Recordo-me bem. Final da década de 1990, numa conversa de final da tarde em Barcelos, um professor de geografia falava-me do absurdo de algumas construções em Braga, executadas em cima de linhas de água, ou com o recurso a desvios e verdadeiras operações cosméticas de ocultação. Anos mais tarde, não precisei de lupa para ver alguns dos efeitos produzidos, ali ao braga parque e arredores, por exemplo. Garagens inundadas, com muita ou pouca chuva, e parques de estacionamento que nunca chegaram a ser utilizados, alguns dos quais com bombas permanentes a sacarem água. Assisti em camarote presidencial ao desaparecimento de um ribeiro junto ao retail parque, bem perto da 4ª torre, a tal que prometia o paraíso, e demorou 12 anos a ser concluída. E qualquer pessoa em Braga já experienciou a rotunda da feira nova em dia de chuva. As imagens que aqui deixamos pertencem ao imenso parque de estacionamento de uma superfície comercial relativamente recente, entalada entre o braga parque e o prédio verde. A piscina, com parte funda e zona para crianças, corresponde a uma entrada para (mais um) andar inferior, neste caso fechado por razões óbvias. Imaginemos agora em conjunto esse andar inferior. Conseguem imaginar?
Vidal, Braga (20/05/12)
Construir deveria obedecer sempre ao conceito de adaptabilidade ao espaço onde sita: geologia, topografia, geografia, ecossistema, clima, construções envolventes, acessos, pessoas; associados aos materiais a utilizar e arquitectura. Acabava por ficar, de certeza, mais barato.
UNESCO quer mandar parar obras da barragem do Tua:
Parar imediatamente as obras de construção da barragem de Foz Tua, solicitar uma missão conjunta de análise à situação da área de paisagem classificada do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial e remeter um relatório actualizado até ao final de Janeiro próximo.
O mundo pode não acabar em breve, mas estamos a fazer muito por isso.
O exemplo é um contra-exemplo.
Dado pelo amigo do Ondas3:
A justiça chilena mandou suspender o projeto hidroelétrico Rio Cuervo, que incluia a construção de uma barragem na Patagónia chilena.
Submergimos áreas úteis e vivas (afinal de contas, que são 5 mil hectarezitos? Numa área vital e até, pasmem-se, reconhecida como Reserva da Biosfera (qual a não será?)
em nome da lei e do progresso e da independência energética,
cujos lucros vão para uma empresa,
cujos danos de disseminam por todo o mundo (e não pode o mundo cair-lhe em cima, coitados das baratas desorientadinhas que não sabemos onde morder...)
...
...simplesmente porque cada vez somos mais e consumimos mais
fazêmo-lo por nossa vontade?
Alguém no-lo obriga?
Em nome dos Estados, camuflados e tomados por quem quer manter o mundo dominado e a seus pés,
para que o mundo não se torne imprevisível e instável... ai, que vai ser de nós, que andámos todos estes séculos de capitalismo a trabalhar para um dia perdermos tudo o que juntámos, assim, sem mais nem menos, como uma qualquer espécie de fim do mundo que se abate qual tromba de água inesperada...
Blá. Blá. Blá.
Em nome do bem-estar.
Não esqueçam.
Morramos hoje para amanhã vivermos melhor.
Já está.
Está a ser há muito tempo.
"Se tais imagens parecem vazias é por o homem estar ausente delas mas sobretudo por esta ausência suspender a legibilidade da imagem à entrada em campo de uma personagem ou figura identificável e condenar o olhar do espectador a errar à superfície duma imagem que não tem outra medida senão o infinito horizontal de um espaço contínuo a perder-se de vista..."
José Moure, "Michelangelo Antonioni - Cinéaste de l'Évidement", Ed. L'Harmatan, Paris, 2001, p.95 (excerto traduzido por Edward Soja)
As Bolsas (atentemos na maiúscula, típica soberba das instituições. Que instituem. À revelia de quem as não elege e de quem, sobretudo, não deixa de as alimentar) de Paris e Atenas estão em forte queda.
Depois das eleições de domingo, os Mercados "recuaram".
É preciso dizê-lo. Claramente e por agora: A economia, tal como é e a propagam hoje, (ah, esqueci-me, portanto... Dizia eu, a Economia...) não gosta da (atentemos no artigo definido...) Política. (Também ela com letra grande, embora ande muito pequenina. Digo eu.)
Que tem isto a ver com Geografia (olha, e ele a dar-lhe...!)?
Aventem-lhe as hipóteses e os finos fios que a as malhas tecem.
A propósito do tão propalado e sacrossanto crescimento económico, ou crescimento a que já caiu o económico, teríamos de voltar a este livro.
Ontem, 1º de Maio, dia do trabalhador, não foi um dia especialmente memorável para os "colaboradores" de um dado estabelecimento comercial espalhado pelo país, embora com sede fiscal fora dele.
Mediante a decisão / imposição / regulação dos preços nos seus burgos resulta um fácil controlo dos comportamentos de milhares de quase-mortos que pedincham por dignidade e vida. E que se riem, porque as suas preces foram ouvidas: haja caridadezinha...
Esta reacção automática massiva, como mihares de robôs, não é muito diferente dos apitos imbecis pela vitória de um clube ou de um partido, ou por qualquer outra manifestação alienante.
Aconteça ela em conjunto, em massa, ou individualmente.
