terça-feira, junho 26, 2012

Acordai, imbecis!

Sim, sabemos que o vídeo já por cá foi posto, mas... quantas pessoas já o viram realmente?




E é por isto que as ajudas dos bancos, dos éfémis e do raio que os parta que foram paridos todos da mesma ganância não vão salvar ninguém nem ajudar ninguém. Nem a Grécia, nem Espanha, nem Portugal, nem a Itália. Nem quem mais que há-de vir (..."Cabrões de vindouros!)

E todos os partidos que estiverem a aplicar estes programas assassinos e cobardes irão cair. Porque nenhum há-de resolver o que quer que seja.
Porque, tal como a "Europa" suspira de alívio por não votarmos naqueles que recusem estes programas assassinos, iremos sempre manter e acreditar que... "Agora é que vai ser...! enquanto continuarmos a votar no centrão e nos partidos do poder apoiados pelos "mercados".

"Agora é que vai ser...!"

Mas não vai ser coisa nenhuma.
E depois vamos dizer que "São todos iguais."
(Dizei, quantas pessoas não ouvimos já proferir esta deslúcida frase?)

E depois, nós próprios, descrentes de todos os governos que poremos no poder, por incapacidade matematicamente necessária dos anteriores, iremos acusar que a Democracia é o pior dos sistemas políticos e que não resolve os nossos problemas. Agora chamados "problemas das pessoas"...

Mas, amigos, deixai-me que vos diga:

ISTO QUE ACUSA(RE)MOS NÃO É DEMOCRACIA

e, por conseguinte vamos apoiar todas as forças beligerantes e todos os grilos falantes e bem pensantes e todos os demagogos de toga e qualquer arauto que enfeitice as massas...

E aí vamos perceber melhor o "eterno retorno do fascismo" que sempre reside na propagação da ignorância, da confusão e no obscurantismo entre as massas.

As massas, numa histeria colectiva mais, que são sempre as primeiras a apoiar quaisquer verdugos que há em cada esquina de nós.

Porque a verdade é que talvez nunca tenha havido na história forma de controlar e de imbecilizar tanta gente tão facilmente.
E esse trabalhinho tem vindo a ser feito.

E, once again, estamos a ver o novelo a desenrolar-se sem lhe podermos tocar. Temos as mãos sujas.

Fazemos parte dos PIGS!
Condenados à submissão.

(Salazarismo, Fascismo, Coronelismo e Franquismo redux!
Em breve, numa casa perto de si.)


segunda-feira, junho 25, 2012

Braga, cidade terceiromundista

Ao contrário do que por cá se vai fazendo, há já outra maneira de pensar a componente física das cidades.
Quando aqui há uns anos, numa reportagem ou em crónicas opinativas, ouvimos turistas a criticar Benidorm e o Holegarve, pensámos que, sim, finalmente, algo começa a mudar na cabeça de quem realmente alimenta o erro.

A verdade é que um organismo morre se deixarmos de o alimentar. É uma inacção que tem consequências efectivas. E que vêm contra todas as propagandas que por todo o lado nos incitam ao consumo.

A economia é inseparável da destruição a que temos assistido, da destruição de que temos sido, directa ou por tabela, os únicos responsáveis.
Desde que começámos a basear o dito desenvolvimento (vulgo "crescimento") na exponenciação da produção e do consumo.

"Seja original: consuma isto!"

"Atreve-te a experimentar" ...

e demais alegrias sempre infecciosas que grassam pela publicidade que nos invade por todos os poros do nosso ser...

Bem, íamos a dizer que pouco tempo depois estavam previstas não sei quantas camas (gostam tanto de escolher palavras bonitas, inócuas e obscurecedoras para calar possíveis críticas e críticos) para o litoral alentejano.

E, portanto, o problema da sobreconstrução e do alcandoramento do betão e do cimento que ao que parece alguns começavam já a criticar, e dos quais urge afastar-nos de vez (assim mudem as concepções dos turistas e do turismo, que se quer mais inteligente, ou, dito não massificado) ia, apesar dos erros já cometidos, continuar a multiplicar-se por ali e por ali.
Os inteligentes na linha da frente...

É como os também países do terceiro mundo, que almejam o nível de poluição dos ditos evoluídos. Claro, caramba, eles também têm direito! Vamos agora nós andar a criticá-los porque, se formos a ver bem, eles não devem mesmo querer isso.

"Não querem pensar melhor?", parecemos estar a dizer...

Isto significa que os que já erraram, já sabem qual é o erro e não o desejam a ninguém.
E isto significa também que os que ainda não erraram não puderam ou não quiseram aprender com os erros que os primeiros cometeram.

Pois... a velha história:

os que querem, não podem,
os que podem, não querem

ou, transmutadamente,

os que querem, não sabem,
os que sabem, não querem...

Mas, caramba!, basta analisar e perceber o que se passa para empreendermos as mudanças, simples, mesmo que custosas (mais em dinheiro e intervenção urbana que propriamente em vontades e esforços colectivos), que urgem.

Deixemos a terra respirar.
Aumentemos a concentração vertical das águas. Aumentemos a sombra, o verde, diminuamos o aquecimento, aumentemos a evaportranspiração, reduzamos o desperdício, aproveitemos (não melhor, sequer, mas... de facto) o valioso recurso que aqui cai, penico do céu assim transformado em latrina. "Há já muito tempo irrespirável..."

Diminuem os custos. (Ah, era isto que queríeis ouvir... ok, daqui cópi, ai guétit... Parolos somos...)

Vejamos o vídeo e alimentemos a esperança.
Ou a esperança de ficarmos... à espera que algo mude nas nossas cabeças atrasadas de terceiro mundo em que ainda nos atolamos.
Braga incluída, obviamente.
Na linha da frente.




Parabéns, Filadélfia
Esta é a pólis que vale a pena.


domingo, junho 24, 2012

País de Parolos (tomo terceiro)

Alegam, vendem, acenam que com menor trânsito o ar da cidade de Braga vai melhorar.

Com as obras em curso (largo da Senhora-a-Branca, Campo das Hortas, Rua dos Chãos, Av. Central, Rua do Raio e Rua de S. Lázaro, Praça Municipal, sobretudo estas, mas vêde por vós mesmos aqui), uns vão dizendo:

"Mira, que bonito, no es verdad?"

