sexta-feira, julho 05, 2013

Os Anjos de Pureza

"- Quem foi o responsável por isto??
Quem é que o deixou entrar?
Vamos abrir um inquérito e iremos punir os culpados!
É tudo por agora.
Não haverá lugar a perguntas."


Imagem daqui

Assim falou, em conferência de imprensa, irado e furioso, inquiridor, acusador e inquisidor, o maior cego dos tempos calcinados.

O louco acabara de descobrir, coitado, acolitado e empalado, que deixaram entrar o sol na terra.


(Sim, claro, mas, obviamente, mais do que o habitual.
E sabemos do que estamos a falar...)

Ai o purista!!
Nem admite dúvidas.


(Ah, só para informar os caríssimos cegos de que os culpados irão ser punidos sem necessidade daquele inqueritozinho persecutório.)


O purismo é igual a nada: pois todas as concepções mentais separatistas acabarão a morrer na praia a debater-se entre os dualismos. Sejam os do corpo e da alma ou, primordial, o da forma e do conteúdo.

Mesmo assim, admitem, hipocritamente, quais pregadores da mortífera religião católica, que uma coisa nada tem que ver com a outra e que a independência é um facto.

Só à custa de muita propaganda é que lá chegam.

E se esta julgam necessária é já sinal de que tal ideia não decorre de cada um a descobrir.

Os sistemas fechados, física e geofisicamente, não ocorrem na Natureza. Há sempre algo que escapa, sempre algo que, mesmo que em quantidades diminutas, entra nele.

A água da Terra interage com a biosfera, ela própria tendo-a como constituinte.
E se tudo fosse fechado, sem intervenção do exterior, a luz nem sequer entrava, amigo de óculos escuros e bengala a dar a dar.


Imagina o teu ser, já que podes, antes de ser ser capaz de pensar. Pois seria isso o que serias se não interagisses com o meio, que - já nem vou falar de "ingerires" as coisinhas suculentas e sucurrápidas do meio - a luz não entrava, que o oxigénio não entrava, nem o dióxido de carbono saía...


Tu não existes, ó purista!
E eu aqui te denuncio de uma vez por todas!

As fronteiras são arbitrárias e existem apenas para não perdermos a consciência de que elas são transponíveis. E que é NECESSÁRIO que assim seja.

Para seres o que és e para sermos o que somos.

És um ideólogo quase perfeito da manipulação.
O tal da mão invisível.

Dos mercados.

Sem quaisquer intevencionismo - MANTENHAM OS ESTADOS FORA DA ECONOMIA! - assim gritou o senhor Friedman e seus sequazes petizes boys chicaganos a borrar o mundo.



Mas algo falhou, estúpido.

E não foi a economia.
Foste tu e a tua besta criada teoria.
A dita abertura, a ditadura dos mercados, da economia livre e todas as balelas que nos tens feito engolir, qual merda em vez de pão, desde a década de 50.

E vou passar a explicar-te porquê.


A economia não levou as coisas ao sítio, normalmente: apenas acelerou a transferência da riqueza para o poder. Não está na normalidade, económica ou o raio que a parta mais for, a insustentabilidade dos ciclos com becos ocultos, mas segurados, securitizados.


Imagem daqui


Essa seria a primeira explicação. Mas ainda não te chega, sei que não. 

Crente sou, a querer fazer ver o cego pior, o cego que não quer.
Mas alguém mais - tu nem me interessas, que nada és sem os que se te submetem - há-de ver as razões.


A tão propalada e defendida não intervenção do Estado, em nome da justiça e da liberdade - ECONÓMICA, claro, seu carecedor de definições, apto às manipulações nas omissões - :


a) "flexibilização" laboral [para despedir melhor, para pagar menos, para reduzir as férias, para impedir liberdade de associação, reivindicação (sim, quem reivindica também está a empurrar-se para a posição de submissão, pois mantém-se na situação de pedir...)... para tomar consciência de que as coisas são ordenadas e que, se assim são ordenadas, de outra forma o podem ser]


e (basicamente)


b) concessão dos serviços aos privados (dizes ser em nome da eficiência económica, mas sua besta, com ou sem ela eu já te descobri a careca!),


e tal inclui tudo o que diz respeito a todos


- a Saúde
- a Educação e o direito à diversidade de opiniões
- a Segurança Social
- a Habitação
- a alimentação
- a água
- os transportes públicos
- as estatísticas
- o DIREITO ao trabalho
- a manutenção dos espaços públicos
- a gestão dos parques florestais e reservas e recursos naturais (detesto o emprego da palavra "recursos", em "recursos naturais", pois faz depender o entendimento de os mesmos são para usarmos... ou que estão ao nosso serviço... económico, até, claro!)
- o poder de decidir sobre estes assuntos
...


Com o cerceamento exacerbado destes direitos, decorre

não o direito de fazer a guerra, que o monopólio, reparámos, está do teu lado, mas o direito de sofrer com ela...


A concessão é a delegação e esta é o princípio da não-representatividade, e, por sinédoque, do funcionamento sempre cambaleante da injustiça. Seja esta praticada em Capitalismocracia, em Comunismo, ou no que mais te apetecer chamar-lhes.


A concessão dos serviços de todos às empresas de alguns (sob as quais se escondem, vermes protegidos, os "accionistas") não é para garantir, necessariamente a sustentabilidade económica, mas - A RAZÃO ESTÁ MESMO À FRENTE DO NARIZ E É POR ISSO, A PROCURAR RESPOSTAS MAIS LONGE, QUE A NÃO VEMOS - para garantir - de imediato e na própria prática presente, sem esperar de resultados futuros - a transferência dos dinheiros públicos para o bolso dos privados.


O que distingue ambos os interesses, não queres perguntar?

É que um, simplesmente, zela pelo interesse da maioria e outro pelo interesse da minoria. Como não se podem confundir, ambos inventaram uma sua correspondente materialização: o lucro para eles, os danos para todos os outros.


O capitalismo é verme por natureza.

Por isso é que nunca deixará de ser injusto, de manter e amplificar as injustiças e as desigualdades.


Vêde bem, como Portugal é dos países onde a desigualdade económica mais tem crescido nos últimos anos.