(Como estarmos milhões, cada um em frente ao seu, a olhar para um ecrâ.
De televisão ou de ordenador.)
Que faz cada um de nós?
O primeiro passo para a reconversão desta economia e para a retracção dos valores que ela impôs está em fazer o contrário do que ela nos obriga (mediante controlos como o de ontem).
Reduzir o consumo.
Irá começar por alterar tudo.
Não será suficiente.
Depois urge não parar.
Mas primeiro temos de começar e forçar.
Ficam aqui algumas passagens interessantes deste pequeno e lúcido tratado.
Título: Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno
Edição Original: Petit Traité de la Décroissance Sereine (2007)
Autor: Serge Latouche
Tradução: Víctor Silva
Edição: Janero de 2011
Editora: Edições 70
ISBN: 978-972-44-1646-5
Paginação: 160 páginas
"Não podemos produzir frigoríficos, automóveis ou aviões a jacto «maiores e melhores» sem produzir também detritos «maiores e melhores».
Nicholas Georgescu-Roegen
"(...) a maximização do consumo baseia-se na predação e na pilhagem dos recursos naturais, à economia do cosmonauta, «para a qual a Terra se tornou um veículo espacial único, não possuindo recursos ilimitados, seja para dela os retirar, seja para nela vazar os seus poluentes»." Quem acredita que é possível o crescimento infinito num mundo finito ou é louco ou economista.
Kenneth Boulding
(p.28)
"Ao contrário doutras tradições religiosas como o budismo, a tradição cristã não favoreceu no Ocidente a relação harmoniosa entre o ser humano e o seu ambiente vivo e não vivo. O marxismo inseriu-se nesta tradição, o que levou Hans Jonas a dizer: «A humanização da natureza por Marx é um eufemismo hipócrita para designar a submissão total desta mesma natureza ao ser humano para uma exploração total com a finalidade de satisfazer as suas próprias necessidades.»"
(p.141)
"Os novos heróis do nosso tempo são os cost killers, estes gestores que as empresas multinacionais atraem a preço de ouro, oferecendo-lhes grandes quantidades de stock-options e indemnizações por rescisão. Formados geralmente nas business schools, que mais apropriadamente deveriam ser chamadas «faculdades de guerra económica», estes estrategos estão empenhados em transferir ao máximo os custos para o exterior, de modo a fazê-los recair sobre os empregados, os subcontratados, os países do Sul, os seus clientes, os Estados e os serviços públicos, as gerações futuras e sobretudo a natureza, transformada ao mesmo tempo em fornecedora de recursos e em caixote do lixo. Qualquer capitalista, qualquer financeiro, mas também qualquer homo oeconomicos (e todos o somos) tende a ser um «criminoso vulgar», mais ou menos cúmplice da banalidade económica do mal."
(pp.32-33)
"A economia transforma a abundância natural em raridade com a criação artificial da escassez e da necessidade através da apropriação da natureza e da sua mercantilização. Última ilustração do fenómeno, após a privatização da água: a apropriação do domínio vivo, em particular com os OGM. Os agricultores assim destituídos da fecundidade natural das plantas em benefício das empresas agro-alimentares. A imaginação do mercado», como diz Bernard Maris, «é incomensurável. Como se fosse um cuco, instala-se em tudo o que é gratuito. «Exclui estes e aqueles, estampilha a gratuitidade, impõe-lhe logotipos, marcas, portagens e depois revende-a.»"
(p.55)
"Finalmente, é preciso pensar em inventar uma verdadeira política monetária local. «Para manter o poder de compra dos habitantes, os fluxos monetários deveriam permanecer o mais possível na região e as decisões também deveriam ser tomadas o mais possível ao nível da região. Dêmos a palavra ao especialista (neste caso, um dos criadores do Euro): "Encorajar o desenvolvimento local ou regional ao mesmo tempo que se mantém o monopólio da moeda nacional é como tentar desintoxicar um alcoólico com gin."
(p.71)
"Segundo Yves Cochet, «uma alimentação mais económica em energia seguiria assim três orientações opostas às que hoje são correntes: seria mais local, mais sazonal e mais vegetariana». Continuará a ser «mais cara» se se continuar a fazer com que as vítimas paguem e a subsidiar os poluidores."
(p.76)
"A civilização capitalista caminha inexoravelmente para a sua derrota catastrófica; já não é necessária uma classe revolucionária para derrubar o capitalismo, porque ele cava a sua própria sepultura e a da civilização industrial no seu conjunto. É uma sorte, porque se vê bem que a luta de classes se esgotou com o triunfo do capital. (...) Neste sentido, o projecto da sociedade do decrescimento é eminentemente revolucionário. Trata-se não só de uma mudança de cultura, mas também das estruturas do Direito e das relações de produção."
(p.92)
"Se a França aplicasse a directiva europeia e produzisse 20% da sua electricidade a partir de energias renováveis, como a solar ou a eólica, isso criaria 240 000 empregos. Um documento publicado em 2005 pela Comissão Europeia mostra que cada milhão de euros investido na eficácia energética cria 12 a 16 empregos a tempo inteiro, contra 4,5 numa central nuclear e 4,1 numa central a carvão. Ou seja, custa duas vezes menos economizar um quilowatt-hora do que produzi-lo."
