sexta-feira, março 15, 2013

O Paradigma da Auto-Estrada

Poortugal tem auto-estradas que são uma maravilha de se ver.
E andar!

Neste momento, e se calhar há já algum tempo (pois padece de uma deformação de base...), há é pouca gente a vê-las com bons olhos e, talvez por consequência, ainda menos a andar a pôr nelas os olhos.
Mas, para alguns que o fazem, a deixar os olhos da cara no final de cada troço.

Ontem parece que, diz que, houve aí uma notícia, que querem pôr portagens em todas as auto-estradas e tal.
Ok. Ponde à vontade.
Tapai mais a panela de pressão no lume florestal.

Bom.
Mas não era por aqui que eu queria ir.
Agora, para voltar para trás, tenho que ir até ao final.


O salto acelerado e sem rampa de lançamento para o foguete que este país passou a ser, perdido no éter (sim, sim, esse mesmo que leva muita gente aos comas alcoólicos), após os anos do poder distribuído, que foi isso que o PREC foi, saldou-se na miséria mental e suas materializações que hoje abundam pela bunda cu-lateral que é o Portugal actual.

(Virar o cu prò lado, como fugir co' rabo à seringa, é para dar a vez aos próximos proxenetas que escolhermos pelos anos seguintes.
Tão bem que eles cuidam de nós,,,!)

Sem educação e preparação, saímos da carestia e da miséria para essa outra carestia e miséria invertida que é o consumismo e o subsequente / inconsequente "destrutivismo" paroquial.

Como o problema das drogas pode ser um problema do excesso (tanto de miséria como de dinheiro), o consumismo é um consumo em bicos dos pés para demonstrar sabemos lá o quê a nós mesmos, que estamos "passados" e o que interessa é perder o controlo, se possível, parcial.

O betão é o desígnio deste país, assim no-lo inculcam desde pequenos.
Os nossos pais, que até cresceram a acarretar baldes de massa (não, da outra), os nossos autarcas, que é assim que sobrevivem, acolitados pelas empresas e empreiteiros que... já não se distinguem lá muito bem - é uma massa, homogénea, coloidal, fatal, maquinal.
Que cheira mal.

A auto-estrada é uma das marcas do mundo dito pós-industrial (pós para quem? Deixou de haver indústrias? Pelo menos, parecemos apostados em expulsá-las do nosso buraco umbilical ocidental.
E transferi-las para outras terras, que, por isso, já não cabem na designação imaculada e fraternal do o "Ocidente".
Mas a praia ocidental lusitana ainda está longe.
Pois parece haver duas tendências opostas: internamente, a mando, dizem, lá das Europas (onde fica isso?), a destruir o "tecido industrial nacional" e tal e tal e por outro alguma ou outra multinacional a ver nos mendigos que somos, que aguentamos, aguentamos, uma excelente oportunidade para fazer mais lucros com a poupança no custo laboral.

Entalados como enlatados, o prazo aproxima-se do final.

Mas ainda não é isso.

Na era e na capital da auto-estrada, não podemos viver já da mesma forma como dantes. Isto é uma questão antropológica, pois trata da forma como nos relacionamos com o espaço e como o percebemos. E - pescadinha de rabo na boca, cães aos círculos, em espiral infernal - trata-se da forma como nos relacionamos com o espaço e o que lhe fazemos.

Não se pode amar o que se não conhece.
Não se pode cuidar do que não se aprende a amar.
Não se conhecer o que... já passou.

A auto-estrada alterou esta forma de vivermos e passámos a desprezar os locais. Somos estranhos por todo o lado e bestas de lado nenhum.
Nos fluxos horários, migratórios, informativos e relacionais esboroamo-nos como um pedaço de terra de vaso a deixar de ser regado.

Que prazer há em viver numa viagem que se não vive?
Cadáver adiado não seremos na auto-estrada, pois esta trata de fazer de nós um cadáver adiantado.
Para mais, as auto-estadas são cada vez mais iguais.
Mas talvez por causa desta mesma razão o são.

É preciso saber viver a tempo, diz o Nietzsche.

Não devemos forçar a travessia, pois chegaremos ao fim sem nada do que devíamos colher pelo caminho, resume Kavafis.

Viver aqui e agora.
Lutar pelo que temos agora e contra o que hoje nos afecta.
No desfiladeiro, cada passo em falso é o aproximador não da queda mas do embate, que é isso que nos mata.
De vez.

Auto-estrada é destruição do presente ao fazer-nos almejar o futuro.
Pelo futuro onde nunca ninguém viveu ou poderá viver.
É como comprar o céu a prestações e morrer de fome pela falta de dinheiro que se emprega a tratar do futuro.
Esta é a ética protestante, ideologia inflamável a corroer as sociedades há tanto tempo em declínio.
E o capitalismo não trata de a professar nas igrejas e espaços de adoração moderna, veiculada pelo gás metano e o brómio da informação "ao minuto", na "ânsia de tudo saber", para nada entender e tudo perder.

Sempre a merda do futuro, a merda do futuro!, grita, Zé Mário que todos somos.

Contrairmos dívida hoje, que estará saldada no futuro, cujos juros vamos pagando com o nosso presente cada vez mais morto.
E o objectivo é perdoar um ano, ou, traduzido por outras palavras, continuarmos a aumentar os juros e o tempo infindável do seu pagamento.

Já! Não, pagas agora.
Pagas já, usufruis depois.

A propriedade leva à apropriação
e a parida propaganda trata de te comer o pão 
com a promessa de te vir dar de comer à mão.



"Com tanto passado, pobre é o presente.
Com tanta ignorância, muitos mais tiranos.
Com tantos hipócritas o amor ao próximo desaparece."