O Junqueira explicava há dias, que, apesar da crise e da pobreza, os bilhetes dos festivais eram muito caros mas que isso se deve à capacidade para muitos poderem suportá-los, pois que a diferença de rendimentos assim lhos permite. E assim os grandes festivais vão parar às capitais, que são as capitais do capitalismo. Portanto, das maiores disparidades de rendimentos.


E, conclui, é por Portugal ser um país pobre (tratemos de redefinir que a riqueza ou pobreza de um país não é o valor da média dos rendimentos, mas a, respectivamente, menor ou maior desigualdade entre eles) que os festivais campeiam e estão cheios.

E que é por isso que tem tanto sucesso o Rock in Rio, festival exportado, mera coincidência?, de um dos países mais pobres (i.e. injustos) do mundo. O Brasil.

(Vêde como o sobrinho do Cavaco e a sua terratenente-pavilhão-atlanticizada privada empresa nos vai enojando até à exaustão com a publicidade ao maior cartaz de sempre do festival de Oeiras. É um privado a inundar a televisão e a rádio do Estado... são parasitas, como sempre foram e não PIDEm deixar de ser - está na sua natureza imperial).

Imagem daqui

O capitalismo é uma festa, mas a maior parte são convidados que não têm para onde ir, inebriados pelo espírito que não lhes resolve a pobreza, a eles, com a opulência ali escancarada à frente...


E é assim que podemos dizer que a promessa da mão invisível só resultou se este acelerar das desigualdades fosse o primeiro ou o único propalado benefício da desregulação e do esvaziamento dos Estados enquanto moderadores da economia.


Assim, sim. E a economia livre está a funcionar bem e bem de mais!

O problema (e já lá vou) é que isto equivale a dizer que economia livre é contrário de democracia.
Tal como, a par e passo, o desenvolvimento (tido como crescimento, para uns, e destruidor, para todos) é incompatível e contrário da ecologia.
Tal como, qual espelho, o exercício da democracia directa representa uma ameaça ao "normal" funcionamento depradatório e assassino dos mercados.
E é por isso que eles reagem quando algo os pode pôr em causa.
É a censura dos mercados.
Tão livre que ela é...!


Esta perversão deve-se, dizes, a que ainda não houve suficiente desregulação e privatização.

Por isso o pequeno deus caseiro Gaspar dizia que o pior erro era aquele que ainda não tinha cometido, mas que estava prestes a cometer. ("inevitavelzinho a dar c'um pau...") Porque a ideologia do mercado não permite desvios nem intromissões e se o caminho está errado então é porque tem de ser levado até às últimas consequências. Errado para todos os outros, certo para os iluminados da mão invisível. (Mão invisível? A quererem tanta desregulação??)


Mas esta foi a única perversão quiseste iluminar para nós.


Pois o tal purismo que defendes, tu e os teus mal paridos filhos, não deu prò torto só aí: a questão é que nunca o quiseste praticar.

Pois como os sistemas puros, fechados não existem, tu sempre fizeste o teu necessitar do que pretendias combater

- Para impores a ditadura dos mercados, precisaste, helás!, da ditadura militar. 

E o EXÉRCITO é, olha, olha... uma instituição do Estado.
Sim, tens resolvido esse assunto, cortando financiamentos à Defesa e profissionalizando as Forças Armadas, mas só porque começaste a criar mercenários privados. Acaba-se com um serviço estatal e os dividendos ficam todos do teu lado.


- Para garantires os seguros de saúde, as reformas para quem trabalhou e trabalha, criaste empresas e bancos de investimento, enquanto ias depauperando o sistema de segurança social. Mas só se o ESTADO, lá está permitisse que essas tuas empresas pudessem fazê-lo e, MAIS, te pagassem para o fazeres. De que pagamento falo eu então? Não te chega esse dinheiro de todos passar a estar nas tuas mãos??

Assim, acaba-se com um serviço estatal e os dividendos ficam todos do teu lado.


Para forneceres - só a quem pagar, e BEM (leia-se MUITO)! - água, habitação, saúde e alimentação às massas, à ralé, coisas que tu é que decides e classificas e produzes e instituis, crias empresas para o efeito. Delegadas, por despacho administrativo, local e nacional, nunca internacional, que este é o somatório dos grãos a grãos de areia daqui e dali. 

E, para acelerares este processo de transferência, destruíste esses bens enquanto não estivessem ao teu serviço.
Mais uma vez, deu-se a transferência dos dinheiros. Do público para ti.
Por um punhado de milhões.
Que por só estares nisto pelo dinheiro é que te distingue do público.
E assim dita a lei do mercado.
E assim, dita ela, acaba-se com os serviços estatais e os... DIVIDENDOS ficam todos do teu lado.

PERCEBESTE???
SEU ESTÚPIDO...


O Mercado só existe se o Estado existir.

Pois que ainda não acabaste com ele de vez para continuares a chupá-lo.
A nós.


Porque és de natureza injusta, não representativa, e a tua legitimidade nunca foi referendada...


(NÃO SE ABREM INQUÉRITOS, POIS SE SE ABRISSEM DESCOBRIRIAM A RESPOSTA...
E a resposta seria oficializada: NÃO TENDES LEGITIMIDADE PARA CONTINUARDES A EXISTIR E A "funcionar normalmente".)


... é que precisas do Estado: escondes-te atrás dele para fazeres o teu trabalho sujo que é EXISTIRES.

E queres, via propaganda mil vezes repetida, fazer-nos à tua imagem e semelhança, deus vil e estuporado!
Queres reproduzir o teu sistema de pensamento dentro de nós e por todos os países, terras, povos e sociedades.


O buraco financeiro dos países é uma forma anódina e antónima de falar do dinheiro que os privados sugaram aos Estados. Sim, bancos e empresas chupam tudo e depois vêm com reacções dos mercados e sermões de agências de notificação financeira para imporem o seu pagamento.

E os juros da dívida é para os manterem para sempre acorrentados e garantirem a sua sustentabilidade. Sim, a dos bancos, que as pessoas já não querem ter nada a ver com eles. 
Por isso apelam ao Estado, o Estado de que eles sempre dizem ter querido ver-se livres, para salvar a economia. Pois a economia, tal como ela está e existe, é A DELES

Imagem daqui

Para que o Estado apenas continue a transferir o dinheirinho e o poder para os privados. 

Que o capitalismo tem de crescer e crescer, indefinidamente, sem volta atrás e sem interferências. A ritmo constante, senão... crise!!!!