A satisfação das necessidades de uma arte de viver convivial para todos pode realizar-se com uma diminuição importante do tempo de trabalho obrigatório, de tal forma são importantes as "reservas", porque, durante séculos, os ganhos de produtividade foram sistematicamente transformados em crescimento do produto, e não em decrescimento do esforço."
(p.110-111)
"Nas condições actuais, o tempo liberto do trabalho não passa a ser apenas por isso liberto da economia. A maior parte do tempo livre não conduz a uma reapropriação do tempo da existência e não constitui um abandono do modelo mercantil dominante. O tempo continua a ser muitas vezes utilizado em actividades que ainda são mercantis, que não permitem ao consumidor assumir a via da auto-produção. Ele é desviado para uma via paralela. O tempo livre profissionaliza-se e industrializa-se cada vez mais. (...) Fundamentalmente, é com uma reconquista do tempo pessoal que nos confrontamos. Um tempo qualitativo. Um tempo que cultive a lentidão e a contemplação, ao ficar liberto do pensamento do produto. (...) Esta reconquista do tempo «livre» é uma condição necessária da descolonização do imaginário. Diz respeito também aos operários e aos assalariados, e não só aos quadros stressados, aos patrões acossados pela concorrência e às profissões liberaris apertadas em torno da compulsão ao crescimento. Podem passar de adversários a aliados na construção de uma sociedade do decrescimento."
(pp.119-122)
"É tão fácil «convencer» o capitalismo a limitar o crescimento como «persuadir» um ser humano a deixar de respirar, escreve Murray Bookchin. O descrescimento é forçosamente contra o capitalismo, não tanto por lhe denunciar as contradições e os limites ecológicos e sociais, mas antes de mais porque lhe põe em causa "o espírito", no sentido em que Max Weber considera "o espírito do capitalismo" como condição da sua realização. Se, em abstracto, talvez seja possível conceber uma economia ecocompatível com a continuidade do capitalismo imaterial, esta perspectiva é irrealista no que respeita às bases imaginárias da sociedade de mercado, ou seja, a desmesura e o (pseudo)domínio sem limites.
O capitalismo generalizado não pode deixar de destruir o planeta tal como destruiu a sociedade e tudo o que é colectivo."
Uma habitação para o que tem dinheiro e uma habitação para o pobre, um meio de transporte para o que tem crédito e outro para o que não pode ter, uma assistência de saúde para quem pode pagar e um serviço de saúde para quem não pode, um lixo televisivo para o contribuinte e revistas de viagens para o engravatado, um ambiente suburbano para os miúdos do colégio e um ruído de fundo para a pobreza, uma alimentação para o rico e uma alimentação para o descamisado, uma formação para o desempregado e um emprego para o formador, um empréstimo para a ostentação e uma negação para a lástima, um peditório para o distribuidor de dívidas e um pagamento para o despojado, um boa educação para a gente de boas famílias e uma má educação para os malandros e desempregados que não querem trabalhar, um futuro para quem pode e um presente para quem o carrega, um seguro de vida para o investidor e uma vida insegura para o perdedor, uma corridinha para quem faz que trabalha e um descansinho para quem se cansa a trabalhar, um horário compatível com a luz do sol e um horário incomportável com viver,
milhões de sonhos destruídos em dias consumidos na labuta, a trabalhar para aquecer para enriquecer outros filhos, a perder tempo a dispender energias sem vencimento, a ver o poder de compra a perder-se e a perder-se tanta luta em energia desperdiçada em gente amarrada às dívidas da casa, da luz, do gás, do méu que não é teu, do carro que te come e se ficares doente ainda vais parar ao hospital e levas uma multa chamada taxa moderadora que tens de pagar, para moderar a fala e o juizinho, que o juizinho é muito lindo e é por ele que consegues ser alguém... tanta força mal empregada, tantos braços a produzir nada, tanta raiva mal direccionada, tantos assaltos às pessoas erradas, tanto dinheiro gasto em dependências, medicações e demências, investida tanta cheta em futebóis e conversas da treta, tantos assassínios através da fome perpetrados por quem mais come...
e enquanto nos acenam com a escola pedimos um emprego-esmola, aceitamos o que nos dão e vamos comer-lhes à mão, honramos as hierarquias e mais as suas tias, procuramos alcançar o poder nem que tenhamos de nos vender
país de carneirada a quem não sobra nada senão a granada lançada pra lá da barricada.
O muro dos outros somos nós que o fazemos pois se o poder que não temos o perdemos importa a pedra que escolhemos.
Eles Comem Tudo,
por Chullage
"E a finança enche a pança
com o aval da liderança,
despedimentos em vez de aumentos,
são os rumos da mudança,
especuladores, ladrões de ofícios,
grandes salários e benefícios,
bebem o fruto do nosso suor
e depois pedem-nos sacrifícios,
apoderam-se da gerência,
levam empresas à falência,
saem com bónus de milhões
e despedem sem clemência,
e o salário mingúa
pra que o lucro não diminua,
justificam-se com a crise
e os bancos põem-nos na rua,
saem do público prò privado
depois do futuro adjudicado,
vendem serviços a eles próprios
pilhando os cofres do Estado,
combatem o défice na nossa mesa
mas vivem à grande e à francesa,
congelam salários e subsídios
que é pra cortar a despesa
fazem-nos retenção na fonte
enquanto empresas põem-se a monte
no paraíso fiscal pra lá do nosso horizonte,
impõem um empréstimo em troca de soberania
enriquecem com os juros e sufocam a democracia.