Outros queixam-se do barulho, da poeira, das dificuldades para, neste ou naquele ponto, passar para "aquele lado", e nem estamos a falar de pessoas com cadeira de rodas ou de cegos, cujos obstáculos não carecem de obras.... Pois, também aqui encontrais espaço avesso às vossas locomoções e flanagens:

EMIGRAI, PAROLOS, QUE OS PAROLOS QUE VOS QUEREM LÁ, EMBORA ELES CÁ CONTINUAM PORQUE TÊM DE FICAR A TOMAR CONTA DAS COISAS, OS LACAIOS, OS CHACAIS...!

Mas pelo que vemos, ouvimos e visitamos (sempre pelos passeios possíveis, que não queremos incumprir e passar por espaços que os construtores nos vão mantendo vedados) concluímos:

(excepto para o que está previsto para o Largo Carlos Amarante, como a imagem no-lo pinta, bonito, bonita)

- em nada estas intervenções urbanas parecem contribuir para aumentar o espaço não-betonizado (em todas elas vence a pedra que, como já dissemos noutro tomo desta parolice, é condição sine qua non destes belos planos), pelo que de intervenção terão muito pouco.
Assim, persistem a elevada taxa de escorrência (e o concomitante desaproveitamento das águas pluviais) e o bem sentido aquecimento do cidade (já várias vezes falámos nisto), pois os raios solares não descansam mais com isto. (Experimentem olhar para o termómetro da vossa viatiure dentro e fora da cidade. Sobretudo de dia, que é o que está em questão. Mas também de noite se regista.

- assim, do alcatrão transfigurado em pedra ou da pedra renovada, escassas ou inotórias parecem estas intervenções: a fluidez de trânsito permanecerá a mesma.
Fazem umas mudanças aqui e ali, mas não as complementando com outras obras, talvez mais oportunas - dizei de vossa justiça - e que não de mais e mais impermeabilização para bracarense ver e calar e chupar no dedo...

(CHUPA, PAROLO, QUE PENSAS QUE É BONITO E PARA TEU BEM!)

...talvez agrave até os problemas que dizem, acenam, vendem, vencem, estar a querer resolver.

Perdem.
Ponto.

PERDE, PAROLO, "QUE ELES TRATAM, ELES DECIDEM, DECIDEM TUDO POR TI".

Perdemos.
Porque eles sabem muito bem que estas obras não vão mudar a qualidade de vida dos munícipes (os empreiteiros dessas britalares e dê-ésses-tês  e quejandos recrutam, só para o efeito e coerência desta acusação, os trabalhadores fora do município de Braga: por isso, são apenas parasitas que não ténias.), mas apenas cumprir o servicinho do arranjinho, do trabalhinho, do roubozinho do costume.


Há quem, criticando, ainda acredita estes estrategos acreditam, bem lá no fundo de si, que, com estas obras, algo vai melhorar... Dou o benefício da dúvida. Porque tenho confiança nesse amigo. Não porque acredite que eles acreditam. 

E, não querendo falar da anedota que é aquela via verde, dita ciclovia, ali por Gualtar, Nogueiró etc, com carros a cortar os pés, as rodas, aos "verdes", e não o contrário, que os "verdes", e são tantos ao fim da tarde, que "caminhar até faz bem, dizem, unânimes, os médicos!", é que têm de se submeter, pelos desníveis dos passeios, à circulação motorizada...
... esperamos para ver no que vai dar a intervenção, dita requalificação do ... glup... rio Este...
Uma coisa é certa: aqueles prédios construídos em cima da ... glup outra vez... margem não foram implodidos. Alguns são até bem recentes (ver ali ao lado das piscinas). 
Talvez não seja bom prenúncio.

"Mas... deixai-nos governar, caramba!"!

(Quer-se dizer: estiveram a desgovernar estes anos todos e agora querem fazê-la bonita para apagar a memória do que foi andar a betonizar esta cidade. Apagar a memória, não a betonização da cidade...)




Em prol da melhoria ambiental obras a sério urgem. Não empreitadas de fachada!
E O PAROLO SOU EU??

sexta-feira, junho 22, 2012

País de Parolos (tomo segundo)

O que alegam, defendem, vendem, acenam aos munícipes é que a circulação automóvel vai ser mais fluida.

Sim, mas para isso não era preciso fazer obras. Porque "obrar" até sugere, precisamente, o contrário.
Por conseguinte, também não era preciso fazer barulho.
Nem cortar o trânsito.
Nem encher de areia e água, portanto, suja as ruas intervencionadas.

Bastava cortar com os estacionamentos onde a circulação é estrangulada.
Acabar de vez com, nem dizemos carros em segunda fila: DIZEMOS PRIMEIRA! Que em certos casos bastam para fazer do burgo uma brincadeira de peões e passageiros. Parados.
Onde os autocarros, equiparados aos automóveis (até nem levam mais pessoas, nem nada...), são obrigados a esperar para prosseguir o seu periclitante percurso e a fazer-nos concluir:

"Puxa, da próxima vou a pé, que é mais rápido!"

Não vale a pena andar a motor e quatro rodinhas numa cidade tão pequena.
Só que / Mas que, de tão pequena, não devia ter os problemas e as demoras de tráfego que tem.

SAI, PAROLO, PARA A RUA E VEM VER A PORCARIA DE TRÂNSITO QUE NÃO APANHAS E PERSISTES EM PROJECTAR!

As cidades são problemáticas para o trânsito pois o buraco em que as vamos tornando não cresce para o que lá queremos meter dentro.
Desculpai-me a, porventura, metaforização feminina barra insinuação sexual acima e abaixo, porque, se quisermos ver no que o capitalismo torna os espaços urbanos (prossegu(i)ndo a reflexão do tomo anterior deste artigo), não são as cidades lugar onde nos compramos e nos vendemos?

Que é das cidades sem os tráficos (o do dinheiro, o das pessoas e das mercadorias)?
Talvez pudesse ser um espaço mais humano, já sabemos e imaginamos, com espaços de fruição, lazer e criatividade, de uma criatividade e de uma fruição que não estivesse sempre a ir cair na porcaria da economia e do consumo... Os lugares onde confraternizamos... porque têm de ser sempre acompanhados ou de cerveja, vinho (ou piores nem bebidas...) ou de algo pra trincar ou degustar?