A crise é o estado permanente, nos que comem muito e nos que não comem ou comem mal (de menos e de mais), por isso, não nos venhas falar que o Capitalismo é o melhor sistema com excepção de todos os outros, seu encurralador NATO implacável que tudo esterilizas...

Se não és puro
se não podes ser puro,
se não consegues ser puro,
se não queres ser puro,
Só podes ser corrupto.
E é corrompendo que te exercitas.



Mas, olha, vê lá:

é que isto está tão mau, tão mau, tão desequilibrado, levaste a um agravamento tal das desigualdades, corrompeste as relações sociais de tal forma, fodeste de tal forma o Estado que, imagina tu, é o próprio ESTADO que está agora a ser posto em causa.


E as instabilidades nos Governos não são senão a antecâmara do que pode chegar a ti. São os Governos e os ESTADOS a linha da frente, a carne de canhão que te protege a rectaguarda enquanto tentas dar à sola.


Mas nós vamos cercar-te.

Tal como nos tens feito durante estas décadas todas.
E, lamento, mas também não vamos ter piedade de ti.

quarta-feira, julho 03, 2013

Representatividade

Quando um país está desagregado e o seu Governo não o acompanha, ou está a tentar agregá-lo ou está em vias de se esboroar ele próprio.

Mau sinal era que, assim, o Governo se mantivesse de pedra e cal.

Que significaria isso senão um completo divórcio, mesmo que filosófico, entre governantes e governados?

(Nem merece uma palavra a arte do bacoquismo de quem preside a esta piolheira de república dos bananas, ele próprio um banana da pior espécie e com provas dadas nas "negociatas em cadeia sem cadeia à vista".)
(Só para definir os fálicos amarelos: são aqueles que, não denunciando a corrupção, e acomodando-se às migalhas da mesma, obstam a que ela seja combatida.)

Mais: se se verifica tal divórcio, como pode um ser considerado governo e outro governado?

A pança deste Governo, como a ministra Assunção disse sobre os eucaliptos, "cresce um bocadinho": que há lá dentro? o joguinho e o rato.

A montanha pariu o rato.
Somos nós os paridos.

E os mercados já reagiram!
Ui...

Aí está a tão propalada independência da Política face ao poder económico.

Os tais condicionamentos, as tais fivelas do cinto que nos aperta a barriga e a respiração democrática: como resultado, se qualquer país, dito aberto, ocidental, globalizado (i.e., sujeito às forças da globalização, que mais não são que as forças dos agentes multinacionais e de nação nenhuma, incluindo as ditas duras instituições "dos países todos, que se reúnem para discutirem dos seus assuntos..." como o FMI, e também as agências de notação financeira e os bancos...) quiser um rumo distinto...

...os mercados reagem!

Como consequência, morreremos encaixados (no caixão) no centrão e no lodaçal que extingue e trucida quaisquer ondas.

Mesmo que numa hipótese remota de o "povo", que o polvo adora tragar, eleger um governo dito das extremidades, que condicione a acção das tais ditas duras que o condicionam, a reacção será automática e proporcional.

Vejam o que cozinharam para o Chile no dia 11 de Setembro de 1973.
Nada de muito diferente, até e portanto: sacrificam a confiança dos portugueses em nome da confiança dos estrangeiros, das instituições internacionais e dos mercados. 
E sacrificam as pessoas em nome da economia.

No fim, aos pedaços, aos despojos, comentam os exilados:
"A operação foi um sucesso, mas o paciente morreu."

quarta-feira, junho 05, 2013

Não são prenúncios, senhor: são já a coisa propriamente dita.


Ao analisar a temperatura da superfície da terra, a NASA apurou que 2012 figura como o nono ano mais frio desde 1880. Os cientistas da NASA do Instituto Goddard para os Estudos Espaciais (IGEE) comparam a média global da temperatura de cada ano com a normal climatológica que vai de 1951 a 1980. O período de 30 anos permite uma base de análise a partir da qual se pode medir o aquecimento que a Terra tem sofrido devido ao aumento de concentração de gases com efeito de estufa. 2012 foi o nono ano mais frio mas os dez anos mais frios analisados pelo IGEE foram registados desde 1998, continuando a ter temperaturas bem acima da média das registadas durante o século XX.

As medições fazem-se desde 1880 pois foi a partir dessa data que passou a haver estações meteorológicas suficientemente distribuídos no mundo para apurar a temperatura global.


Vídeo e texto da Agência Nacional Norte-Americana


Ah, para quem reparou, hoje é Dia mundial do Ambiente, mais um dia a maltratá-lo.
Malgrat os esforços dos Davids que lutam pela calada contra os engenhos da destruição.

domingo, maio 12, 2013

Aí está ela.

Aprovada na Comissão Europeia.



Agora, "quem cultivar, reproduzir ou trocar sementes que não tenham sido registadas, testadas e aprovadas pela nova agência* incorre em 

acto ilegal".


Pronto.
É tão-só isto.
Vamos ver o que é que vai acontecer agora.





* uma nova agência a criar: algo como Agência de [e não Para a] Variedade de Plantas da União Europeia.


Saber mais aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui...



"O capitalismo generalizado não pode deixar de destruir o planeta tal como destruiu a sociedade e tudo o que é colectivo.


Serge Latouche

terça-feira, abril 09, 2013

Fafenses: somos todos Madeirenses! Terceirenses, Micaelenses, etc. etc.

Quando os erros não são pagos pelos que já se puseram a andar,

isso tem nomes: corrupção, prepotência, usurpação, desrespeito, abuso de poder, manipulação e outros procedimentos da mesma índole com que os nossos empreiteiros / autarcas / políticos / empresários sem escrúpulos e valores que não os do bolso e da bolsa aprenderam a viver, impunes.

Ordenamento do território desordenado, território vilipendiado, uma vítima é uma vítima a mais.




Para funcionar bem e fazer da prática um sistema, não basta haver corrupção nas altas instâncias que beneficiam com as infracções ao que a lei quer salvaguardar: é preciso que as bases alimentem e sustentem essa corrupção. Por exemplo, com a ignorância dos riscos, indo alimentar erros.
Depois sofrem as consequências.
Que de nada adiantará procurar culpados se o desastre já tiver destruído vidas.

Quereremos apanhá-los, nós, por entre os despojos e os detritos que deixaram para nós. Só para nós.