Cortam na educação,
exigem mais avaliação,
abandonam o ensino público,
mas os seus filhos lá não estão
Saúde também leva pancada,
comparticipação cortada,
morremos na fila de espera,
eles estão na clínica privada,
falam de paz e democracia,
em igualdade, cidadania
e dão-nos o direito de escolha
prò próximo rosto da tirania
entram tanques e aviões,
chamam paz a ocupações,
deixam rasto de sangue
na riqueza das nações,
trazem servos e minérios
deixam escombros e cemitérios,
enriquecem a reconstruir
os seus velhos impérios
prò mundo levam do Ocidente
os seus restos e excedentes
em nome da ajuda humanitária
destroem a economia da gente
e entram máquinas adentro
expulsam-nos dos nossos alojamentos
(...) empresas de cimento
e fazem grandes empreendimentos
dos seus condomínios fechados
com seguranças e empregados
afastados da miséria
e ódios por eles criados.
Vêm com o grande capital
e abrem o centro comercial
catedral do consumo
e matam o comércio local,
nas terras dos outros enchem carteiras
fazem turismo com peneiras,
refugiam-se na fortaleza
e fecham as suas fronteiras
fazem crescer economias
parasitando minorias,
os últimos a quem reconhecem
liberdades e garantias,
cruzadas evangelistas
holocaustos sionistas
vão conquistando mundo
na caça aos fundamentalistas,
pregam a fé dos belicistas,
queixam-se de guerrilhas e bombistas
pela contagem das vítimas
mas eles é que são os terroristas
impunes a roubar milhões
prendem os pequenos ladrões
que neste país pilhado
digladiam-se por uns tostões,
depõem o inimigo eleito
e põem o amigo do peito
a manejar as marionetas
do colonialismo refeito,
aumentam o orçamento
prà guerra e o policiamento
pra conter o descontentamento
esse é o crime violento
pra se proteger da multidão
que só quer pão e habitação
eles comem tudo que há pra comer
e deixam-nos a estender a mão."
A luta de classes, que, sim, existem, com nomes variáveis, terá sido o motivo por que deixámos o capitalismo chegar a este ponto? E agora, que continua a haver classes, mas já muito pouca luta, será que o sistema vai cair?
Dêmos-lhe uma ajudinha, coitadinho. Coitadinhos de nós.
"Dos currículos de 115 governantes e ex-governantes dos últimos 30 anos (PS, PSD, CDS), resulta um mapa das ligações que tecem entre grupos económicos onde ocupam ou ocuparam funções dirigentes." Ler mais aqui.
"Donos de Portugal é um documentário de Jorge Costa sobre cem anos de poder económico. O filme retrata a proteção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza.
Mello, Champalimaud, Espírito Santo – as fortunas cruzam-se pelo casamento e integram-se na finança. Ameaçado pelo fim da ditadura, o seu poder reconstitui-se sob a democracia, a partir das privatizações e da promiscuidade com o poder político. Novos grupos económicos – Amorim, Sonae, Jerónimo Martins - afirmam-se sobre a mesma base.
No momento em que a crise desvenda todos os limites do modelo de desenvolvimento económico português, este filme apresenta os protagonistas e as grandes opções que nos trouxeram até aqui.
Produzido para a RTP 2 no âmbito do Instituto de História Contemporânea, o filme tem montagem de Edgar Feldman e locução de Fernando Alves."
Não sabemos se o filme (documentário) estará disponível online. Passou no dia 20-04-12 na RTP2, não sendo a primeira vez, e até se fala por aí. Não existe uma fórmula, mas a perversidade de um mundo supostamente moderno, repercute-se até nas áreas mais recônditas. Aqui estamos perante um povo nómada dos Himalaias, cada vez mais constrangido na sua vivência tradicional. Tudo aquilo que fazemos tem consequências; chamem-lhe o global versus local ou glocal, ou outra coisa qualquer. Neste particular, as profundas alterações climáticas, o apelo do mundo moderno, acabam por repercutir violentamente na vida destas pessoas, limitando-as nas suas possibilidades de escolha, obrigando-as muitas vezes a partir sem qualquer preparo para as cidades, a reagir a estímulos estranhos, a metamorfoses de vida e do corpo. É como assistir de camarote à destruição da sua própria cultura. Sonam tem um sonho durante a noite e pela manhã diz ao filho para trazer o cavalo. Parte em busca de respostas, na terra dos seus antepassados. E mais não dizemos.
A destruição sai cara, sim. Mas temos de pensar sempre: A QUEM sai cara?
O motor é o consumo, e na descoincidência geográfica e económica (a mais antiga variante da injustiça) entre os pagadores e os compradores, a produção oculta a destruição que a implica.
Uns são os reis (a Coroa), outros a cara.
Da moeda que gira...
Que gira.
Atentem: que GIRA...
É sobre isto que importa reflectir.
As coisas que nos escapam ao entendimento, talvez apenas careçam de um pouco de detenção, de um pouco de análise. De ver o outro lado.
Apenas de irmos por aí fora, sempre um pouco mais longe, de pergunta em pergunta, pelo rio das coisas acima.