"Ah, e tal, consumir é um acto social"

Mas, neste caso, antes de mais é um acto económico e uma cidade tem ou devia ter uma noção bem mais alargada do que aglomerar uns pobres seres condenados à indigência do betão e da desapropriação.

PÁRA, PAROLO, DE SER APENAS PORCO E PASSA A SER OUTROS ANIMAIS MAIS!

Cria! Protesta! Canta! Pinta! Toca!
Não consumas e destruas, somente.
MEXE-TE! MOBILIZA-TE! MORDE-TE!

Eu não uso, mas tenho de pensar como se quisesse usar. Como se tivesse de usar.
Assim, ao materializar a minha vida, eu veria com mais olhos e de uma forma menos estanque as respostas, diversas, que são procuradas...

Eu não uso, mas tenho de pensar como se quisesse usar. Como se tivesse de usar.
Porque eu posso, e tenho de ter o direito e a possibilidade de usar os transportes públicos.
Bem como outras coisas públicas. 
Senão não o são.

(Um rio, sob o sol a pôr-se, Paredes, Tejo ou Mondego a estas horas da madrugada... eterno és, quase a cambalear, de olhar sorridente por entre a multidão trabalhadora...)

Ponto.

quinta-feira, junho 21, 2012

Em breve iremos saber o que argumenta o vulcanólogo Franck Lavigne, da Universidade de Panthéon-Sorbonne, sobre o arrefecimento global por que passou a Terra ali pelo século XIII.

(Era eu ainda muito pequenino.)

A notícia vem dada pelo Ciência Hoje, aqui.

quarta-feira, junho 20, 2012

País de Parolos (primeiro tomo)




Enquanto obras inúteis vão enruidando, regenerando, dizem, as ruas deste burgo que (nos) vai empequenecendo... 


Inúteis não são: 


- vão reduzir o número de viaturas automóveis, quer a circular, quer a estacionar, uma vez que o espaço será ainda mais condicionado -- por consequência, mais pessoas que se deslocam, pendularmente, da periferia (que cresce) para o chamado "centro" da cidade (que assim também vai crescendo, aumentando o vazio) se verão obrigadas a concluir: 


"Vem, parece que vou mesmo que meter as quatro rodas no parque" (do senhor que até esteve preso e tudo... não num dos seus, claro!) 


PAGA, PAROLO!!!! 


- servirão para dar vazão às toneladas de granito que um empreiteiro tinha lá acumuladas -- por as ter extraído do então tornado "espaço" onde se encaixa o novo estádio municipal de Braga, coisa pela qual se fez pagar e que a excelentíssima Câmara Municipal obviamente que pagou 


PAGA, PAROLA QUE NOS FAZES À TUA IMAGEM E DIZES REPRESENTAR-NOS 


--- toneladas de pedra, agora muito bonitinha e aplainada sob os nossos futuros pés cada vez mais de chumbo, que o senhor empreiteiro / construtor (só não revelamos o nome porque o desconhecemos: mas dizei se estes anónimos não deviam já ter um nome mais digno que "criaturas descendentes de progenitoras assalariadas à noite?) agora vende à... Câmara Municipal para as excelentíssimas e bacocas obras e ela, claramente nos seus propósitos, propalando o interesse público, picando o ponto, persiste em pagar: 


PAGUEMOS, PAROLOS, QUE É DISTO MESMO QUE NÓS GOSTAMOS (todos temos filhos e enteados nestas empresas corruptas que nos fazem à sua imagem e que, nós, orgulhosos, ostentamos ao peito e na cabeça desmiolada pelo tilintar batente do som sagrado do dinheirinho ao fim do mês e até algum, quanto mais melhor, por fora e nos entretantos...) 


E como o sector até está em crise (- talvez não seja o principal, mas o lugar que ocupe na lista permite-nos pensar um pouco nos factores e manifestações da mesma...), os mesmos concursos de sempre abertos às mesmas empresas de sempre, ditas locais, que podem, em polvorosa, dinamitar, cidades inteiras... economicamente, basta quererem, e elas, a acenar com os empregos, já aprenderam a lição dos governantes, governantes se tornaram, ouvem-nos a gritar


NÃO!! NÃO FAÇAIS ISSO


Daí...:


EMPREGA LÁ UNS CONSTRUTORES, COITADINHOS, QUE TÊM FILHOS PRA CRIAR E PÃO PRA DAR DE COMER


Ponto.


Estes são, à primeira olhada, os factores determinantes por que estas obras, abrigadas sob nomes bonitos e vazios, embora ruidosos, se fazem e vencem e vão sempre avante, imparáveis e alheios ao que dizem aqueles a quem vão afectar no quotidiano. Daí por diante. 


PORQUE APÓS O PAGAMENTO, PAROLO, O EMPREITEIRO PÕE-SE A ANDAR E VAI PREGAR PRA OUTRO LUGAR! PARA TRÁS DEIXA PAISAGEM... PARTIDA, FRACTURADA... CORRUPTA... (Deixa obra. À sua imagem, portanto.) 


"É assim que faz o empreiteiro!


Há anos. Nesta cidade.
Neste país.
Por extensão.
Betonizada.




(Mas não os culpemos, pobres coitados, porque há países com máquinas bélico-político-económicas que levam isto ao extremo: destroem para construir. E claro, fazem-se pagar. Aí está o ganho, embora não o único, maior do processo.)