Cemitério dos prazeres nas chamas dos semáforos vermelhos.
Prepare pagamento.

quarta-feira, março 13, 2013

"O papa que resignou não deixa saudades"

Foi com esta frase que o jornalista passou a palavra a uma comerciante (ou vários) de artigos religiosos em Fátima.

Isto quer dizer que Ratzinger rendeu pouco, fez vender pouco, ou, foi pouco lucrativo para quem vende artigos religiosos. Desculpai lá, longe de mim estar a irreconhecer a vossa inteligência para concluírdes isto.

Todo este processo é tão asqueroso que as televisões e noticiários de todo o mundo tratam de o acompanhar, "ao minuto", como anuncia uma, o que se vai passando no Vaticano e no Conclave (meter à pressão, como quem tira com saca-rolhas, uma palavra nas bocas dos papalvos que somos é tão estranho como

- não conhecermos o próximo de lado nenhum e, uma vez escolhido, ele passar a ser adorado, quais novos Beatles (olha, Lennon, tenho mesmo muita pena, o Papa voltou a ser maior que vós... a irreverência, a energia e a alegria da juventude voltou a ser ultrapassada pelo imobilismo e pela doença), por milhões.

- estarmos sempre todos a falar do mesmo que os meios de enquadradamento, vulgo encaixotamento, em massa (para as massas) nos vão propondo e renovando.

termino aqui o parêntesis. Ai não tínheis reparado que havia ali um?
)


quando um fumo preto ou branco é tão rápido como a morte

"Estavas e de repente já não estás", como diz o Saramago

e portanto não faz sentido andar a engonhar e a ludibriar com os acompanhamentos "ao minuto".

Não vou deter-me mais sobre esta porcaria de abordagem que os chupa-cabras das noticiárias arranjam para nós.
Estamos transformados em vampiros e em ovelhas e vamos alternando.
Estamos transformados em actores que nos dizem nada podermos fazer quando se trata de decidir (e ainda não reparamos bem quando é essa a hora ou o acto) e em espectadores da decadência e podridão dos valores morais que tanto dizemos defender.

Olhem, por cá, o papa que resignou não deixar saudades é como as comitivas de empresários que vão com o ministro dos negócios estrangeiros ver se exploram outras terras, outros recursos e outros corpos e almas.

Porque é que cada vez mais detesto empresas e empresários e bancos, que cada vez mais se me assemelham a assassinos e gente sem escrúpulos?

Ide todos prà prisão!
A prisão que eu proporia era a reconversão do ramo de actividade.
Mas para isso, primeiramente, seria necessário reeducar e inculcar outros valores que não o de fazer negócio com os corpos e almas e o que elas trazem nos bolsos e nas bolsas de valores.

Cada um aproveita para chupar cada um, não importa como.
E assim vai o hominídeo para o curral das bestas todas as manhãs.
Os que tiverem trabalho assalariado, destruidor, alienante e produtor de escravos (incluindo os que escravizam os chamados "subalternos").

Olhai como estas religiões e estas instituições são sempre um poder que emperra, que, está na sua natureza, é conservador, porque se quer conservar, e não agita águas nem, como já o foi mais o bispo Torgal, incitam à insubmissão e à ao enfraquecimento, pela base (alto, está a falar das massas), dos poderes que nos governam.


Pormo-nos de joelhos, baixarmos o olhar, por vergonha e por fome, e alombarmos com o peso de trabalhos que só nos tiram saúde significam apenas a subserviência.

Seja para que for.

Esta religião, este sistema económico e este tipo de trabalho não estão a deixar saudades.
Este é que é o Homem do Eterno retorno: está continuamente a querer ser sempre outra coisa, mas / porque vai sempre adiando ser outra coisa.

Inevitabilidade, dizem os economistas.
Irreversívelzinho, diz o Zé Mário.

Enredado e a funcionar muito bem, diz o poder mediático-plutocrático-financeiro-militar capitalista.

Vêde os lucros que alguns (sempre só alguns) estão a fazer com esta tríade de misérias nomeadas acima e aí tendes o facto contra o qual só actos urgem.

segunda-feira, março 11, 2013

Ibéria em palavras... ou talvez não...


Foto de Rogério Madeira, Dublin, 26.02.2013.

domingo, março 10, 2013

Aquecimento central


O aquecimento global de origem humana nas últimas décadas é reconhecido pelos cientistas como uma evidência. Mas ao longo dos últimos 11 mil anos, a Terra ainda foi mais quente. É isto o que sugere um estudo pioneiro, que tentou fazer uma reconstituição mais consistente da temperatura global ao longo de milénios.

O estudo, publicado na revista Science, não deixa porém margem para optimismos: os termómetros estão hoje a um nível em que nunca estiveram em 75% de todo o Holoceno –  a época geológica que se estende desde a última glaciação e que corresponde ao auge da civilização humana – e podem chegar a 2100 ao maior nível de sempre nesse período.

(ler mais AQUI)

sábado, março 09, 2013

Área obrigatória para ovelhas...

Indicação de que os condutores de rebanho são obrigados a conduzi-lo para esta área especialmente reservada para esse fim.

Foto de Rogério Madeira, Dublin, 05.03.2013.

quarta-feira, março 06, 2013

Coisas para que queremos chamar a vossa atenção*

* isto é, se ainda tendes atenção ao que se passa à vossa volta.



Começo logo a matar, e quem quiser que saia.


Nada de substancial ou útil se pode dizer se não tiver cabeça - sobretudo cabeça -, tronco e membros.
Por isso, a atenção costuma ficar a rastejar pelo caminho da lucidez e morre logo após o local de partida.
Assim não é que não valha a pena.
Do que se trata é de mais um desperdício de energia, da energia que todos despendemos a cada dia que passa, e que é bem útil para ir construindo caminho.



Feito este aviso, podemos prosseguir.





Gosto muito de livros.