Se a cabeça é redonda para as ideias circularem,
se o mundo é redondo para poder girar (a verdade talvez seja é que por ser obrigado a girar se foi tornando redondo o planeta), as coisas que cá estão, muito lavoisieranamente, andam de um lado pra o outro, a circular, transformando-se.
De onde vêm?
Para onde vão?
Como?
O que implicam essa viagem?, essa transformação?,
E depois, que acontece?
Onde se fecha o ciclo?
É um ciclo?
O que é um ciclo? - Um percurso fechado, que se conclui e - aqui é que está - que pode voltar a começar.
(Daí sempre o eterno retorno da questão da sustentabilidade)
Quantas fases do ciclo passam por nós?
De quantas fases não estamos conscientes?
Mas...
em quantas podemos intervir? e... INTERVIMOS, de facto,?
Aqui há uns anos, talvez mais de 15 anos, o Boaventura escrevia, na Visão, um texto genial.
Não se tratava de um mero jogo de palavras.
Mas o mais importante que ressaltava (não sei onde pára esse texto) era que "nos falta a consciência da consciência que nos falta".
A noção de que há coisas que nos escapam. Tal como o "só sei que nada sei" socrático.
Ou seja, o primeiro passo e o estímulo inicial para irmos mais além no saber. No querer saber.
Porque, com a imaginação atrofiada pela mesquinhez apontada à cabeça, não vemos para além do que nos está à frente. E por todo o lado nos estimulam a que não pensemos, retirando-nos os materiais de que precisamos para pensar e ver o que não vemos, que não temos ali, agora, no imediato, e está longe, bem lá longe, onde não podemos pôr a manápula.
Vêde o vídeo.
O vídeo volta, a moeda gira, o mundo roda, as chapadas voltam a bater naquela porta.
Que o mundo é o mesmo e único.
E o preço, caro, que volta à cara, vem ampliado.
Pois não é verdade que a nossa maior fraqueza é a nossa maior força infligida contra nós?
Estes são os estímulos que temos injectado no sistema e o feiticeiro está tão-somente a ficar sem mais ninguém a quem pedir contas.
Olhem, eu sou um chato e o palavreado que brota, querendo encher-vos a taça, só vo-la esvazia.
(Ah! esta é do Nietzsche..)
Vêde o vídeo.
(Há quem lhe chame coltan... coltan... mas o que é isso? Eu sempre ouvi falar em "cobalto", que é isso o que é.
Dantes era Bombaím, depois passou, não sei por que carga de água transnacionalista ou anglo-saxofonista, a ser chamada Mumbai...
Estão a brincar connosco. Porque quer as palavras, quer o silêncio, não há neutralidade possível. Se houver dois seres comunicantes...)
"E as pessoas perguntarão: «Quem será esse senhor de grandes óculos e colete apertado, com aspecto de estrangeiro, tomando notas num caderninho? Que escreverá ele? Do que menos suspeitam, certamente, é que faço contas aos custos da expedição. Aliás, observam que tomamos notas sem imaginar para contar o que vemos, e não o contamos por o termos visto. Viajar por prazer? Não, não se viaja por prazer. Viaja-se para dizer que se esteve aqui ou ali, ou para fugir do sítio em que está; o monomaníaco das viagens é-o por topofobia, foge de todos os lados. Viajar não é natural. As crianças não passeiam indo a um lugar determinado, mas brincam correndo em volta de um ponto. Obrigá-los a percorrer uma légua cansa-os mais do que deixá-los correr três léguas num jardim. E os adultos precisam da caça - aqui, do atavismo - para percorrer os campos."
Miguel de Unamuno, Espinho, Agosto de 1908 in "Por Terras de Portugal e Espanha", p. 55 (Ed. Nova Vega, 2009)
"Mal conseguiam alojamento num sítio, continua Nossack, os fugitivos partiam de novo, para seguir viagem ou tentar regressar a Hamburgo, «ou para salvar qualquer coisa ou para a busca persistente dos familiares», ou pela negra razão que compele um assassino a voltar ao local do crime. Fosse pelo que fosse, todos os dias se movimentava uma multidão incontável de gente. [Heinrich] Böll viria a sugerir mais tarde que estas experiências de desenraizamento colectivo estão na origem do gosto pelas viagens da República Federal, esse sentimento de não ser capaz de permanecer num sítio, de estar sempre a querer mudar."
W. G. Sebald, 2003, in "História Natural da Destruição", pp.37-38 (Ed. Teorema, 2006)
Se assim for, o crescente fluxo de pessoas devido à economia (em negócios de trabalho ou naquele outro de sobrevivência...), está a ser um reflexo do abandono de nós próprios e das nossas razões de ser.
Será que vamos suportar conviver com quem tem cada vez menos a perder?
"Os responsáveis pelo plano de regeneração urbana de Braga esperam que as obras em curso na cidade sejam decisivas para uma promoção que recupere, no contexto cultural europeu, a primazia da ‘Cidade dos Arcebispos’ sobre Santiago de Compostela. O vice-presidente da Câmara de Braga, Vítor Sousa, que superintende o plano de regeneração urbana, sublinha que “Braga tem de fazer valer na Europa e no resto do Mundo a posição de destaque que lhe cabe na cultura europeia”. "
Bem, há dois anos, a propósito do Xacobeu, tiveram o Jean-Michel Jarre, que encheu de milhares a Praza do Obradoiro.