E VOCÊ: PARTILHA?

terça-feira, junho 19, 2012

B R A G A (pelos Mão Morta)






As capas das quatro compilações À Sombra de Deus (editadas, por ordem, em 1989, 1994, 2004 e, recentemente, em 2012) 




O seguinte texto, que muito apropriado cabe, foi originalmente publicado no blogue amigo TrompaAqui:



B - BRAGAS: É uma velha palavra, ainda comummente usada no ramo galego do galaico-português e no castelhano, sinónima de cuecas. É equivalente à palavra francesa “culotte”, que originou a expressão “sans culottes” (sem cuecas) para designar aqueles que nada tinham e cujo ímpeto revolucionário foi essencial ao desfecho vitorioso da Revolução Francesa; já as nossas bragas originaram o termo desbragado, isto é sem cuecas, para designar aquele que é guiado pelo ímpeto desenfreado dos sentidos. A ironia do acaso fez com que Braga (termo que remonta à expressão “galli braccate” (celtas bragados, isto é “de calças”) com que os romanos identificavam o povo da região, génese do nome Bracara Augusta com que baptizariam a cidade, de que Braga é deriva directa) viesse a ser a urbe onde o poder eclesiástico das “Hespanhas” assentou sede, criando assim uma paridade psicológica entre a cueca e o regramento da moral e dos sentidos representado pela Igreja. Deste modo, para um bracarense, desbragado apresenta o significado adicional do acto de libertar-se de Braga, isto é da cueca mental, do espartilho comportamental que a cidade religiosa modela. Daí o nosso apego ao desbragamento, a única acção que nos liga indelevelmente à cidade de Braga e, simultaneamente, nos aparta dela…

R - ROMA: É o cognome de Braga, sobretudo porque, à semelhança da capital italiana, as suas ruas e praças estão infestadas de igrejas. Infelizmente, a escala é bem mais modesta na nossa Roma, quer na dimensão urbana quer na monumentalidade das construções. E também a luz não tem qualquer comparação, aproximando-se mais o nosso “penico do céu” do cinzentismo de uma qualquer cidade inglesa do que dos ocres e azuis fulgurantes que emprenham a cidade italiana… Mas para além da profusão de igrejas, também Roma marcou a cidade dos arcebispos, quando epicentro do império romano, ao dar-lhe o nome e ao deixar-lhe as suas mais provectas ruínas.

A - AMOR: É um anagrama de Roma e talvez a palavra mais gasta do léxico bracarense, sempre na ponta da língua de curas e demais dignitários da Santa Madre Igreja – ele é o amor a Deus, o amor de Deus, o amor ao próximo, o amor divino, etc.… Paradoxalmente, é uma das palavras mais vazias de sentido no quotidiano da cidade, marcado pela convivialidade perversa, a raiar a crueldade infantil, com que o tédio se entretém a enganar a frivolidade do custoso passar do tempo. Esse tédio contra o qual a música, para quem não migra em busca de paragens mais afáveis, constitui refúgio e antídoto eficaz.

G - GUIMARÃES: Local de vilegiatura dos Condes Portucalenses, onde nasceu e foi baptizado o seu filho Afonso, futuro fundador do Reino de Portugal. Continua a ser Espanha para os bracarenses mais empedernidos, quando têm de puxar dos galões, numa expressão da rivalidade provinciana e pacóvia que germinou com o revisionismo nacionalista do Estado Novo. É o espelho conformador com que Braga gosta de ajeitar a sua identidade, num retorno imberbe ao grau zero da existência. Já para um bracarense mais arejado é uma bela cidade, que dá prazer visitar, e onde pode colmatar a falta de oferta cultural que, hoje, asfixia a velha capital dos Suevos.

A - ANTIGA: É o melhor adjectivo para descrever a cidade, cuja existência remonta à época pré-romana. Apesar disso, os vestígios físicos da sua antiguidade são raros – desde o velho castro da Cividade, sobre o qual, cerca de 20 a.C., foi fundada a Bracara Augusta romana, que no séc. II viria a ser uma referência na Península Ibérica, até às muralhas construídas no séc. III, nada resta a não ser algumas, parcas, ruínas desenterradas. Também nada resta de visível do tempo em que foi capital da província romana da Galécia, no séc. IV, ou do reino dos Suevos, no séc. V, nem da passagem dos Godos (séc. VI e VII) ou dos Mouros (séc. VIII). A exemplo da sua Sé Catedral, erigida no séc. XI, a história de Braga é feita de sucessivos

arrasamentos e reconstruções, tradição que ainda hoje se perpetua. O resultado é que já só restam, na malha urbana, vestígios do séc. XVIII em diante. O que não impede que Braga
continue a ser uma cidade antiga…

segunda-feira, junho 18, 2012

Comparação do dia...

"Enquanto se governar do mesmo modo do que na Turquia e enquanto perdurarem na Bósnia as circunstâncias actuais, não há lugar nem para estradas nem para comunicação. Ao contrário, e por motivos muito diferentes, tanto os turcos como os cristãos estão contra qualquer nova construção ou manutenção das vias de comunicação. Hoje mesmo tive a oportunidade de o constatar claramente durante a conversa que mantive com o meu amigo, o gordo pároco de Dolac, frei Ivo. Queixei-me de como é íngreme e cheio de rodeiras o caminho entre Dolac e Travnik, dizendo-lhe que me admirava por os habitantes da povoação não fazerem nada para o arranjarem minimamente, já que são obrigados a percorrê-lo todos os dias. O frade primeiro olhou-me com ironia, como se eu fosse uma pessoa que não soubesse do que estava a falar, depois, manhoso, piscou-me um olho e disse cochichando:

- Senhor, quanto pior a estrada, menos frequentes são as visitas turcas. O que mais gostaríamos era de podermos colocar, entre nós e eles, uma montanha intransitável. E, no que a nós se refere, esforçamo-nos para percorrer qualquer caminho quando é preciso, pois estamos habituados a que sejam maus e a todo o tipo de ruindade. Na realidade, vivemos das dificuldades e, não diga a ninguém o que lhe vou dizer, mas ouça: saiba que enquanto forem os turcos a governar em Travnik, não precisamos de melhores caminhos. E, aqui entre nós, quando os turcos o arranjam, o nosso povo espera pelas chuvas ou pela neve para o esburacar e escavacar. Isso, até certo ponto, pode acabar por dissuadir os hóspedes indesejáveis.

Só quando acabou de falar, o pároco abriu de novo o olho que mantinha piscado e, orgulhoso da sua esperteza, voltou a pedir que não contasse aquilo a ninguém. É esta uma das razões por que os caminhos não prestam. Outra das razões reside nos próprios turcos. Qualquer das vias de comunicação com o mundo cristão significa para eles abrir portas à influência inimiga e à possibilidade de estas exercerem supremacia sobre a arraia, ameaçando assim o domínio turco. Além disso, senhor Daville, nós, os franceses, acabámos de engolir metade da Europa e não é de estranhar que os países que ainda não dominamos olhem com desconfiança as estradas que o nosso exército está a construir nas suas fronteiras."