Não gosto de ver os livros tratados como os óculos e os sapatos dos judeus que se preparam ou já foram enviados para os fornos do nazismo censório actual: chama-se democracia elitista.
Sim, um contra-senso, já sabemos. Pois se "demos" é o povo, como pode ser "elitista"?
Lá chegarei.



Estamos em 2013. Portugal.


Em altura de irmos buscar substrato para sustentar os altos castelos que hoje  estão ruídos e estilhaçados, e sem entrarmos em revisionismos ou vontades conducentes a emperros - ainda mais? - da evolução, relembramos que este povo (o que é um povo?) teve, para não ir muito atrás, que perdemos a "emocionalidade" (emoção+racionalidade) que devemos ter para com algo que nos devia ser próximo, 



Monarquia, República aos sobressaltos, uma ditadura fascista de 48 (!) anos e uma revolução, pacífica, organizada, sabedora e segura, que lhe pôs fim.


Tivemos o PREC - Processo Revolucionário Em Curso, ao qual puseram termo, apontam essa a data fulcral para tal, a 25 de Novembro de 1975.
Ou, se quisermos mesmo o carimbo, nas eleições de 25 de Abril de 1976.



E estamos neste sistema há 37 (!) anos.



Terminada a revisão, é nesta relação de 48 anos de uma coisa, 2 anos de outra e 37 desta que quero começar esta crónica crítica.



Portanto,


Eu gosto de livros.
Costumo, sempre que posso, passar o corpo e os olhos por alfarrábios.
Não sei se os caros leitores fazem gosto de fazer o mesmo.
Bem.
Sobretudo nestes e em feiras de venda de livros usados, que é como irmos a museus por explorar, não sei se já repararam que há, por vezes (e quando há, poucos não são), livros sobre política.
Para o leigo, diremos que costumam ter capas vermelhas (isto tem explicação) e versar sobre Marxismo, o salazarismo, o capitalismo, o golpe de Abril, a organização do MFA, a revolução do proletariado, a reforma agrária, a constituição revolucionária, sobre situações políticas na União Soviética, no Chile, em Espanha (sim, ainda tivemos cerca de 3 anos para falar do franquismo), no Biafra, na Grécia, na Checoslováquia, na RDA e na RFA, entrevistas a capitães de Abril, as incongruências destes ou daqueles episódios, etc.



Já nos perguntámos, se já reparámos nisto, como é que estes livros foram ali parar? Porque é que estes livros estão ali à venda, a maior parte deles bem acessíveis (preço),?




Eu tenho uma teoria.


Sim, tem que ver com aqueles anos que relacionei acima.
E, sim, a teoria não está desligada nem da observação da natureza, nem, se assim o quisermos, de uma formulação freudiana do comportamento. Que neste caso, do comportamento humano.



Tivemos um regime opressivo, cerceador das liberdades de escolha e decisão (é por aqui que se afere da democracia, quanto a mim, em primeiro lugar), que nos manteve arrebanhados no atraso material (calma...) e mental de que ainda não só padecemos como parecemos nunca ter deixado de padecer.


Estas dificuldades e estreitamentos aguçaram o espírito, a criatividade e desenvolveram o músculo de combate.
Durante os 48 anos as coisas foram-se acumulando.
A sageza e os entraves funcionam como a água que quer chegar, custe o que custar, ao mar.
E um dia, "a horas certas", a tampa saltou e a panela explodiu.



A ditadura não caiu de podre.


Tivemos de a fazer cair.
Talvez por isso o caso português se diferencie do espanhol, que teve aquilo a que chamaram "transição". 
Não, aqui houve, aqui fizemos uma "Revolução".



É certo e sabido que, se bem que fosse a maioria da população que sofria com a ditadura (escapavam-lhes os seus "instituidores" políticos, económicos e religiosos... e mais os acomodados ou conformados), a revolução foi feita por uma minoria.


Raios!
Quero com isto dizer que os organizados, além da vantagem de terem um instrumento, a instituição militar e seus meios, representando aquela que - veio não a descobri-la mas a formulá-la - era a vontade popular, não eram representativos no número.



E assim partimos para o PREC.


Foram dois anos de conquistas, "as conquistas de Abril!", de muitas alterações estruturais na organização social, política, económica, agrícola, produtiva, demográfica e geográfica e mental de um povo.
Um povo que foi arredado da cultura e da política ("basta-lhe que saiba ler e escrever" e "um copo de vinho alimenta muitos portugueses" e "Fadai-vos, que nos Fartamo-nos de vos Foder", vulgo política dos três FF's, com os instrumentos de manipulação, esvaziamento, desinteresse e amesquinhamento que constituem a religião, o futebol e o fado institucionalizado, autorizado, oco e bacoco) durante 48 anos (mais os que vinham de trás) teve, em 2 anos, de aprender tudo sobre marxismo, comunismo, de saber o que é a democracia, de se organizar em comissões de trabalhadores, de moradores, em sindicatos, em cooperativas...



Ou seja, já estamos a chegar lá, ...toca a instruir-se.


Claro, antes disso ainda tiveram, muitos, de aprender a ler.



Foram 2 anos (não sabíamos que iam ser dois anos) de aprendizagem à pressa, para estar por dentro das mudanças.


A questão não se trata tanto de "depressa e bem não haver quem".
A questão é que o 25 de Novembro pôs fim a essa continuidade revolucionária necessária para consolidar a mentalidade que é o fogo da democracia.
Em 1976, então, entregamos tudo, novamente, com toda a confiança - o povo assim o quis!, dirão uns, talvez a maioria - a uns quantos.



Nós, que nos organizáramos em comissões disto e daquilo para que as decisões fossem tomadas pelos envolvidos, que lutáramos pelo seu esclarecimento para tomarmos nas nossas mãos aquilo que era nosso e que trabalhávamos, que construímos, durante dois anos, uma pirâmide mais equitativa e representativa do poder, fomos, passados esses dois anos, entregar, novamente e confiantes, tudo a uns poucos.