Será que está na calha... o Vangelis em Braga?
Não, deixemo-nos de piadas culturais. O melhor será mesmo criar uma praça onde as pessoas gostem de estar.
Olhem, ali a uns 19 quilómetros têm pelo menos duas... como é que eles conseguem? E não, não é por causa de estarem a ser capital europeia da cultura.
Andamos intrigados? As pessoas perguntam-se porquê. Mas não é só a configuração da malha urbana, não. Se repararmos bem, perceberemos diferenças de mentalidade. E como cremos não ser deterministas, nem ratzelianos, mas mais delablachianos, analisemos como isso pode mexer com muita coisa.
Pois não é verdade que em matéria de questões humanas, as obras destes não são feitas se não houver vontades? (atentem no plural).
Em relação à dita regeneração urbana de Braga, esperai que em breve cá viremos deitar as nossas limalhas arranhadoras de joelhos dos crentes que até vão a Fátima todos os dias mas têm que levar com obras que não entendem lá muito bem e quem paga é o mexilhão...
Adriano, que guiavas o leme dourado, longe da cidade das cobras que trepam o arvoredo onde a fome escondida e o lixo não condizem com os engravatados de secretária e pilim.
Guitarra agrilhoada rompida pela amargura pela raiva e a ternura em luta contra a distância, a emigração, a exploração do homem feito lobo, afastadora dos iguais e o enfraquecimento.
Cantador do medo, da secura, da procura, da paixão, o roubo, a pobreza dos corpos e almas... porque por toda a parte vias tudo em corrupção sobre a terra a esterilizar-se.
Altaïr, 10.04.2012
Acaba de sair o livro da autoria de Mário Correia "Adriano - Trovador da Liberdade", apresentado ontem, dia 9, no Porto.
70 anos de contra-tendência deste tempo e desta terra cada vez mais pequenina e mirradinha...
Saibam mais aqui, aqui e aqui e por mais cantos de quem o quiser continuar a cantar...
Estão a ver como são os turistas os evacuados e não a Serra da Estrela? Lembram-se daquele episódio do Pesadelo em Elm Street em que o Freddie dá um beijo a uma moça e lhe suga tudo? Pois bem, evacuar é isso: criar vácuo. Evacuar turistas deve querer dizer que são feitos de dinheiro e, uma vez faltados este, não há turistas. O que até bate certo: menos turistas na Serra da Estrela, para gáudio da natureza, que bem farta deve andar destes turistas e deste turismo...
Como se denunciam... E parece que nem nos damos conta.
Notícias (o que é uma notícia?, com que valores e critérios?, como apresentá-la e transmiti-la?) dadas pela érre tê pê, que rezam assim:
1) "Serra da Estrela foi o destino menos procurado pelos portugueses nas mini-férias da Páscoa."
São as mini-férias associadas a um mini-salário associado a mini-gente.
"Ficámos tristes por não ver a neve" (diz uma turista que lá foi; a falta de neve, diz a tal cadeia de transmissão, foi um dos principais chamarizes que, pela ausência, não atraiu as pessoas...)
Água em forma sólida e a cobrir pedras toda a gente entende: é linguagem universal para olhos cansados. A serra parece que nem lá está, que fugiu e que leva com ela a paisagem, a solidão, o espaço, a abertura, o ar e o som... Porque... do que nós ficamos tristes é de não haver neve.
Olha, macambúzios ficam também os monopolistas da Turistrela, que vêem os seus bolsos serem menos enchidos...
Por falar em enchidos...
"Mesmo assim, as pessoas procuram o melhor da região" e é neste momento que a câmara capta um talho ou um local de tráfico a dar a provar uma lasquinha de presunto e uma turista a dizer umas banalidades com que nos saciamos. Como é costumeiro, aliás.
2) O Allgarve atraiu também menos turistas nestas mini-rentabilizações-do-corpo-para-ele-trabalhar-mais-e-mais-esquecido-quando-voltar-ao-lar-da-exploração.
Etc, etc... uma focagem muito limitada de um ou outro leitor na areia, talvez um miúdo a lamber um gelado de gelo e corante, um barquinho com nome engraçado para dar cor à imagem cá pra casa... blá, blá...
E desta forma, alarmados, mandam logo fazer publicidades em forma de notícia, para avisar "Ai, dinheiro (deus) nos livre desta catástrofe (redução de clientes), trazei nosso instrumento de poder (a televisão, jornais, etc...veneno alheio e que vai atacar longe) mais porcos e ovelhas (consumidores) à nossa terra (a mais linda e quente de Poortugal).
Se acontece algo de errado, eles logo no-lo fazem saber. Que é para corrigirmos o erro, ok?
- Não há dinheiro... - diz o portuga mais empedernido.
- As coisas não são assim tão lineares...- de chofre lhe respondem os israelitas do lado de lá do muro das lamentações...
Coisas curiosas do mundo em que os poderosos nos vão esganando e envolvendo a termos culpas no cartório e nos sentirmos inibidos a fazermos as coisas que temos a fazer....
A Monsanto vai processar o estado de Vermont por este ter iniciado um processo que poderá levar à aprovação de legislação que vai impor a rotulagem nos alimentos transgénicos. Activist Post.
A Polónia vai proibir o cultivo de milho transgénico da Monsanto. AFP/France24.