"A Crónica de Travnik", Ivo Andric, Ed. Cavalo de Ferro, 2008, pp. 75-76

quarta-feira, junho 13, 2012

O fosso ou o triunfo dos conceitos vagos


Seria um estranho apelo, se não fosse uma metáfora. “Mandem para os nossos países as vossas poluições”, disse, à mesa das negociações, o representante de um país menos desenvolvido. O ano era o de 1972, quando se dividiam as nações do planeta em Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo. (in Público)

terça-feira, junho 05, 2012

O parque temático e a realidade (ou como brincar aos comboios)


A CP retoma a 30 de junho as viagens de comboio histórico na linha do Douro.

Entretanto se as gentes entre Coimbra e Lousã não estiverem disponíveis para participar nesse revival, ou simplesmente não tiverem dinheiro para o efeito, poderão eventualmente entreter-se a imaginar o (antigo) ramal ferroviário Lousã – Coimbra, quando neste ainda passavam comboios. É que o dito ramal estava a ser (supostamente) preparado/reabilitado (na realidade destruído) para receber o metro de superfície entre a Lousã e Coimbra, e após se terem gasto uns euros valentes com a obra, esta parou. Nem comboio nem... metro. Mas com algumas estações arranjadinhas, garantem-nos. E administradores bem pagos. A população protesta e exige uma resolução! (ver aqui).

sexta-feira, junho 01, 2012

Estamos no bom caminho (II)


Portugal arrisca pôr-se a caminho do Terceiro Mundo (Público)

Quem o afirma é (apenas) a presidente do Conselho de Finanças Públicas, Teodora Cardoso, acrescentando que a “política de cortes salariais aconselhada pela troika e seguida pelo Governo pode pôr Portugal” nesse caminho. Até aí chegamos nós. E não fomos certamente os únicos. Acresce que estas e outras palavras levam-nos para aquilo que Bourdin designou de “triunfo dos conceitos vagos”, referindo-se ao urbanismo neo liberal, mas que poderá ser transposto para aqui.

Conceitos vagos e palavras vazias: designações como terceiro mundo ou quarto mundo; países em vias de desenvolvimento ou países emergentes; países sub e sobre; G8 e G20; tigres Asiáticos e gatinhos assanhados; geopolítica de cabaré (que esconde uma outra, um tabuleiro onde se joga em grande). Palavra que (tudo isto) por vezes me lembra uma qualquer liga de bola. Tudo menos coisa séria. Cheira a relatórios e enviados especiais; viagens; cargos políticos e meetings. Muitos meetings. E sobretudo, parece, que se fala de coisas sem gente (seres humanos de carne e osso!) lá dentro...


3ºmundo

quinta-feira, maio 31, 2012

 A União Europeia acaba de dar um subsídio de 80 biliões de euros à indústria do gás anteriormente destinado às renováveis. Para o fazer incluiu o gás na lista das renováveis, denuncia o Guardian. 


 A DuPont/Pioneer conseguiu adquirir a African Centre for Biosafety, até agora a detentora do banco de sementes da África do Sul. GMWatch. 


 Atum capturado ao largo da Califórnia revela contaminação radioativa adquirida por ação da catástrofe nuclear de Fukushima. AP/MSNBC. 


Mais uma vez, via Ondas3 




Os três exemplos acima incitam-me a expelir a seguinte observação.


É que todas estas machadadas na rés pública (e não há melhor exemplo da rés pública que o meio ambiente, pois o conceito, no caso, é extensível a todos os seres vivos e não apenas ao Homem) têm vindo a ser dadas por actos e decisões políticas. A quase totalidade, sem escrutínio ou consulta pública (senão, nem valia a pena ir prò poleiro servir os tubarões...)

Derivam de valores e de seus supostos emblemas-representantes que escolhemos por engano (propaganda, demagogia, márquetingue, "merkeling" e outras demais ludibriações com que nos vendem peixe podre por fresco, vulgo Coelho / Coelhone por lince) ou mesmo convencidos de que do arrasamento de todos os direitos e construções morais humanas se podem erguer coisas boas...


Apesar de ter efeitos diferentes de uma guerra, atentemos que não é com guerras que estão a decepar-nos os membros. 


Nós não podemos escudar-nos na nossa fraqueza física, de recursos. Sim, de recursos, sim. Cada vez mais. Atrelados estamos ao jugo da dependência económica, bois are we. À economia de que nos querem fazer crer que estamos dependentes (NÓS NÃO TEMOS DE RESPEITAR A ECONOMIA - E MUITO MENOS OS ECONOMISTAS!! - MAS SIM DE ESTAR ENQUADRADOS NA ECOLOGIA e de rejeitar uma economia que não sirva um Homem equilibrado com o pulsar da Terra)...

Nós não podemos alegar, sequer, a posição minoritária: são uns poucos que as tomam. 
Uns poucos que NÓS TEMOS / TIVEMOS RESPONSABILIDADE - a escolhê-los, ou, como vai esta porcaria dos directórios dos partidos e esta estrutura piramidal cada vez mais titubeante e erodida, a escolher os que escolhem - de colocar, delegando, nos centros de decisão. Nas instituições que, ao darmos crédito, se consolidam e nos esmagam. 

Assim, invocam - que bons que eles são, no fundo, n'é?!...- a legalidade e o estado de Direito.
Invocariam eles o Estado de Direita?
Os fingidores apenas de desmascaram no fim da peça...



Apesar de ter efeitos diferentes de uma guerra, atentemos que de igual forma nos vão decepando os membros. Está a chegar às pontas superiores dos corpos... 

Esta guerra está a ser travada em nome da Democracia. 
Mas não está a ser feita por democratas. 
E estamos a perder.
TUDO.

Por aqui e por ali, o cerco aperta-se (mas a bomba também se vai construindo...)

