vida da outra sussurrada entre os dentes
Os convites nos olhos embriagados
Os encontros de novo adiados
Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de Lisboa

Não está só a solidão
Há tristeza e compaixão
Quando o sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colchões errados
Há o silêncio de quem não ri nem chora
Há divórcio entre o dentro e o fora
E há quem diga que nunca foi boa
A canção de Lisboa

"A Canção de Lisboa", Jorge Palma

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