E, confiantes, deitámos aqueles livros fora.


"Já não preciso disto" e "Já li" e ainda "eles agora tratam de tudo, por nós".
Confiantes, enchemos os alfarrabistas com os livros, agora lixo, que deixaram de fazer sentido termos lá por casa a apanhar pó e aliás a ocupar o espaço necessário para as revistas da moda.



E fomos adormecendo.


Esquecendo a história, as nossas capacidades.
Destruindo a criatividade e a força de intervenção.
Esvaziando e substituindo os valores democráticos pelos do umbigo.



E estamos nisto há 37 anos.


37 anos de alternância bipartidária, sempre a insistir, confiantes a cada 4 anos, no mesmo. Ora num, ora noutro.



E a democracia foi tomada de assalto.


Aliás, os partidos, os detentores e organizadores deste país, tiveram, até ao momento, 37 anos para o fazerem.



E nós deixámos.


Porque, adormecidos, confiámos.
Pois é, estar atento e ser lúcido dá trabalho, não é?
Pois, eles que decidam!



Pois, eles decidiram que tu deixaste de decidir.


Que tu deixaste de contar.
Agora só te contam contos e fábulas.



A teoria - não nos perdemos na meada - é a de que o excesso de uma coisa leva ao excesso do seu contrário.


Aos 48 anos de modorra e anti-vida corresponderam 2 anos de força e ter a história na mão.



Freudianamente, podemos dizer que o que é recalcado mais cedo que tarde virá ao de cima. E mais violentamente quanto mais tarde vier.




Gaiamente, diremos que a após à calma sucede a tempestade, o frio ao calor, a chuva ao tempo sem chuva, a dormência do vulcão à - conforme a sua natureza - sua erupção.




Livrescamente, a abundância daqueles livros por ler e à espera de serem lidos em alfarrabistas corresponde a indecência, a nulidade e a estupidez das escolhas que temos vindo a fazer, a cada 4 anos, e a cada 5 (veja-se o maior bacoco desde Amércio Thomaz que fomos eleger, de seu nome Aníbal Cavaco Silva...), durante estes 37 anos, nas eleições.




Ora bem, parece que já temos uns anitos, 37, para andarmos a fartar-nos disto, não acham?




Não se pode enganar um bébé com a mesma brincadeira durante 37 anos!!!, diria o nosso amigo Bradbury.






Pois, mas



Vamos supor que havia eleições em Portugal amanhã. Os eleitores poderiam escolher entre: 
a) uma opção de primeiro-ministro que foi durante muito tempo líder de uma juventude partidária, escreveu um manifesto chamado “Portugal Primeiro” e governaria, naturalmente, de acordo com as indicações da troika; 
e, 
b) uma opção de primeiro-ministro que foi durante muito tempo líder de uma juventude partidária, escreveu um manifesto chamado “Portugal Primeiro” e governaria, naturalmente, de acordo com as indicações da troika.
(Sim, é verdade, copiei e voltei a colar a última frase.)
Evidentemente, isto não é tudo. Os portugueses escolheriam um pouco mais de duzentos deputados, que por sua vez já teriam sido escolhidos por outros cinco portugueses, dois dos quais são os descritos acima na alínea a) e b). Dos cinco partidos a que pertencem estes deputados, sabemos que dois se colocariam imediatamente de fora de qualquer governo — apesar competirem entre si pela intenção de formarem “um governo de esquerda”, num caso, e “um governo de esquerda e patriótico”, no segundo. Se houvesse eleições amanhã, em suma, a grande surpresa consistiria em saber-se com qual dos portugal-primeiristas, ex-jotinhas e atuais troikistas iria Paulo Portas fazer um governo de coligação e, subsidiariamente, em saber quem seria o Miguel Relvas do PS.

(desculpem, mas não consigo senão citar todo o artigo de Rui Tavares.)


Por isso, o cronista ateu e de esquerda acaba por ter de resignar-se à realidade de que, após 700 anos, o cardeal Ratzinger acabou de provar que é hoje mais imprevisível seguir a política do Vaticano do que a portuguesa.
Não é para admirar que, estudo após estudo, os portugueses sejam dados como os europeus que menos acreditam na democracia, menos participam na vida política ou partidária, e em que a degradação desta crença cívica vai avançando mais rapidamente. No Barómetro da Qualidade da Democracia do ano passado só 55% dos portugueses consideravam a democracia superior a outros regimes. Mas somente 15% dos portugueses se diziam favoráveis a um regime autoritário. Que se passa aqui? Muito simples: os portugueses não têm nada contra a democracia em geral, mas contra a forma como esta democracia em particular está a ficar.
A reflexão crucial é a que apareceu numa opinião publicada recentemente neste jornal por João Nogueira Santos e Carlos Macedo e Cunha, segundo os quais 99% dos portugueses nunca votou numa eleição para candidato a primeiro-ministro. Ao contrário dos italianos, dos franceses, e dos cidadãos de muitos outros países onde já se escolhem os candidatos a chefe de executivo em primárias abertas a vários partidos todos os cidadãos.
Em Portugal há alguns alvores de esperança, como agora o movimento de cidadãos de esquerda que, cansados de esperar pelos respetivos partidos, pretende discutir as eleições em Coimbra. No dia em que um destes movimentos decidir escolher os seus candidatos por primárias abertas aos cidadãos, ou em que apareça um partido (existente ou novo) com coragem para fazer o mesmo, estarão abertas novas portas à participação política no país, e as pessoas voltarão a encontrar um sentido para as escolhas em democracia.
Até, e tal como nos EUA o movimento do Occupy Wall Street propôs fazer dos 99% o símbolo da exclusão económica, defendo que deveria fazer-se deste 99% que nunca votaram para escolher os candidatos a primeiro-ministro, ou os candidatos a deputados, o símbolo da exclusão política a que quase todos os portugueses estão sujeitos.