Milhares de proprietários de imóveis nas margens do Douro podem perdê-los dentro de dois anos. A legislação afecta as margens de todos os cursos de água navegáveis. Não basta apresentar o registo predial e demais documentos de titularidade. Todos têm de comprovar que o edifício ou o terreno em causa está nas mãos de privados há quase 150 anos. JN

O que andaram as juntas de freguesia e câmaras municipais a fazer durante tanto ano? Das duas uma ou até mesmo as duas coisas ao mesmo tempo: a fazer vista grossa aos actos egoistas do chicoespertismo ou a promover e a apoiar muita construção junto das margens. Por isso, enormes extensões das margens do Douro, - e de tantos outros rios, para não falar de tanta ribeira -, foram privatizadas abusivamente, não deixando sequer o direito ao cidadão comum de caminhar ao longo da margem, situação que é totalmente diferente em outros países. Por exemplo, em França, na Alemanha, no Reino Unido, o cidadão pode circular à vontade pelas margens dos rios e ribeiros, havendo trilhos geralmente bem cuidados. E nos pontos em que isso não é possível, há sempre uma alternativa de prosseguir a marcha pela outra margem. 

quarta-feira, maio 30, 2012

Diz que esta se preocupa com as criancinhas em África, mas o melhor é não aparecer na Grécia tão cedo…


A directora do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, ganha 380 mil euros por ano em salário, livre de impostos. A remuneração de Lagarde está a ser criticada depois de aquela responsável ter dito, numa entrevista durante o fim-de-semana, que os gregos devem empenhar-se em ajudar o país a braços com uma grave crise, pagando os seus impostos.
(ler mais no Público)

terça-feira, maio 29, 2012

Estamos no bom caminho…


Mais de 27% das crianças portuguesas vivem em situação de carência económica. O retrato é traçado no relatório “Medir a Pobreza Infantil”, que é nesta terça-feira apresentado pela Unicef e que coloca Portugal em 25.º lugar numa lista de 29 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. (in Público)

terça-feira, maio 22, 2012

Como se chama...?

Num intervalo de um programa parvo, um intervalo longo, longo, longo, preenchido por parvoíces entre a lavagem da louça, pude ouvir, de soslaio (se os ouvidos também treslêem), pelo menos sete referências a "Vem apoiar a tua selecção".

Seja por anúncio ao jogo, seja por patrocínios comerciais à mesma selecção, seja por a associação da imagem de um banco a uma imagem idealizada dos nossos anseios de uma qualquer vitória...

(- e também houve / ouvi uma referência a "Vote na maravilha de Portugal", Tróia, no caso... (maravilha porquê?, por causa dos morcegos que lá havia nas torres? por causa do empreendimento turístico?... ah, já sei, por causa da praia, que é isso que está a votos...)

- da vitória que nunca chega,
- dos esforços monetários e com a complacência do Estado e de cada um de nós que alimenta esta porcaria de desporto
- da vitória causadora de derrotas e desinvestimentos e desatenções nos outros desportos dos quais, no minuto que lhes é concedido nos telejornais (não vamos nós começar a perceber onde é que afinal nós ganhamos competições...), vamos vendo vitórias efectivas (judo, triatlo, salto em comprimento, corta-mato, maratona, canoagem, ténis, etc., etc.)

...que não passa de entretenimento alienante, estupidificante e manipulador, fétido, corrupto e bimilionário, (onde um senhor que nós também não elegemos, Madaílossauro defende-se com o argumento de que os prémios dos jogadores já estão definidos... que mesmo que não nos revele os montantes, já sabemos serem escandalosos e criminosos para um país tão pobre... apenas compaginável com a pequenez da pocilga em que se vai mantendo a nossa cabecinha chafurdadora)...

Seja por que motivo for (e há muitos interesses económicos a mover um instrumento de poder como o é a televisão e qualquer meio de manipulação de massas, a televisão, os jornais e ...),

como é que se chama à ocorrência destas tantas menções à selecção (de futebol, claro está...) num intervalo parvo?

Chama-se propaganda.


Para manter a tão pretendida "unidade nacional", a idílica, que resiste a todas as tropelias e abusos que este governo mundial e de expulsar por casa vai cometendo em nosso nome...

Há quem use as bandeiras, as mentiras, há quem denigra e crie inimigos, há quem invente ameaças.
Nós inventamos a união parva em volta de 11 parvos a comer relva sintética.

E se aquele matraquear repetido e aviltante proviesse de um qualquer partido político, ou que contivesse conteúdo idem, logo viríamos apontar o dedo.
Mas como é de âmbito incompreensivelmente dito (se...) apolítico, nós não notamos.
Não dizemos nada.
Engolimos.
Fezes-feitos.
Enfezados, portanto.

Não pude desligar a dita, a dura, a tal que "não cede às pressões", que estava com as mãos molhadas.
Valeu-me encher-me de raiva que logo aproveitei - como sempre tento fazer - para transformar em criatividade e comunicação.
Disto.

A vozearia da treta na latrina chamada Portugal.

Verdes, amarelos e vermelhos assim em nada contribuem para a diversidade.
Cultural, biológica, política, social.
Apenas aumentam a mesmice e a esterilidade.

domingo, maio 20, 2012

Piscina coberta


Vidal, Braga (20/05/12)

Recordo-me bem. Final da década de 1990, numa conversa de final da tarde em Barcelos, um professor de geografia falava-me do absurdo de algumas construções em Braga, executadas em cima de linhas de água, ou com o recurso a desvios e verdadeiras operações cosméticas de ocultação. Anos mais tarde, não precisei de lupa para ver alguns dos efeitos produzidos, ali ao braga parque e arredores, por exemplo. Garagens inundadas, com muita ou pouca chuva, e parques de estacionamento que nunca chegaram a ser utilizados, alguns dos quais com bombas permanentes a sacarem água. Assisti em camarote presidencial ao desaparecimento de um ribeiro junto ao retail parque, bem perto da 4ª torre, a tal que prometia o paraíso, e demorou 12 anos a ser concluída. E qualquer pessoa em Braga já experienciou a rotunda da feira nova em dia de chuva. As imagens que aqui deixamos pertencem ao imenso parque de estacionamento de uma superfície comercial relativamente recente, entalada entre o braga parque e o prédio verde. A piscina, com parte funda e zona para crianças, corresponde a uma entrada para (mais um) andar inferior, neste caso fechado por razões óbvias. Imaginemos agora em conjunto esse andar inferior. Conseguem imaginar?

Vidal, Braga (20/05/12)


Construir deveria obedecer sempre ao conceito de adaptabilidade ao espaço onde sita: geologia, topografia, geografia, ecossistema, clima, construções envolventes, acessos, pessoas; associados aos materiais a utilizar e arquitectura. Acabava por ficar, de certeza, mais barato.

quarta-feira, maio 16, 2012

É um princípio: se tens olhos pára

UNESCO quer mandar parar obras da barragem do Tua:

Parar imediatamente as obras de construção da barragem de Foz Tua, solicitar uma missão conjunta de análise à situação da área de paisagem classificada do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial e remeter um relatório actualizado até ao final de Janeiro próximo.

(DAQUI)

domingo, maio 13, 2012

Dos finidores do mundo

O mundo pode não acabar em breve, mas estamos a fazer muito por isso.

O exemplo é um contra-exemplo. Dado pelo amigo do Ondas3:


A justiça chilena mandou suspender o projeto hidroelétrico Rio Cuervo, que incluia a construção de uma barragem na Patagónia chilena.


Submergimos áreas úteis e vivas (afinal de contas, que são 5 mil hectarezitos? Numa área vital e até, pasmem-se, reconhecida como Reserva da Biosfera (qual a não será?) em nome da lei e do progresso e da independência energética, cujos lucros vão para uma empresa, cujos danos de disseminam por todo o mundo (e não pode o mundo cair-lhe em cima, coitados das baratas desorientadinhas que não sabemos onde morder...) ...

...simplesmente porque cada vez somos mais e consumimos mais fazêmo-lo por nossa vontade? Alguém no-lo obriga? Em nome dos Estados, camuflados e tomados por quem quer manter o mundo dominado e a seus pés, para que o mundo não se torne imprevisível e instável... ai, que vai ser de nós, que andámos todos estes séculos de capitalismo a trabalhar para um dia perdermos tudo o que juntámos, assim, sem mais nem menos, como uma qualquer espécie de fim do mundo que se abate qual tromba de água inesperada...

Blá. Blá. Blá.

Em nome do bem-estar. Não esqueçam. Morramos hoje para amanhã vivermos melhor. Já está. Está a ser há muito tempo.

Mas está a chegar ao fim. A festa de babete.

quarta-feira, maio 09, 2012

Metáfora do dia

La Notte (1961), Michelangelo Antonioni
(imagem emprestada daqui)


"Se tais imagens parecem vazias é por o homem estar ausente delas mas sobretudo por esta ausência suspender a legibilidade da imagem à entrada em campo de uma personagem ou figura identificável e condenar o olhar do espectador a errar à superfície duma imagem que não tem outra medida senão o infinito horizontal de um espaço contínuo a perder-se de vista..."

José Moure, "Michelangelo Antonioni - Cinéaste de l'Évidement", Ed. L'Harmatan, Paris, 2001, p.95 (excerto traduzido por Edward Soja)

terça-feira, maio 08, 2012

Ousa a recusa de quem te usa

As Bolsas (atentemos na maiúscula, típica soberba das instituições. Que instituem. À revelia de quem as não elege e de quem, sobretudo, não deixa de as alimentar) de Paris e Atenas estão em forte queda.

Depois das eleições de domingo, os Mercados "recuaram".

É preciso dizê-lo. Claramente e por agora: A economia, tal como é e a propagam hoje, (ah, esqueci-me, portanto... Dizia eu, a Economia...) não gosta da (atentemos no artigo definido...) Política. (Também ela com letra grande, embora ande muito pequenina. Digo eu.)

Que tem isto a ver com Geografia (olha, e ele a dar-lhe...!)?

Aventem-lhe as hipóteses e os finos fios que a as malhas tecem.
Que somos nós.
Por aqui e por ali.
Aprisionados neste presente. Envenenado.

quarta-feira, maio 02, 2012

"Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno", por Serge Latouche

A propósito do tão propalado e sacrossanto crescimento económico, ou crescimento a que já caiu o económico, teríamos de voltar a este livro.

Ontem, 1º de Maio, dia do trabalhador, não foi um dia especialmente memorável para os "colaboradores" de um dado estabelecimento comercial espalhado pelo país, embora com sede fiscal fora dele.

Mediante a decisão / imposição / regulação dos preços nos seus burgos resulta um fácil controlo dos comportamentos de milhares de quase-mortos que pedincham por dignidade e vida. E que se riem, porque as suas preces foram ouvidas: haja caridadezinha...

Esta reacção automática massiva, como mihares de robôs, não é muito diferente dos apitos imbecis pela vitória de um clube ou de um partido, ou por qualquer outra manifestação alienante.
Aconteça ela em conjunto, em massa, ou individualmente.
(Como estarmos milhões, cada um em frente ao seu, a olhar para um ecrâ.
De televisão ou de ordenador.)

Que faz cada um de nós?
O primeiro passo para a reconversão desta economia e para a retracção dos valores que ela impôs está em fazer o contrário do que ela nos obriga (mediante controlos como o de ontem).
Reduzir o consumo.
Irá começar por alterar tudo.
Não será suficiente.
Depois urge não parar.
Mas primeiro temos de começar e forçar.

Ficam aqui algumas passagens interessantes deste pequeno e lúcido tratado.






Título: Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno
Edição Original: Petit Traité de la Décroissance Sereine (2007)
Autor: Serge Latouche
Tradução: Víctor Silva
Edição: Janero de 2011
Editora: Edições 70
ISBN: 978-972-44-1646-5
Paginação: 160 páginas

"Não podemos produzir frigoríficos, automóveis ou aviões a jacto «maiores e melhores» sem produzir também detritos «maiores e melhores». Nicholas Georgescu-Roegen "(...) a maximização do consumo baseia-se na predação e na pilhagem dos recursos naturais, à economia do cosmonauta, «para a qual a Terra se tornou um veículo espacial único, não possuindo recursos ilimitados, seja para dela os retirar, seja para nela vazar os seus poluentes»." Quem acredita que é possível o crescimento infinito num mundo finito ou é louco ou economista.
Kenneth Boulding
(p.28)


"Ao contrário doutras tradições religiosas como o budismo, a tradição cristã não favoreceu no Ocidente a relação harmoniosa entre o ser humano e o seu ambiente vivo e não vivo. O marxismo inseriu-se nesta tradição, o que levou Hans Jonas a dizer: «A humanização da natureza por Marx é um eufemismo hipócrita para designar a submissão total desta mesma natureza ao ser humano para uma exploração total com a finalidade de satisfazer as suas próprias necessidades.»"
(p.141)

"Os novos heróis do nosso tempo são os cost killers, estes gestores que as empresas multinacionais atraem a preço de ouro, oferecendo-lhes grandes quantidades de stock-options e indemnizações por rescisão. Formados geralmente nas business schools, que mais apropriadamente deveriam ser chamadas «faculdades de guerra económica», estes estrategos estão empenhados em transferir ao máximo os custos para o exterior, de modo a fazê-los recair sobre os empregados, os subcontratados, os países do Sul, os seus clientes, os Estados e os serviços públicos, as gerações futuras e sobretudo a natureza, transformada ao mesmo tempo em fornecedora de recursos e em caixote do lixo. Qualquer capitalista, qualquer financeiro, mas também qualquer homo oeconomicos (e todos o somos) tende a ser um «criminoso vulgar», mais ou menos cúmplice da banalidade económica do mal."
(pp.32-33)

"A economia transforma a abundância natural em raridade com a criação artificial da escassez e da necessidade através da apropriação da natureza e da sua mercantilização. Última ilustração do fenómeno, após a privatização da água: a apropriação do domínio vivo, em particular com os OGM. Os agricultores assim destituídos da fecundidade natural das plantas em benefício das empresas agro-alimentares. A imaginação do mercado», como diz Bernard Maris, «é incomensurável. Como se fosse um cuco, instala-se em tudo o que é gratuito. «Exclui estes e aqueles, estampilha a gratuitidade, impõe-lhe logotipos, marcas, portagens e depois revende-a.»"
(p.55)

"Finalmente, é preciso pensar em inventar uma verdadeira política monetária local. «Para manter o poder de compra dos habitantes, os fluxos monetários deveriam permanecer o mais possível na região e as decisões também deveriam ser tomadas o mais possível ao nível da região. Dêmos a palavra ao especialista (neste caso, um dos criadores do Euro): "Encorajar o desenvolvimento local ou regional ao mesmo tempo que se mantém o monopólio da moeda nacional é como tentar desintoxicar um alcoólico com gin."
(p.71)

"Segundo Yves Cochet, «uma alimentação mais económica em energia seguiria assim três orientações opostas às que hoje são correntes: seria mais local, mais sazonal e mais vegetariana». Continuará a ser «mais cara» se se continuar a fazer com que as vítimas paguem e a subsidiar os poluidores."
(p.76)

"A civilização capitalista caminha inexoravelmente para a sua derrota catastrófica; já não é necessária uma classe revolucionária para derrubar o capitalismo, porque ele cava a sua própria sepultura e a da civilização industrial no seu conjunto. É uma sorte, porque se vê bem que a luta de classes se esgotou com o triunfo do capital. (...) Neste sentido, o projecto da sociedade do decrescimento é eminentemente revolucionário. Trata-se não só de uma mudança de cultura, mas também das estruturas do Direito e das relações de produção."
(p.92)

"Se a França aplicasse a directiva europeia e produzisse 20% da sua electricidade a partir de energias renováveis, como a solar ou a eólica, isso criaria 240 000 empregos. Um documento publicado em 2005 pela Comissão Europeia mostra que cada milhão de euros investido na eficácia energética cria 12 a 16 empregos a tempo inteiro, contra 4,5 numa central nuclear e 4,1 numa central a carvão. Ou seja, custa duas vezes menos economizar um quilowatt-hora do que produzi-lo."

A satisfação das necessidades de uma arte de viver convivial para todos pode realizar-se com uma diminuição importante do tempo de trabalho obrigatório, de tal forma são importantes as "reservas", porque, durante séculos, os ganhos de produtividade foram sistematicamente transformados em crescimento do produto, e não em decrescimento do esforço."
(p.110-111)

"Nas condições actuais, o tempo liberto do trabalho não passa a ser apenas por isso liberto da economia. A maior parte do tempo livre não conduz a uma reapropriação do tempo da existência e não constitui um abandono do modelo mercantil dominante. O tempo continua a ser muitas vezes utilizado em actividades que ainda são mercantis, que não permitem ao consumidor assumir a via da auto-produção. Ele é desviado para uma via paralela. O tempo livre profissionaliza-se e industrializa-se cada vez mais. (...) Fundamentalmente, é com uma reconquista do tempo pessoal que nos confrontamos. Um tempo qualitativo. Um tempo que cultive a lentidão e a contemplação, ao ficar liberto do pensamento do produto. (...) Esta reconquista do tempo «livre» é uma condição necessária da descolonização do imaginário. Diz respeito também aos operários e aos assalariados, e não só aos quadros stressados, aos patrões acossados pela concorrência e às profissões liberaris apertadas em torno da compulsão ao crescimento. Podem passar de adversários a aliados na construção de uma sociedade do decrescimento."
(pp.119-122)

"É tão fácil «convencer» o capitalismo a limitar o crescimento como «persuadir» um ser humano a deixar de respirar, escreve Murray Bookchin. O descrescimento é forçosamente contra o capitalismo, não tanto por lhe denunciar as contradições e os limites ecológicos e sociais, mas antes de mais porque lhe põe em causa "o espírito", no sentido em que Max Weber considera "o espírito do capitalismo" como condição da sua realização. Se, em abstracto, talvez seja possível conceber uma economia ecocompatível com a continuidade do capitalismo imaterial, esta perspectiva é irrealista no que respeita às bases imaginárias da sociedade de mercado, ou seja, a desmesura e o (pseudo)domínio sem limites.

O capitalismo generalizado não pode deixar de destruir o planeta tal como destruiu a sociedade e tudo o que é colectivo."
(p.125)