 Imagem do Jornal de Fafe




Imagem do Jornal Público

Importa em tudo o que tem carácter geográfico o que em si está implícito: o enquadramento. Por isso, a imagem do jornal Público é elucidativa do desnível a que as casas estão.

Isso é só a topografia. 
Que, para a força gravítica, é quase tudo.

Mas depois vem o historial daquelas terras: se eram dali, se resultaram de aterros, se eram só terras, se se encontravam solidificadas, se continham rocha-mãe...

Quanto ao clima, devemos sempre lembrar-nos que há uma quantidade de precipitação a que os sólidos passam a comportar-se como líquidos.
Esse comportamento pode ser coadjuvado pela topografia e pela composição.

Há ainda outros factores a ter em conta: 

- o impacto que o terreno estava a suportar (fundações das casas, peso por área...)

se o mesmo tinha alguma força que as contivesse face ao desnível (muro, paredão...).

- se o Plano de ordenamento vedava a construção, devido à classificação da área e face ao declive. Claro que não devia ser o caso, como já não é assim tão óbvio.

(nem vamos referir a vibração da circulação rodoviária, ou outra, pois se um terreno sofresse solifluxões assim por essa palha, seria como estarem os construtores a tentar erigir castelos na areia...)


Mas quando as coisas correm mal vamos então observar se as regras foram cumpridas, para perceber o que pode ter ajudado à destrutiva festa.
Ou seja, temos o proverbial e péssimo hábito de procurar depois o que devia ter sido salvaguardado no devido tempo e em sede própria.
Na altura das intervenções humanas no terreno e modificações da paisagem e  dos usos do solo.

É o pla-ne-a-men-to!, estúpido!

E assim vai o funcionamento dos países das cabeças pequeninas.

Talvez nos contraponham:

- Cabeças pequeninas, as deles, que os meus bolsos estão cheios.
E numa terra de burros, quem tem olho prò negócio é o rei da máfia.

Assim tem dito e escrito a lei, o corrupto-tipo imperante, cabeça-de-altifalante, propagandista-asfixiante, comprador-de-almas-alienante.

Não percamos a lucidez: a posterior solidariedade para com as vítimas ou os familiares das vítimas não é justiça.

terça-feira, março 26, 2013

É pra rir?

É que não me dá gozo bastante para vir aqui denunciar a anedota em que foi transformada a cidade de Braga.

Não disponho de testemunhos fotográficos para o demonstrar.

Desde que as "regenerativas" obras ficaram concluídas - assunto que está sempre pendente e subconsciente no Georden - que os resultados esperados aí estão. Para valer.

Há duas coisas, para começar e pelo menos, que enfastiam os moradores ou passadores frequentes no burgo.


Cidade onde é mais que habitual chover, e muito, é incrível que os engenheiros, os arquitectos, britaleiros e politiqueiros - olhem, vem agora aquele Vítor Sousa, corrupto (caso do caso da TUB, com mais, pelo menos, sublinhe-se, outra senhora) que não pudemos escolher para candidato pelo PS a substituir o dinossauro - ainda não tenham tido sequer a ideia de resolver o problema da falta de escoamento dos passeios e da Praça da República.

Chamemos-lhes ineptos, vendidos, dorminhocos (no mínimo!) ou estúpidos, desfasados, bonecos de gabinete, empecilhos, sorvedouros do nosso dinheiro... a questão é que eu e centenas de pessoas temos de levar com a água pluvial a dar com uns bons centímetros acima do chão.
E o problema assim não se resolve.

Aliás, esta água podia ser aproveitada.
Se esta cidade tivesse algum planeamento sustentável. Em termos ecológicos, claro.

Porque com estas obras houve uma sustentabilidade em que os "estrategas" não se esqueceram de pensar:

a redução de espaços de estacionamento livre.
Pois há que ir buscar receitas aonde se puder, que o poder central já anda chateado convosco e além disso pobretanas.
Olha, até com uma empresa ligada - pagamento de favores, só pode!, que é para isso que eles estão lá infiltrados. Quando não são as mesmas e únicas intervenientes - para controlar os parcómetros.

Parece que têm andado com pouca sorte, os senhores da ESSE.
MAS QUE AUTORIDADE têm estes senhores?
Quem lhes concedeu a tarefa sabemos bem quem foi, mas foi com o reconhecimento, provado, dos cidadãos sobre os quais incumbe a decisão e escolha?

Quando quiserem multar-me, chamem, DE IMEDIATO, um agente "oficial", da polícia, pois então. 
Que um sujeito com aparelho nas mãos a verificar se a avença que nós pedimos e que teima em não nos ser passada (um dos jornais do município, isto é, com infiltrados e financiamentos reversíveis, vulgo favores e enche-cefálicas ideias do status quo, falava há umas semanas que a Câmara não estava a emitir avenças há mais de dois meses... que curioso!) não é agente nenhum.
Eu não o reconheço com autoridade.
Porque eu não lha dou.

E com isto da concessão, onde não fomos chamados a meter o bedelho, até vão mais longe que o objectivo previsto que era o das pessoas irem meter o popó nos parques dos senhores Rodrigues e Névoa. E muita gente, talvez como protesto (se a lucidez já aterrou por aqui...), tem recorrido a esse esquema. 
O que vai dar no mesmo e resulta em: "Conseguimos! O plano está a funcionar na perfeição. Bela ideia esta da "regenerar Braga"!" 


Exemplo 1 - Concavidade junto ao chafariz - Praça da República
Foto de E. Soja - 23.8.12 

Exemplo 2 - Um excelente acabamento - transição da Praça da República para via de rodagem automóvel.
Foto de E. Soja - 23.8.12

Exemplo 3 - Obra por terminar - "ad infinitum" (ler texto para mais explicações)
Frente ao Banco de Portugal
Foto de E. Soja - 23.8.12

O retratado no primeiro exemplo é um problema que permanece. E que permanecerá enquanto a balança do poder estiver inclinada para o presente lado - o dos valores privados a primarem sobre quaisquer outros. É que nem a estética parece contar, eles que gostam tanto de "deves e haveres"...

Tal como o atraso dá em insurgirmo-nos contra os adeptos do clube "inimigo" e nisso esgotarmos as energias, bem úteis são, para - se quisermos continuar na mesma linha de violência - destruir uns patrimónios privados dos que nos andam a tratar da vidinha (em seu benefício, claro) - coisa para a qual era preciso mais cabeça e menos fanatismo bacoco...

... também o panorama, ou as vistas, que temos da avenida, limpa e desobstruída de construções em altura (ali como na Praça Conde de Agrolongo), não resultam do gosto estético ou dos valores de planeamento, mas sim de não ser possível nem desejável, tal como não erguemos casas no mar, de sobrecarregar o espaço com muito peso.
Sob risco de abatimento, o que seria uma catástrofe, alguns carros esmagados, alguns mortos e tal.

Porque os túneis e os parques de estacionamento a eles associados estão a minar esta parte da cidade, impossibilitando obras. E a isto se chama o poder instalado e bem instalado, incapaz de ser removido, pois daria, além de muito trabalho, muitos problemas a quem por isso se pautasse ou isso propusesse.

Curiosamente, não é tanto pelo buraco toupêirico que há por baixo, grande galeria das térmitas do poder económico, que aquela concavidade se dá, mas sim porque, é visível e audível, há ali uma conduta de água.
Ora, se há coisa que sabemos é que os líquidos são, por natureza física, móveis. E a água, grande agente de transporte. Se as coisas não estiverem bem acauteladas e canalizadas, as pequenas areias em que se vai transformando o solo (matéria orgânica mais sais minerais e ar, não esqueçamos) serão, aos poucos, arrastadas e removidas. O resultado é um vazio que a não ser preenchido provocará um abatimento.
E, voilá, aí temos aquela concavidade. Talvez até fazer cair o mais desatento transeunte, por uma ou outra pedra mal colocada ou um erro de expectativa no andamento.

Do exemplo 2, aquele mesmo foi resolvido passados poucos dias. Pois além do desalinhamento das pedras, também houve um desnivelamento entre as pedras que separavam o passeio e via. Até isso ser corrigido algumas pessoas tropeçaram naquele mau acabamento.

O exemplo 3 serve mais como ilustrativo situante para vos vir falar da anedota de hoje.

Como podemos ver, há uma diferença de piso entre a pedra da - novamente ali posicionada, e tudo bem - passadeira e a pedra geral por onde os carros passam. Vulgo paralelo. Que não sei se serve para infiltração, estudo a ser feito (e coisa que duvido), mas serviu muito bem para aumentar o ruído emitido. Talvez tenha conduzido a uma redução da velocidade dos senhores automobilistas que se esquecem da adequação e regra imposta dentro das zonas urbanas. Ainda por cima, com tantos transeuntes em movimento.

Esta diferença de piso serve para indicar aos automobilistas e aos peões que, além da lomba (fixem esta palavra), há ali algo a apelar a uma mudança de comportamento. No caso dos peões, que é por ali que se atravessa. No caso dos automobilistas, que é por ali que os peões poderão atravessar-se. Mesmo no vermelho do semáforo, os incívicos!

Mas não só.
Esta pedra, ao longo da Avenida Central (que é dela que estamos a falar) e da Rua dos Cãos ocorre pelo cinco vezes. Quatrs lombas/passadeiras e uma não-lomba, à entrada do túnel que vai sair na Avenida da Liberdade.

Ora, se estamos bem atentos, desde que as obras foram concluídas, houve cerca de seis problemas a elas associados. Estas lombas têm pedras, todas do mesmo tamanho, muito grandes. E a pedra, já se sabe, não verga. A inclinação inicial e final de cada uma das três não estava bem segura e houve o partimento das mesmas. Do levantamento de hoje já vamos falar.

E toca os operários a substituir ou a pôr areia por baixo, para as mesmas não ficarem a balouçar. Lajes partidas vimo-las já à entrada do túnel, na lomba em frente ao Banco, na lomba / passadeira junto à entrada lateral do Centro Comercial Avenida / BragaShopping e - primeira a partir-se - no Largo dos Penedos (junto à Regina Doce e à paragem dos autocarros).

Põem umas vergas com uma fitinha vermelha e branca a sinalizar "Cuidado", não chegar perto, obra a reparar, parece dizer.
Assim, esta é a obra que nunca acaba. Como estava na legenda da foto. Pois que a estrutura está mal feita, os problemas serão recorrentes.

E tal como a mudança recorrente dos amores-perfeitos nos cântaros que escorrem areia para o fundo na Avenida da Liberdade, este é mais um tachito assegurado à fornecedora da pedra retirada do sítio onde os adeptos se inspiram para violentar pessoas, camionetas e sedes de clubes "inimigos" pelas redondezas.


Mas se há motivo para rir foi o de hoje.
E que pena não haver foto!
Não era tão digna como aquele engolimento junto ao Aqueduto das Águas Livres em Campolide daqui há uns tempos, mas também foi muito giro.
Conta quem passou.


A TUrBa que passou...

Uma destas pedras estava levantada a tal ponto que um autocarro da TUB... 

(daqueles que a empresa promove com a cara de uma jovem toda gira e com um sorriso de quem vai alheada de que, na realidade, os TUBs só andam, lentamente, com idosos ou crianças que outro meio não têm para se deslocar pela cidade e para irem para a escola ou dela voltarem) 

...lá ficou preso.

Isto terá sido pela manhã, talvez pelas 9h e tal, a julgar pelos apitos dos automobilistas assim imobilizados e em tensão para chegar ao trabalho escravizante ou à escolinha encaixotante do filhinho.

Na azáfama e indignação, até veio uma jornalista entrevistar os "transeuntes"...

Ah, que pena...
Não haver foto.

Mas...

Ah!, que pena esta cidade não funcionar para os cidadãos e não oferecer uma melhor qualidade de vida aos que nela vivem.

E ficar com a nítida impressão de que esta cidade só funciona para os que dela vivem e fazem negócio.

(Nota: só tivemos oportunidade de falar de alguns aspectos)

sexta-feira, março 22, 2013

O desafio do crescimento é que num espaço finito aquele não pode ser infinito


Ver mapa BreathingEarth


O aumento da população é uma transformação da biomassa e das matérias que há na Terra em outras coisas. Ora, como só a Natureza sabe bem fazê-lo (tivemos milhões de anos de exemplo) as coisas estão a dar prò torto: assim, agora produzimos desertos, secura, lixo, dióxido de carbono e outros gases, betão, alcatrão, corrupção, esvaziamento, autoritarismo, hipocrisia, escravaturas, destruição de ideias e fechamento de caminhos.

E guerras: a da fome e a das armas.
O objectivo é sempre o mesmo: considerar o "Outro" como inimigo para limpar o respeito do caminho e destruí-lo.
Para que não obste ao...

Crescimento?
Desenvolvimento?
Progresso?
Bem-estar?

Reforço do poder.
Estão a vencer mas cada vez menos a convencer.

Vêde o crescimento demográfico islandês, sustentável, e como ele pode andar associado à raridade da biomassa que sustenta os corpos humanos e a uma outra concepção de vida, do Homem e da sociedade (que difere da imperialista capitalista: crescer, crescer, crescer, crescer...)

Vêde o descrescimento populacional (não sou contra o decrescimento) de Portugal e como para tal desencantaremos inúmeras explicações:

- abandono do sector produtivo em detrimento do ilusório sector especulativo  e engonhador (serviços e comércio)
- falta de perspectivas, de ideias e sobretudo, que são cada vez mais a senti-lo, falta de vontade para estar numa terra em que reina um profundo desprezo e uma algoz prepotência por parte dos decretos administrativos e dos procedimentos ordinários das empresas que nos vão carcomendo cada aspecto da nossa vida, vidinha, social.

Ah... se a Natureza ajudasse Portugal e tudo invadisse.
Mas andámos a maltratá-la e a enfraquecê-la durante demasiados anos para que elas nos venha agora resgatar em momentos de aflição.

E assim se perdem caminhos de sabedoria e respostas ao mundo desorientado que cada um de nós ainda leva dentro.

terça-feira, março 19, 2013

Agora o Chipre

Então foi o seguinte

e atentem bem nos últimos acontecimentos surpreendentes:

A propósito - invocam... - do resgate financeiro ao Chipre, decidiram taxar os depósitos bancários abaixo dos 100 mil euros. Acho que não estou a dizer nenhuma desconformidade.

Resultado talvez sereno, talvez racional, tido como espontâneo por parte de quem tem dinheiro no banco:

Muitas e muitas pessoas foram vistas a levantar dinheiro nas caixas de multibanco! - anunciaríamos, espantados, em tom jornalístico.

O caos, o medo e a sensação de injustiça e roubo instalaram-se nos cipriotas.

(Notícia de domingo.
Segunda os bancos estiveram fechados pois era feriado nacional.)

Resposta ao resultado:

(notícia ouvida há pouquinho na Antena 1 (tanto faz, não é?)

"O Eurogrupo recuou na aplicação de imposto aos depósitos bancários abaixo dos 100 mil euros."
Seguimento da notícia:
"Com esta decisão, o clima ficará menos tenso. Continuará a haver possibilidade de tumultos, mas..."

Análise: 
O que importa aqui verificar é a palavra/expressão-chave "menos tenso", dita, com a boca do poder mas cuja verborreia propagandística sai pela voz dos média (ditos legítimos e confiáveis e representantes e garantes da Democracia e blá blá blá...) e sentida em tons de alívio.
É isso que quem sente?: o Eurogrupo, que é o único sujeito naquele comunicado.
Não, não venhais querer baralhar-nos e afirmar que o sujeito é o povo cipriota que tem dinheiro (uma certa soma) no banco.

A análise não fica por aqui, que agora é que vem o mais importante. Portanto:

Análise à resposta ao resultado:

As pessoas correm a tirar dinheiro do banco, ui! temos de mudar de atitude.
Mudam de atitude.
As pessoas podem, mesmo assim, não recuar na criação de tensão social e física nas so-cidades cipriotas.
Não faz mal.

Vistes o que aconteceu?

A violência não é o problema. A violência contra o poder é a perda de razão (ui!, não menciones essa palavra...) perdão, a perda de legitimidade de quem quer viver num Estado democrático blá, blá, blá.

O problema é atingir o poder racionalmente: levantar o dinheiro em massa é retirar o poder ao poder, pois, em si, signfica o instrumento com que nos abanam e convencem os olhos e nos fazem a cabeça e nos compram.

O problema, para o Poder Económico e financeiro, seria - depois desse (convém impedi-lo a todo o custo!) seria ficarem a descoberto, como as contas bancárias, sim, COM as contas bancárias vazias.

Esvaziadas de sentido e reenchidas do absurdo que seria a demonstração material de que o dinheiro que as pessoas pensam ter não existe na realidade.
E, por conseguinte, o escancaramento de que o dinheiro - tão esquecidos estamos disso, não é? - é uma convenção que nos obrigam a subscrevermos para nos mantermos e nos manterem amestrados.

O Chipre espirra amarelo por sobre o papel verde.
Alerta no vermelho.

domingo, março 17, 2013

Reflexos e Reflexões


Ao começar, o milénio convida-nos a reflectir sobre a própria reflexão que sobre ele poderá vir a ser feita. O verbo reflectir é semanticamente muito ambíguo pois que conota dois fenómenos contraditórios: reflexo e reflexão. Reflectir enquanto produção de reflexos é um fenómeno passivo, não criativo, que assume como só existindo aquilo que lhe é dado reflectir. É assim que a lua reflecte a luz do sol. Ao contrário, reflectir enquanto produção de reflexão é um fenómeno activo, criativo, mobilizado pela identificação de uma falta ou de uma ausência naquilo que existe. É assim que reflectimos sobre as nossas vidas ou sobre a sociedade e o tempo em que vivemos. Claro que a contraposição entre reflexo e reflexão não é total. Há sempre algo de criativo no reflexo: o espelho não reflecte exactamente o nosso rosto; tal como a reflexão tem sempre algo de passivo: as reflexões que fazemos sobre a nossa vida são reflexos da vida que temos. Mas a contraposição é essencial, pois é através dela que medimos o grau de autonomia (ou de alienação) com que vivemos as nossas vidas: dominamos melhor o mundo sobre o qual reflectimos do que o mundo de que somos mero reflexo.

Vivemos o século XX sob a égide de três mestres: um mestre do reflexo: Freud; um mestre da reflexão: Nietzsche; e um mestre da mediação entre reflexo e reflexão: Marx. Foram eles que escreveram o guião da nossa relação com o mundo - mais ou menos activa, mais ou menos conformista - nos últimos cem anos. Ao entrarmos no novo milénio, verificamos que as lições destes mestres têm vindo a perder poder de convicção sem que, no entanto, estejam a ser substituídas por outras lições de outros mestres. Somos hoje mais exigentes ou apenas menos educáveis? Penso que a questão é outra. Só são precisos mestres quando há tensão entre reflexo e reflexão e essa tensão está a desaparecer nas sociedades mais desenvolvidas. Nestas sociedades é cada vez mais fácil passar por reflexão o que é apenas reflexo, passar por actividade o que é apenas passividade, passar por plenitude o que é uma inominável carência. Por isso, nestas sociedades o que está fora da consciência é sobretudo a consciência de que algo está fora dela.



Três exemplos, que são três ângulos sobre o mesmo síndroma. Os consumidores simbolizam hoje o paroxismo de uma actividade que se agita freneticamente no interior de um círculo de escolhas ante as quais é totalmente passiva. O crédito ao consumo permite transformar a carência em plenitude antecipada. O segundo exemplo é a classe política, sobretudo a que está no poder. Como o seu poder é cada vez mais reflexo de outros poderes (capitalismo global, União Europeia), a sua capacidade de reflexão é medida pela sua disponibilidade para ser reflexo. Quem, no interior dessa classe, quiser fazer reflexão, é posto na ordem do reflexo. O terceiro exemplo diz respeito aos criadores de opinião, entre os quais me incluo. Dominados pela vertigem da autonomia e, portanto, da reflexão, ignoram as filiações de que são reflexo. Tendo perdido a mediação entre reflexo e reflexão, quando concordam entre si, ignoram-se porque se repetem, e quando discordam, ignoram-se porque as suas diferenças são incomensuráveis. Nestas condições não é possível nem o consenso nem a polémica. Por isso, nem os educadores educam nem ninguém educa os educadores.


Boaventura Sousa Santos
Publicado na Visão em 28 de Dezembro de 2000
Última crónica, também, da compilação "A Cor do Tempo Quando Foge", Ed. Afrontamento.


Este texto é das coisas mais geniais que alguma vez li.
Para renovar por todas as vezes em que lhe reconheçamos validade.

sexta-feira, março 15, 2013

O Paradigma da Auto-Estrada

Poortugal tem auto-estradas que são uma maravilha de se ver.
E andar!

Neste momento, e se calhar há já algum tempo (pois padece de uma deformação de base...), há é pouca gente a vê-las com bons olhos e, talvez por consequência, ainda menos a andar a pôr nelas os olhos.
Mas, para alguns que o fazem, a deixar os olhos da cara no final de cada troço.

Ontem parece que, diz que, houve aí uma notícia, que querem pôr portagens em todas as auto-estradas e tal.
Ok. Ponde à vontade.
Tapai mais a panela de pressão no lume florestal.

Bom.
Mas não era por aqui que eu queria ir.
Agora, para voltar para trás, tenho que ir até ao final.


O salto acelerado e sem rampa de lançamento para o foguete que este país passou a ser, perdido no éter (sim, sim, esse mesmo que leva muita gente aos comas alcoólicos), após os anos do poder distribuído, que foi isso que o PREC foi, saldou-se na miséria mental e suas materializações que hoje abundam pela bunda cu-lateral que é o Portugal actual.

(Virar o cu prò lado, como fugir co' rabo à seringa, é para dar a vez aos próximos proxenetas que escolhermos pelos anos seguintes.
Tão bem que eles cuidam de nós,,,!)

Sem educação e preparação, saímos da carestia e da miséria para essa outra carestia e miséria invertida que é o consumismo e o subsequente / inconsequente "destrutivismo" paroquial.

Como o problema das drogas pode ser um problema do excesso (tanto de miséria como de dinheiro), o consumismo é um consumo em bicos dos pés para demonstrar sabemos lá o quê a nós mesmos, que estamos "passados" e o que interessa é perder o controlo, se possível, parcial.

O betão é o desígnio deste país, assim no-lo inculcam desde pequenos.
Os nossos pais, que até cresceram a acarretar baldes de massa (não, da outra), os nossos autarcas, que é assim que sobrevivem, acolitados pelas empresas e empreiteiros que... já não se distinguem lá muito bem - é uma massa, homogénea, coloidal, fatal, maquinal.
Que cheira mal.

A auto-estrada é uma das marcas do mundo dito pós-industrial (pós para quem? Deixou de haver indústrias? Pelo menos, parecemos apostados em expulsá-las do nosso buraco umbilical ocidental.
E transferi-las para outras terras, que, por isso, já não cabem na designação imaculada e fraternal do o "Ocidente".
Mas a praia ocidental lusitana ainda está longe.
Pois parece haver duas tendências opostas: internamente, a mando, dizem, lá das Europas (onde fica isso?), a destruir o "tecido industrial nacional" e tal e tal e por outro alguma ou outra multinacional a ver nos mendigos que somos, que aguentamos, aguentamos, uma excelente oportunidade para fazer mais lucros com a poupança no custo laboral.

Entalados como enlatados, o prazo aproxima-se do final.

Mas ainda não é isso.

Na era e na capital da auto-estrada, não podemos viver já da mesma forma como dantes. Isto é uma questão antropológica, pois trata da forma como nos relacionamos com o espaço e como o percebemos. E - pescadinha de rabo na boca, cães aos círculos, em espiral infernal - trata-se da forma como nos relacionamos com o espaço e o que lhe fazemos.

Não se pode amar o que se não conhece.
Não se pode cuidar do que não se aprende a amar.
Não se conhecer o que... já passou.

A auto-estrada alterou esta forma de vivermos e passámos a desprezar os locais. Somos estranhos por todo o lado e bestas de lado nenhum.
Nos fluxos horários, migratórios, informativos e relacionais esboroamo-nos como um pedaço de terra de vaso a deixar de ser regado.

Que prazer há em viver numa viagem que se não vive?
Cadáver adiado não seremos na auto-estrada, pois esta trata de fazer de nós um cadáver adiantado.
Para mais, as auto-estadas são cada vez mais iguais.
Mas talvez por causa desta mesma razão o são.

É preciso saber viver a tempo, diz o Nietzsche.

Não devemos forçar a travessia, pois chegaremos ao fim sem nada do que devíamos colher pelo caminho, resume Kavafis.

Viver aqui e agora.
Lutar pelo que temos agora e contra o que hoje nos afecta.
No desfiladeiro, cada passo em falso é o aproximador não da queda mas do embate, que é isso que nos mata.
De vez.

Auto-estrada é destruição do presente ao fazer-nos almejar o futuro.
Pelo futuro onde nunca ninguém viveu ou poderá viver.
É como comprar o céu a prestações e morrer de fome pela falta de dinheiro que se emprega a tratar do futuro.
Esta é a ética protestante, ideologia inflamável a corroer as sociedades há tanto tempo em declínio.
E o capitalismo não trata de a professar nas igrejas e espaços de adoração moderna, veiculada pelo gás metano e o brómio da informação "ao minuto", na "ânsia de tudo saber", para nada entender e tudo perder.

Sempre a merda do futuro, a merda do futuro!, grita, Zé Mário que todos somos.

Contrairmos dívida hoje, que estará saldada no futuro, cujos juros vamos pagando com o nosso presente cada vez mais morto.
E o objectivo é perdoar um ano, ou, traduzido por outras palavras, continuarmos a aumentar os juros e o tempo infindável do seu pagamento.

Já! Não, pagas agora.
Pagas já, usufruis depois.

A propriedade leva à apropriação
e a parida propaganda trata de te comer o pão 
com a promessa de te vir dar de comer à mão.



"Com tanto passado, pobre é o presente.
Com tanta ignorância, muitos mais tiranos.
Com tantos hipócritas o amor ao próximo desaparece."

Cemitério dos prazeres nas chamas dos semáforos vermelhos.
Prepare pagamento.

quarta-feira, março 13, 2013

"O papa que resignou não deixa saudades"

Foi com esta frase que o jornalista passou a palavra a uma comerciante (ou vários) de artigos religiosos em Fátima.

Isto quer dizer que Ratzinger rendeu pouco, fez vender pouco, ou, foi pouco lucrativo para quem vende artigos religiosos. Desculpai lá, longe de mim estar a irreconhecer a vossa inteligência para concluírdes isto.

Todo este processo é tão asqueroso que as televisões e noticiários de todo o mundo tratam de o acompanhar, "ao minuto", como anuncia uma, o que se vai passando no Vaticano e no Conclave (meter à pressão, como quem tira com saca-rolhas, uma palavra nas bocas dos papalvos que somos é tão estranho como

- não conhecermos o próximo de lado nenhum e, uma vez escolhido, ele passar a ser adorado, quais novos Beatles (olha, Lennon, tenho mesmo muita pena, o Papa voltou a ser maior que vós... a irreverência, a energia e a alegria da juventude voltou a ser ultrapassada pelo imobilismo e pela doença), por milhões.

- estarmos sempre todos a falar do mesmo que os meios de enquadradamento, vulgo encaixotamento, em massa (para as massas) nos vão propondo e renovando.

termino aqui o parêntesis. Ai não tínheis reparado que havia ali um?
)


quando um fumo preto ou branco é tão rápido como a morte

"Estavas e de repente já não estás", como diz o Saramago

e portanto não faz sentido andar a engonhar e a ludibriar com os acompanhamentos "ao minuto".

Não vou deter-me mais sobre esta porcaria de abordagem que os chupa-cabras das noticiárias arranjam para nós.
Estamos transformados em vampiros e em ovelhas e vamos alternando.
Estamos transformados em actores que nos dizem nada podermos fazer quando se trata de decidir (e ainda não reparamos bem quando é essa a hora ou o acto) e em espectadores da decadência e podridão dos valores morais que tanto dizemos defender.

Olhem, por cá, o papa que resignou não deixar saudades é como as comitivas de empresários que vão com o ministro dos negócios estrangeiros ver se exploram outras terras, outros recursos e outros corpos e almas.

Porque é que cada vez mais detesto empresas e empresários e bancos, que cada vez mais se me assemelham a assassinos e gente sem escrúpulos?

Ide todos prà prisão!
A prisão que eu proporia era a reconversão do ramo de actividade.
Mas para isso, primeiramente, seria necessário reeducar e inculcar outros valores que não o de fazer negócio com os corpos e almas e o que elas trazem nos bolsos e nas bolsas de valores.

Cada um aproveita para chupar cada um, não importa como.
E assim vai o hominídeo para o curral das bestas todas as manhãs.
Os que tiverem trabalho assalariado, destruidor, alienante e produtor de escravos (incluindo os que escravizam os chamados "subalternos").

Olhai como estas religiões e estas instituições são sempre um poder que emperra, que, está na sua natureza, é conservador, porque se quer conservar, e não agita águas nem, como já o foi mais o bispo Torgal, incitam à insubmissão e à ao enfraquecimento, pela base (alto, está a falar das massas), dos poderes que nos governam.


Pormo-nos de joelhos, baixarmos o olhar, por vergonha e por fome, e alombarmos com o peso de trabalhos que só nos tiram saúde significam apenas a subserviência.

Seja para que for.

Esta religião, este sistema económico e este tipo de trabalho não estão a deixar saudades.
Este é que é o Homem do Eterno retorno: está continuamente a querer ser sempre outra coisa, mas / porque vai sempre adiando ser outra coisa.

Inevitabilidade, dizem os economistas.
Irreversívelzinho, diz o Zé Mário.

Enredado e a funcionar muito bem, diz o poder mediático-plutocrático-financeiro-militar capitalista.

Vêde os lucros que alguns (sempre só alguns) estão a fazer com esta tríade de misérias nomeadas acima e aí tendes o facto contra o qual só actos urgem.

segunda-feira, março 11, 2013

Ibéria em palavras... ou talvez não...


Foto de Rogério Madeira, Dublin, 26.02.2013.

domingo, março 10, 2013

Aquecimento central


O aquecimento global de origem humana nas últimas décadas é reconhecido pelos cientistas como uma evidência. Mas ao longo dos últimos 11 mil anos, a Terra ainda foi mais quente. É isto o que sugere um estudo pioneiro, que tentou fazer uma reconstituição mais consistente da temperatura global ao longo de milénios.

O estudo, publicado na revista Science, não deixa porém margem para optimismos: os termómetros estão hoje a um nível em que nunca estiveram em 75% de todo o Holoceno –  a época geológica que se estende desde a última glaciação e que corresponde ao auge da civilização humana – e podem chegar a 2100 ao maior nível de sempre nesse período.

(ler mais AQUI)