E há uma questão fundamental que era ter a ousadia de fazer um último teste. 
Um último teste ao que nos resta, que é - já repararam, sequer? - estas mesmas eleições que nos dizem ser o tudo e o nada, conforme os apologistas, da democracia que temos.
Esse último teste por fazer - continua por fazer! - já vinha narrado, em tentativa, no "Ensaio Sobre a Lucidez".
Esse teste consiste em votar diferente, mas completamente!, do que temos vindo a fazer nestes 37 anos.

E aqui saltamos para outro exemplo.
Enquanto milhares de milhões de nós andamos, por todo o mundo e  à trela dos média, entretidos com uma mudança que apenas pode ser decidida por menos que os países que esse mundo conhece e em que esse mundo tem de viver, não sei se repararam que houve eleições ali ao lado, a toda a volta do Vaticano, esse estado absolutista criado pelo mui democrático Mussolini.

Vistes quais foram os resultados?
Vá, todos tivestes de ser metralhados com a propaganda!...
E vistes quais foram as consequências / reacções a esses resultados?

Eu vou explicar e chamar-vos à atenção, para o caso de não terdes tido a lucidez de análise.
O candidato que resignou, o mandatado do FMI para aquele país, Monti, teve uns 10% dos votos. O palhaço Berlusconi teve 29%, o outro, Bersani, teve também 29% e a personagem, populista, não tardaram logo os média em fazer-nos cabeça, Beppe Grillo teve uns assombrosos, perigosos 25%.
Populista? Ok, mas não será o único, e não ouvi os "imparciais" jornalistas a usarem dessa palavra para falarem do imperialista palhaço corrupto Berlusconi.

A organização do poder deu num impasse, pois houve maioria de um dos candidatos num sítio e maioria do outro noutro sítio, i.e., Câmara de Deputados e Assembleia.

O país ficou num impasse.
Talvez tenha sido isto o foco principal das notícias.
Mas não descuremos o comediante Grillo.

Agora reparai nesta anedota.
Mal se souberam os resultados, primeira notícia que ouvi:
Os mercados reagiram em baixa.

Os mercados???
Mas o que é que os mercados têm que ver com umas eleições?
Mas porque é que...

No livro do Saramago, a escolha do voto em branco deu prò torto e os instalados do sistema partidário e do poder logo trataram de arranjar um bode expiatório para sanear o problema e repor a "normalidade democrática".

Por cá, sempre que se vota diferente, os mercados reagem.
Assim, diriam eles se fossem entidades concretas e humanas, não vale a pena continuarmos com eleições!
Como se a Democracia não passasse da melhor invenção do Poder oligárquico (que instituiu a Escravatura, o Absolutismo, e todas as demais Idades Médias por todos os tempos) para atravessar e sobreviver aos tempos e aos lugares.

Nós damo-vos a liberdade de elegerdes, mas só se aqueles que elegerdes forem do nosso agrado e confiança!
Tudo o que sair fora desse espectro não conta.

Esta é a última dúvida que temos de tirar. De uma vez por todas.
E era essa, quanto a mim, a reflexão última do livro "Ensaio Sobre a Lucidez".
Temos, para ter a certeza absoluta (para não virem depois acusar-nos que não tentámos...), de tirar essa última prova dos nove: votar, ou na extrema direita, ou na extrema esquerda e não reservar um voto que seja para os partidos siameses do centro estagnado, instalado e manipulado.

Aí veremos o poder que o Poder nos reserva ou realmente nos concedeu para tratarmos da nossa vida.

E, sabeis de uma coisa, acredito há muito tempo que a consequência imediata será uma intervenção militar eivada de libertação. Os poderes que realmente nos governam, se estrangeiros são, logo tratarão de mobilizar os exércitos para intervirem nesta porcaria de jardim à beira-mar podado.
Claro, que, antes, tratam de mobilizar os embaixadores, quais Carluccis renovados, e de pôr, tal como põem os mandatados do FMI, peças fundamentais para que as coisas não saiam do sítio.
As chamadas forças de bloqueio.
A reacção e os "insiders".

Na Grécia, antes das eleições de 1967, houve um golpe militar que pôs o país a ferro e fogo, de que aliás já por cá falámos.
Não deixaram que houvesse eleições.
E sabeis porquê?
Porque de antemão sabiam que a vontade da maioria era um governo de orientação socialista. A história do povo levou a que ele se organizasse e assim pensasse. E portanto, as eleições já não serviriam para a fachada para que servem por cá. Por cá e por muitos desses países que se dizem democráticos.

Os coronéis é que trataram, evitando as eleições, de nos dar, há muitos anos, a razão que teimámos em adiar conhecer: a de que estas não servem para mudar o essencial - só servem para dar continuidade.
Isto pode parecer um raciocínio circular, mas é assim que compreendemos as alternâncias entre os partidos do centro, que não distinguimos os democratas dos republicanos: os interesses que realmente governam e que nós não elegemos estão instalados, legislam e mexem os cordelinhos para que o poder nunca seja repartido ou transferido.

Ui, o poder cair na rua seria o desastre!
(Ouvimos esta de um comentador, depois do sábado passado)
Seria, não seria?
A que desastre estarão eles a referir-se mesmo?
À desacreditação final do sistema?
Ou será à "rebaldaria" e ao "perigo" do populismo e da deriva do poder?

O problema posterior vai ter àqueles livros a ganhar pó.

"It's a large nation, but still very weak", 
acertava o Leonard Cohen no Festival da Ilha de Wight

Mesmo se isto se desse por uma revolta de lucidez (votar só e apenas nos extremos, ou num ou noutro) faltar-nos-ia depois a capacidade de nos organizarmos para podermos tomar conta do nosso destino.
Sem patrões nem senhorios.

E a falta de criatividade e de inteligência que perpassou na manifestação de sábado passado é o mais preocupante de tudo isto.
O poder não é nada sem controlo, dizia um anúncio de pneus de que alguns se lembrarão. Se o viveram e se o guardam na memória (a possível...).
O poder cair na rua será o desastre se se tratar de força bruta, esta força bruta que é sempre tão maleável que basta um qualquer charlatão que cante melhor que o Relvas para a mobilizar a seu favor, crendo, crentes, os indignados ter ali, perante, eles, mais um salvador da pátria saído do nevoeiro que criámos por desleixo.
Tal como Salazar.

A qualidade da democracia está intimamente com a capacidade do seu povo.
E se quiserdes prova cabal disto, FODA-SE, fiquemos e aprendamos com isto:


Porque tiveram um presidente da república que, ao contrário dos fantoches e sucedâneos de Kissingers, preferiu sacrificar a economia em vez da democracia e porque o povo se organizou para decidir o que fazer com o que lhe diz respeito.

As bases da estupidez grassam, alimentadas por quem quer manter as coisas tal como estão. E assim, toda a mudança se vê dificultada ou mesmo impossibilitada.

Lá está, os tais 37 anitos.
Continuamos uns bébés...

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Meus amigos, pequenas coisas que vão passando à margem


Um sismo de intensidade 6,1 na escala de Richter abalou hoje a região de Vanuatu, no Pacífico Sul, sem que as autoridades tenham informado sobre a existência de vítimas ou danos materiais, ou emitido alerta de tsunami.
A República do Vanuatu está localizada no chamado "Anel de Fogo do Pacífico", registando abalos sísmicos com frequência.
(Ler mais AQUI)

Ministros europeus aprovam fim das rejeições de peixes no mar. Mas há excepções [e algumas omissões pelo meio]
(Ler mais AQUI)

À estratégia de mercadorização do mar corresponde a apoteose do desperdício mais insano. Esta verdadeira infâmia ocorre há vários anos. Recordo-me de assistir na RTP2 em 2012 a um documentário bem elucidativo a este respeito, denominado "Hugh's fish fight", vertido para português "Hugh e a causa das pescas". 

Deixo aqui um vídeo promocional.




terça-feira, fevereiro 26, 2013

São bons hipoteticamente, ou lá fora, mas aqui, ou quando se vai a aplicar a sua bondade, dá nisto


O Grupo IKEA, após ter promovido a construção das suas fábricas de móveis em Paços de Ferreira, numa área que estava integrada na Reserva Ecológica Nacional, e também após o abate de sobreiros no terreno previsto para a loja em Coimbra, pretende agora construir uma nova área comercial em solos da Reserva Agrícola Nacional (RAN), no concelho de Loulé, revelando uma enorme falta de responsabilidade ambiental.

A Quercus teve conhecimento que a IKEA Portugal pretende construir uma nova área comercial no Algarve, tendo a empresa imobiliária (IMO 224 – Investimentos Imobiliários SA.) promovido a compra de terrenos em solos da Reserva Agrícola Nacional, no sítio de Alfarrobeira, em Loulé, próximo da A 22 - Via do Infante.

Plano de Urbanização Caliços – Esteval elaborado para viabilizar IKEA

Para viabilizar a construção deste novo centro comercial da IKEA, o Município de Loulé elaborou um "Contrato para Planeamento" com a IKEA Portugal e a INTER IKEA, que visa elaborar os estudos e acções, com a finalidade da aprovação do Plano de Urbanização Caliços – Esteval. Este Plano incide numa área com 355 ha, mas em que 12 ha estão condicionados devido aos solos da Reserva Agrícola Nacional, estando prevista a sua aprovação nesta sexta-feira pela Assembleia Municipal de Loulé, sem que tivesse sido avaliada uma alternativa de localização para este Centro Comercial do IKEA.

A exclusão de solos inseridos na RAN traduz-se na reclassificação de solo rural para solo urbano, mas apenas com carácter de excepcionalidade. No entanto, a Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve concordou com o proposto Plano de Urbanização. Para além da DRAP do Algarve, nunca a CCDR do Algarve deveria ter viabilizado este Plano de Urbanização sem que tivessem sido estudadas alternativas de localização para o Centro Comercial do IKEA, uma vez que esta expansão urbanística não estava prevista no Plano Director Municipal de Loulé.

Verifica-se uma vez mais a subversão total dos princípios de planeamento e de um correcto Ordenamento do Território, no sentido da contenção da expansão urbana e da concomitante preservação dos solos agrícolas e do património natural. Com efeito, o País continua a perder os melhores solos agrícolas, boa parte das vezes apenas e só devido à especulação imobiliária.

Basta ver o recente exemplo do Município de Oeiras, cujo Presidente viu recusada (pela CCDR) a sua pretensão de transformar todo o solo do Município em solo urbano, no âmbito da revisão em curso do respectivo PDM, deste modo sacrificando solos de elevada capacidade agrícola ainda existentes naquele Concelho.

A Quercus deixa claro que, apesar de considerar o investimento do Grupo IKEA importante para a região, entende que a localização deveria ser escolhida evitando as áreas da RAN ou outras condicionantes previstas nos instrumentos de ordenamento do território. A Quercus lamenta que o Grupo IKEA insista na construção de empreendimentos em áreas ecologicamente sensíveis e condicionadas, quando existem alternativas que deveriam ser ponderadas na seleção de locais para investimento.

Lisboa, 7 de Fevereiro de 2013

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

A Polícia, a Répública e os Marginais

As sociedades que se organizam em Estados criaram essa instituição repressiva que é a Polícia. Força coerciva, mesmo que não exerça violência física, que, pela sua simples presença ou existência, é um ante-garante da ordem pública.
E aqui reside a primeira contradição em que se vê enredada a Polícia, batata quente a mudar mãos que, ao contrário da expressão, precisam desesperadamente é de ter as mãos bem quentes. Como as costas, aliás.
Mas não de levar nos costados.

A Polícia deve defender a Pólis, pois foi originariamente nesses fundamentos que foi criada. O Ágora das nossas cidades, a janela que dá para o nosso estádio de evolução democrática, não é já o centro da vida organizativa e para a qual todas as ruas devem ir ter.
A discussão, a valorização e a contemplação agórica padecem agora, paradoxalmente, de claustrofobia. Ora, a doença consiste em elas não quererem, ou não poderem, sair dos claustros para onde têm sido empurradas.
Pela Polícia.

A rés pública mudou de cor, um pouco ao jeito da vaca milka. Ela, que nos vendem sempre ser incolor, no sentido de imparcial, vai sendo conspurcada pelos que lhe vão secando as tetas.

No meio de tanto chocolate quente, sugado àqueles que o produzindo não o bebem, nos vamos esquecendo que a transparência que é própria da senhora cega da República, a Justiça, não é NEM PODE SER imparcial.
Pois que em Democracia, os valores que contra ela atentem não podem ser alvo de aprovação. E como o cão expulsa a carraça, também a República devia expulsar aqueles que a sugam até ao tutano (dizem que o tutano é o supra-sumo da política económica capitalista...).
Sem piedade devia fazê-lo.
Nós somos as vacas, e eis as nossas tetas para vos servir.

E então deparamo-nos com outra contradição essencial da Pólis: os Marginais.

Os marginais são aqueles que estão sempre à margem. Da lei ou na Praça.
O paroxismo consiste, como já reparámos, em termos os marginais a ocupar - e não saem de cima nem deixam para lá ir outros - o espaço central da Democracia. 

São eles que legislam e governam os outros para si próprios.
E fazem-se representar pela polícia. E pelas polícias que nos policiam a vida.

Invadem as praças sob a forma de empresas e bancos, que - lá vêm os fundamentalistas - tapam a vista aos monumentos há muito plantados nas suas pontas ou nos seus centros estratégicos. Descaracterizam a cidade, levando o olhar a obstacularizar-se com o que até então era essencial - o monumento e os valores que ele materializa - e a obnibular-se com os valores que representam a visão do particular e do não-sustentável colectivo.

As praças levam, por vezes, o nome de estátuas que levam ao meio. Por exemplo, a Praça Camões, em Lisboa.
Perdida a memória, as metáforas, a narrativa, a poesia, e os eventos dos Lusíadas e da sua lírica na Escola (outro termo grego indissociado da Pólis, onde devem ser transmitidos e defendidos os valores da coisa pública), será uma consequência lógica (outro mais, da filosofia clássica) erigirmos estátuas em forma de shoppings (vejam que a linguagem do poder até muda de idioma, impregnada que vem dele e das suas sedes) ou de prédios de escritórios.


O Pensador, estátua da nossa Democracia


Cá em Braga, temos na Praça Conde de Agrolongo, mais conhecida como Campo da Vinha, anterior local das trocas de bens do e pelo povo, um Instituto Wall Street, que o Inglês é, como já disse acima, o símbolo metafísico do exercício do poder. Portanto, na organização mental e social que visa o fim económico.
Por baixo temos, actualmente, uma Maria Bolacha, pastelaria-café que nos traduz um convívio que migrou para espaços privados e espaços de consumo. E, Maria Bolacha, bolacha Maria, consumo de bens perfeitamente acessórios, ou, por outras palavras, marginais.

Muito nos queixámos e agora menos nos queixamos do mamaraxo que o edifício representa para quem, do cimo da praça, quer ver a igreja onde funciona a Câmara. Mas, elo perdido, facto consumado, cada vez nos queixamos menos. Uma das formas de nos queixarmos menos é frequentarmos e alimentarmos essas empresas.

Isto traduz, ipsis verbis, a marginalização de nós mesmos. 
Somos as vacas loucas, alimentadas a farelo de engorda nas ZPI, zonas de produção industrial, mediatizadas e alienantes como alienados estão a escola e o ensino dos valores colectivos.
Nós, que nos julgamos os arautos da coisa pública e da defesa dos valores democráticos, estamos sempre a ceder, face à gula e às sacaroses ("vive rápido, morre novo!"), aos interesses dos privados.

Assemelhamo-nos ao visionário, agora transformados em loucos, se anti-marginais houvesse para nos julgar, do Cinema Paraíso, gritando já quase só para si:

- Esta praça é minha, esta praça é minha!...

Enquanto com sacos de plástico na mão vai tentando achar o seu caminho por entre os carros que a preenchem.

Ou seja, amputámos os santos para nos devotarmos com os ex-votos.

E a consequência desta mutação de valores públicos em valores privados será a mesma a aplaudir a substituição da estátua de Camões por uma estátua de Relvas, esse pingue, palerma, pacóvio, parvo, estúpido, cínico, parassimpático,  privado, palonço, mentecapto sujeito, cuja cantoria agora me conspurcará a alma de cada vez que me lembrar da palavra fraternidade.

O assassínio da Grândola, na efeméride da morte do seu cantor.

Relvas não cai, não: Relvas não sai, porque é uma nódoa, porque na nossa democracia só dispomos de água suja.

Não fomos nós que o escolhemos.
Não fomos nós que o elegemos.
(a representatividade em questão)

Mas padecemos da falta de dignidade e é esse vazio de que dispomos para abater os que nada têm que ver com Democracia, nem com Liberdade de expressão.
É muito pouco.
Despojados, é quase nada.
E sofremos.