3 mil golfinhos foram morrer às praias da costa norte do Perú este ano. As intensas ondas de choque produzidas pela exploração petrolífera na zona poderão ter sido a causa de enormes danos internos nos golfinhos, sugere Carlos Llanos, diretor da equipa de socorromarítimo. Discovery.
O aviário da Avipronto em Benavente foi multado em 38 mil e 500 euros por não ter licença ambiental. O Mirante.
O que fazem as gigantes da água engarrafada quando as pessoas se viram para a água da torneira? Lóbi, pois claro. The Ecologist.
CP à rasca compra carros de luxo para gestores, denuncia o CM.
Mais de mil apicultores despejaram abelhas mortas à porta do ministério da agricultura em Varsóvia, protestando contra os cultivos transgénicos responsáveis pela morte massiva de abelhas. Digital Journal.
A Europa é quem mais pesca ao largo do Senegal. Reportagem do Guardian, a bordo do Arctic Sunrise, apanha barco holandês, registado no Reino Unido, pescando com apoios dos contribuintes britânicos. Quem fica a arder são os pescadores e os consumidores africanos. Há quem preveja que a situação possa evoluir para uma semelhante à da Somália.
A Coreia do Sul impediu a entrada de três membros da Greenpeace que pretendiam fazer uma campanha contra os projetos de expansão nuclear em carteira. [Coreia do Sul, essa ditadura execrável...]
Sabe qual é uma das consequências de 80% da população de uma cidade utilizar a bicicleta para se deslocar para o trabalho? Copenhagen poupa 357 milhões de dólares por ano em custos de saúde, revela um relatório bianual.
O governo de David Cameron vai reduzir de 50% para 45% o imposto sobre os rendimentos mais elevados. Público.
Totoral, uma localidade agrícola da Atacama, no norte do Chile, está contra a construção de uma central termoelétrica junto de uma zona de notável biodiversidade marinha. IPS.
(Pois é, a história é contada pelos vencedores...)
Faz hoje 20 anos que faleceu o Tenente-Coronel Salgueiro Maia.
Para recordar esta efeméride, deixo-vos este pequeno excerto:
"Madrugada de 25 de abril de 74, parada da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém:
Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!
Todos os 240 homens que ouviram estas palavras, ditas da forma serena mas firme, tão característica de Salgueiro Maia, formaram de imediato à sua frente. Depois seguiram para Lisboa e marcharam sobre a ditadura."
Mais vale ser um cão raivoso do que um carneiro a dizer que sim ao pastor o dia inteiro e a dar-lhe de lã e da carne e da vida e do traseiro...
O cão raivoso é um animal domesticado, ao serviço de quem o domestica. Tem de ser condicionado, ensinado, para a boa prática produtiva ou securitária.
Andam com eles os polícias e os ladrões, os terratenentes e os banqueiros, os mafiosos e os simples compradores de acções de Estado.
O cão raivoso dos tempos vivos em que a força estava na rua e nas mãos das gentes está agora na posse dos ricos, para que ele lhes proteja as suas propriedades. Mesmo que em condomínio fechado, com altos muros e sebes, com um belo jardim de relva que eles não cuidam mas mandam cuidar, que o jardineiro - coitado, tem de ganhar a vida, é esse o pão do seu sustento... - precisa de dar de comer aos seus dependentes.
Por onde vamos passando, cada vez mais distanciados do que nos diz respeito, que foi tomado por um qualquer decreto de que não ouvimos falar, mas que foi votado, foi votado, e aprovado e tu é que não quiseste saber, estavas preocupado com a tua vidinha de tanto labor e suor e as tuas complicações do dia-a-dia amesquinhado pela trampa que vais tendo de comer para ires sobrevivendo a outro tipo de... vida.
Por onde vamos passando, estes círculos se fecham cada vez mais, por aqui e por ali, nas encostas e nos sítos salubres, a salvo dos selvagens que tudo sujam na sua pobreza e pouca vontade empreendedora, que se te aplicares e investires verás que serás bem sucedido, o que é preciso é arriscares, no pain, no game, ou em Portchuguize, arrisca e petisca, que os bancos ficam e decidem o que fazem com o que vão avaliar da tua proposta de criação da tua empresa, a economia é mesmo assim, a livre iniciativa, apanágio dos accionistas que produzem o dinheiro a partir do nada e têm para to dar e iludir acenando-o bem à frente dos teus olhos mirradinhos visando, como eles, o lucro de que serás despojado assim tenham oportunidade de criar a próxima crise e alegarem o motivo da tua miséria e a sua enfim tão esperada acumulação...
E por cada fronteira, encercam-se uns e outros. Uns do lado de dentro, outros do lado de fora. Sem uns deles saberem como se viram arredados do acesso ao outro lado.
Lado de fora, lado de dentro. Qual deles, onde está, onde estás tu, que és livre e cidadão multinacional, anfiteatro do mundo e cloaca dos ricos, globetroter da palhaçada e da engrenagem maquinal produtora de cidadãos bem informados e megalómanos que apenas querem crescer e ver e viver e entender e comer e procriar e poder defecar no terceiro mundo que nasce dentro de ti, parvo podre que te estás a matar e tu não vês!