Relvas representa-nos, pois é a imagem do poder da corrupção, do cinismo, do metedismo e do que quer sempre ver como sacar mais uns dinheirinhos nas negociatas, não importa quais, fazes só aquilo para que foste madatado. Pago.

A questão da representatividade é a estátua ou o monumento que decidimos pôr no dia-praça em que temos de passar para viver.
Relvas e seus acólitos que se queixam da falta de liberdade de expressão, os garantes da democracia podre e cínica.
Relvas, a polícia que temos.

Volta, Zé Cabra. 
O vento está de feição e sopra enrolando os tufos de porcaria que rebolam como relva seca pelo alcatrão que nos tapou os poros da decência.

Para o abismo, s.f.f. (sem fazerem favor)

O carpe diem de alguns aborta o carpe diem de outros (mais uma definição de insustentabilidade)

Apesar do novo regime de arborização e rearborização, promovido pela ex-Autoridade Florestal Nacional, no mês de maio de 2012, ter sido alvo de fortes críticas por parte das fileiras florestais - que não a do eucalipto -, das Associações de Defesa do Ambiente e de milhares de cidadãos que assinaram duas petições contra a nova legislação, tudo leva a crer que o Conselho de Ministros se prepara para aprovar uma proposta que continua a ir no sentido de permitir novas plantações de eucaliptal sem qualquer regulamentação, sobretudo no Norte e Centro do País.



Por isso, como disse a ministra-eucaliptal Assunção Cristas, "o eucalipto cresce um bocadinho".

E andamos a basear o nosso desenvolvimento, insustentável, 

não é que quando a esmola é grande o pobre desconfia?

Então, os lucros rápidos não são de desconfiar?
Não paramos para pensar que este lucro dos eucaliptos está a pôr em causa o futuro de País enquanto lugar para viver?


Sim, a afirmação é grave.
Meditemos nela.
Continuem, por outra, a apelidar de profetas da desgraça ou de não-credíveis, aqueles que assim denunciam esta prática e forma de vivermos.

As consequências são conhecidas e mais que estudadas.
É só uma questão de tempo.

A longo prazo estarás morto, dizem uns.
A breve prazo não haverá longo prazo, dizemos nós.

domingo, fevereiro 24, 2013

A ofensiva é global e os efeitos, locais, somados, são-no também.

1


ProSavana from GRAIN

O governo brasileiro e o sector privado estão a colaborar com o Japão para promover um projecto de agronegócio em grande escala no norte de Moçambique. Denominado ProSavana, o projecto poderá disponibilizar 14 milhões de hectares de terra para empresas brasileiras do agronegócio para a produção de soja, milho e outras culturas de rendimento que serão exportadas pelas empresas transnacionais japonesas. A área de Moçambique, conhecida como Corredor de Nacala, é uma região onde moram milhões de famílias camponesas que correm o perigo de perder as suas terras neste processo.


2

Sete helicópteros, forças militares, policiais e de segurança, estimadas em mais de 500 efectivos, tomaram parte numa operação de demolições do bairro residencial Mayombe, no município de Cacuaco, em Luanda, a 1 de Fevereiro passado.
De acordo com os relatos dos moradores, o dispositivo militar e policial destacado no local de madrugada surpreendeu e causou pânico às populações locais. “Por volta das 5h00 da manhã, os bulldozers começaram o seu trabalho de desalojamento de mais de 5,000 pessoas”, afirmou Mateus Virgílio Mukito, um dos moradores.
Por sua vez, Pedro Sebastião, outro desalojado, disse ao Maka Angola que duas crianças morreram no acto.

Ler notícia completa, via MAKA


Na China e no Brasil dos Jogos Olímpicos a cena repete-se.
São só uma amostra dos bem-olhados e bem-aplaudidos países "em crescimento", exemplo a seguir pelos que agora os vêem passar à sua frente.



Em termos de massificação:

a) O turista é aquele que vai consumir coisas nos sítios onde não habita.
b) O consumidor é o que faz as coisas dos sítios onde não habita fazerem turismo por ele.


Os turistas são a força motriz da destruição, pois o seu consumo é o aval para que continuemos a aplicar estas estratégias.
Os turistas são uma só face dum mundo onde as maiores empresas, para o manterem mais bem enredado, baralham as forças e zonas de produção e consumo para criarem relações de dependência por elas controladas e por elas espremidas sob a forma de petrodólares e outros nauseabundos líquidos.

O turismo massificado vai lá aprovar a obra visível, apenas.
Digo massificado pois é esse o que é suficiente para suportar as grandes maquias. As grandes massas, já agora.
O turismo-crime muito bem organizado e planeado por não sei quantos agentes e intermediários.
Para que nada escape e o dinheirinho seja certo.

E se pensamos que só lá para os países que os ricos subjugamos é que se cometem atrocidades - o velho, permanente e muito escamoteado e ocultado direito à terra - pensemos nas demolições dos bairros das zonas do Porto ou da grande Lisboa, para os quais já tivemos oportunidade de chamar à atenção, ou, nos países ditos desenvolvidos ou democráticos mais a norte, a França, no caso, que recorrem aos mesmos métodos repressivos da polícia e do exército numa intimidação encapotada típica das ditaduras militares em que os dois blocos caquécticos e assassinos foram pródigos desde o século passado. 

Tudo para "varrer" manifestantes que ocupam terrenos cobiçados não pela polícia, nem pelo Exército, nem pelo Estado, mas pelas empresas que mandam nestas três instituições. 
Em nome da Democracia, ou, se quisermos, do desenvolvimento económico, para construir novos aeroportos, para destruir quintas invocando o que for preciso ou para novas linhas de TGV.

Menos espaço para todos.
Mais dinheiro para alguns.

As pessoas são, tal como por cá, algo que não existe.
Só existem para ter fome e ser carne pra canhão.
Bem apontada prò coração do mundo.