Vira o céu, muda a dança, tu pensas mas não existes, saltam pulgas na balança dos tristes que vasculham no lixo - e nós com isso! - a caravana que tu és fica, cosmopolita, encostada a um canto da estrada com um letreiro a dizer "Vendo-me ao que me der um trabalho", quando o que tu queres é o dinheiro, dinheirinho, porreirinho da "pró-víncia", seu adamastor adormecido e vencido que vais atrás do que te mandam, que te fazem à sua imagem e semelhança, os deuses caseiros e internacionais que tu não vês, não sabes ver e não queres entender nos pequenos e, dizes, insignificantes actos que vais realizando na tua pequenez dos dias sempre iguais.
Se tudo o que fazes vai sempre ter ao mesmo, seja lá por onde for, tens de fazer diferente, ver diferente, entender diferente, mudar de posição, pôr-te em cima da mesa para veres a careca dos padrecas que te dão paulada com a subserviência do registo civil, bancário e horário, da conformação e da legitimação das regras sociais, instituídas por pessoas que não foram elegidas mas que bem mereciam cair da cadeira abaixo, dizemos mais, bater com a cabeça na parede para verem se não dói, ah! pois que pensas?, a mim também quantos meses saem do meu ventre para a pança dos burgueses?, que tenho o meu cabedal a dar a dar e as costas a lamentarem-se todos os dias, mas lá tenho de ir dar com os miolos no chão de tanto olhar por baixo, de baixo e para baixo. Tá quietinho ou lavas o focinho, que o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito.
Com o teu respeito, és o polícia do dinheiro, o operário da opressão, por isso tu és o cão a ver as caravanas sempre a passar e tu a ficar a ver a tua vida em pantanas, preso a um pau, e é um pau!...
Perde-se a geografia no meio de tudo isto quando os elementos de análise se tornam indistintos e perde-se a análise de todos os elementos quando deixamos de analisar a civitas em degenerescência, excrescência, maledicência, impotência sexual, anal, divinal, imperial, seu cão com pedigree que te põe pisar a porcaria que o teu patrão diz pagar-te ao fim de cada período laboral...
Se tudo o que fazes é ladrar o dia inteiro à espera que chegue o teu dono para ele te dar de comer... olha, quando ele chegar...
Livraria Sá da Costa, pouco depois do início da marcha. Um dos supostos indivíduos que rebentaram petardos é detido subitamente por agentes da PSP e arrastado para trás de um cordão policial. As pessoas que estavam próximas e contestaram este facto foram de imediato agredidas à bastonada.
Era aqui que me encontrava e saquei imediatamente da máquina fotográfica para fotografar os incidentes. Os manifestantes, incrédulos com tal agressão aproximaram-se novamente da polícia, reclamando, obviamente, por terem sido agredidos, o que levou um dos agentes a usar spray pimenta e a recorrer outra vez às bastonadas. Visto que não havia qualquer diálogo possível, alguns dos manifestantes que assistiam atiraram chávenas e um par de cadeiras aos agentes que agrediam.
Eu encontrava-me a metros da livraria a fotografar estes incidentes quando subitamente sou surpreendido pela presença do corpo policial, que obviamente aguardava numa rua paralela para entrar, e que meros segundos após se posicionar de modo a fechar a rua começou imediatamente a distribuir bastonadas de forma aleatória e indiscriminada. Imediatamente abrem-me a cabeça à bastonada (tive de levar pontos no hospital) sem que nada tivesse feito para o incitar, logo de seguida levo com outra bastonada na mão que segurava a máquina fotográfica (e que conseguiram partir), num acto claramente dirigido.
Enquanto isto, os mesmos polícias começam a bater-me nas costas e consigo reparar que o mesmo acontece às pessoas em meu redor, as quais tendo sido apanhadas de surpresa são espancadas já no chão. Apenas saí desta situação porque uma rapariga estrangeira me puxou e arrastou-me dali para fora, até à entrada do metro. Foi neste momento que percebi a extensão dos danos e do que me tinha acontecido, mas logo segundos a seguir houve uma segunda carga e toda a gente começou a fugir para o Largo Camões e de seguida para São Bento.
Pretendo apresentar queixa contra o sucedido, o que não serve de muito, pois segundo informação de advogados o Corpo de Intervenção quando está em "missão" não pode ser feito responsável. O que me tem preocupado é como provar que as incitações à violência não vieram de mim ou de qualquer outro manifestante mas sim de uma acção concertada ou simplesmente descontrolada da polícia. Houve até polícias que se recusaram a chamar ambulâncias quando lhes foi pedido.
Quando o corpo já não reage contra a doença é porque está quase morto.
(médico das almas)
(___________) "para entorpecer ainda mais profundamente o sonhador."
(Arthur Schopenhauer)
"A corrupção é a tua ténia, pá!"
(cidadão exemplar que prefere a ARTv aos programas "iguais" dos três canais...)
"Y el hombre que inventó la caridad, inventó al pobre y le dio el pan."
(Víctor Manuel)
"É preciso libertar-nos dos libertadores"
Mas só depois.
(La Boétie, adap.)
Criemos, recriemos, imitemos e difundamos, inspiremo-nos, manifestemo-nos, não calemos as diversas e ricas formas de expressão de que ainda vamos sendo dotados, pássaros de asas fechadas...
A podridão vigente a proliferar é um bolor, antecâmara de formas de vida mais complexas. (Qualquer biólogo sabe disto).
Ou então, como já vimos mesmo, aqueloutra que nos reza assim: