segunda-feira, setembro 19, 2011

"Ups, não devíamos ter dito isso..."

Foto extraída daqui


O Ministério da Administração Interna será o único que não sofrerá cortes orçamentais.

..."Porque queremos fazer face à onda de descontentamento que pode surgir no país."


As palavras não foram estas. Foram outras, mas no mesmo sentido.
Bem que andámos à procura deste descuido, mas um qualquer buraco do esquecimento milnovecentoseoitentaequatriano já tratou do assunto.

Mas vimos registá-lo aqui. Porque, por nós, não vamos apagá-lo.


Com que então, este é um Estado que adora a repressãozinha policial, não é?


É mais fácil dar-nos com o bastão do que dar-nos justiça.
É mais fácil pôr muitos a pagar o que alguns roubaram.
(Coitados, é a sua natureza...)
É mais fácil votarmos sempre nos mesmos.
É mais fácil apontar o dedo aos políticos.

O mais fácil, quando nos falam em política, é pensarmos na política partidária.

Mas a política não é esta esterqueira que se vai infiltrando em nós, seus veiculadores e propaladores.

Fazer Política é fazer escolhas.

Todos agimos por interesses.
Não venham cá com legítimos ou ilegítimos. Nem inquinem a discussão com o "Todos temos culpas no cartório, não foi isso que te ensinaram?".

Temos - em qualquer dos casos, SEMPRE - é de saber QUAIS são esses interesses.
QUEM é que eles beneficiam.
E aí teremos as respostas ao PORQUÊ das escolhas que são feitas.


Entre o dinheiro e as pessoas, há pessoas que escolhem o dinheiro.
Entre salvar a economia e a democracia, há quem prefira salvar a economia. Como esse sanguinário à solta que acaba de lançar um livro sobre a China.



Em nome dos do futuro matam os do presente.

Se nos estão a esfomear

- com desemprego, dívidas, empobrecimento, precarização da vida, pauperização da alimentação, da saúde, aniquilação da justiça...
(THE LAW IS AN ANAGRAM OF WEALTH, não é o que dizes, Anne Clark?) -

não pode ser em nosso nome que fazem isto.

Contradição gritante.
Mas tenhamos calma, porque a polícia estará para repor a lógica e te deixar bem caladinho.
Amen, banqueiros, seus representantes e seus braços armados à civil e à pistola.
Em nome do Estado, dentro e fora dele...

Porque nunca pararão.
Já não há pobres com dinheiro. Vamos por aí acima.
A solução é empobrecermos todos.
Ahah, quantos pobres são precisos para produzir um rico?... meu bom ingénuo Garrett...


"Quanto menos souberes a quantas andas, melhor pra ti.
Não te chega prò bife? Antes no talho que na farmácia.
Não te chega prà farmácia?? Antes na farmácia que no tribunal.
Não te chega prò tribunal??? Antes a multa que a morte!
Não te chega prò cangalheiro??? Antes prà cova do que não sei quem que há-de vir! CABRÕES DE VINDOUROS. Sempre a merda do futuro, a merda do futuro... e EU?? (...)


Para que não haja dúvidas -

e advogando a DESTRUIÇÃO COMPLETA
de uma Economia
de um Estado
de um Partido
de uma Política,
que não sirva as pessoas
mas apenas uma minoria, -

nós preferimos salvar as pessoas.

Representação etnográfico-musical de Portugal

"Miradouro", de Júlio Pereira
Editado originalmente em Lp em 1987
Reeditado em Cd pela CNM em 1994 (cuja capa aqui reproduzimos)

A capa deste notável disco de música popular portuguesa (aqui só vemos um sexto dela...) contém um mapa etno-musical que compila e representa as tradições das mulheres e homens de Portugal (continental...).

São actividades de carácter lúdico enraizadas na vida, no trabalho e na terra. Com a transformação das paisagens, das apropriações que vamos fazendo do espaço e com as consequentes mudanças no uso do solo, as relações que o homem estabelece com o meio altera-se também. Certas funções, certos hábitos e costumes alteram-se, perdem-se, surgem outros...
Enquanto houver vida, assim foi, é e será.

Júlio Pereira e o Instituto Camões passaram esta representação para o ecrã virtual e, com os meios à disposição, enriqueceram as nossas possibilidades de conhecer melhor o país. Incluindo ilhas. Assim é que é.

Com breves descrições, explicações e exemplos das sonoridades praticadas nas distintas regiões (as diferenças etnológicas "in-formam" / "enformam" / contribuem para - a distinção mesma das regiões...), este mapa pode ser consultado aqui:



Na representação de qualquer mapa, uma das problemáticas por que começar é aquilo que vamos representar (o objecto) e, claro está, como vamos fazê-lo. É que divisões (uma di-visão é sempre uma hierarquização, mesmo que não vertical; é sempre uma parcelização, uma visão parcial. No fundo, é uma questão ontológica do raciocínio, incontornável (?): para apreendermos o grande, amiúde o dividimos e decompomos) há muitas.
Mas há que adoptar uma, explicá-la, e com base nisso, seguir em frente. Sabendo que ela (a forma) terá, necessariamente, implicações na apreensão do conteúdo (o objecto de conhecimento).

Assim no-lo dizem:

"O critério de divisão geográfica por já desusadas províncias, ainda que discutível (como tudo…), pareceu-nos o mais adequado e eficaz, atendendo às particularidades geográficas e sociais de cada região e à permanência dos seus nomes na nossa memória."

E pronto. Disfrutemos e conheçamo-nos melhor.
Ouçamos sempre mais e variado: o enriquecimento é nosso.

sábado, setembro 17, 2011

A auto-destruição começa (e acaba) com a destruição do outro

DESPERTAI, IMBECIS!!!



"Claro que há uma forma de pagar os empréstimos e os seus interesses, Fabrizio: roubar ao que tiveres ao teu lado. Assim haverá ricos e pobres, "espertos" e "burros".

Os bancos emprestam-te em troca de uma garantia, algo que ainda não tens (como a próxima colheita) ou de que necessitas para viver, como a tua casa. Enquanto te enterras, ou ficas espoliado ou te tornas um ladrão como eles.

Por estes dias muitos se têm deixado enganar, e as autoridades são coniventes. Por isso em muitas épocas a usura era proibida, era até considerada pecado. Uma terra que num ano dá uma boa colheita, no ano seguinte pode não a dar; essa coisa do crescimento económico é uma armadilha. Se fazes melhorias no cultivo, é amiúde em prejuízo do meio ambiente que o fazes: tens ser prudente: inquinas a água, envenenas a terra, destróis as florestas... Como somos cada vez mais exigentes... A Natureza e a lógica pôr-nos-ão no lugar..."



Comentário da internet.

domingo, setembro 11, 2011

Se ainda não sabemos isto, sabemos zero

Crónica de Daniel Deusdado publicada no JN de Quinta-feira, dia 8 de Setembro de 2011.



Questão: é possível destruir um rio como o Tua e manter-se a ficção de que o turismo é o maior activo do país?

As barragens foram propagandeadas por Salazar como o milagre da energia barata e são hoje responsáveis por uma parte da produção de electricidade nacional, além de terem melhorado o controlo do caudal dos rios. Foi assim por todo o Mundo. Mas já se evoluiu muito desde então e hoje percebe-se melhor que elas têm um custo implícito, porque os ecossistemas vão sendo profundamente alterados e a nossa saúde paga todos os dias a factura...

Infelizmente, para a maioria das pessoas, isto é conversa. O que importa é se a conta da luz é mais barata. Começo então por aqui: o plano de barragens posto em marcha pelo Governo Sócrates inclui uma engenharia financeira tipo "scut" cujo custo só vamos sentir daqui a uns anos de forma brutal - e aí já será tarde. Uma plataforma de organizações ambientais entregou esta semana à troika um documento que explica onde nos leva o plano da outra "troika" (Sócrates-Manuel Pinho-António Mexia). As 12 obras previstas que incluem novas barragens e reforço de outras já existentes produzem apenas o equivalente a três por cento de energia eléctrica do país, mas vão custar ao Orçamento do Estado e aos consumidores 16 mil milhões de euros... O documento avisa que a conta da electricidade vai, a prazo, incluir um agravamento de 10% para suportar mais este negócio falsamente "verde". A EDP, a Iberdrola, etc., receberão um subsídio equivalente a 30% da capacidade de produção, haja ou não água para produzir. Mesmo paradas, recebem. A troika importa-se com isto?

Os especialistas das organizações ambientais dizem, desde o princípio, que as novas barragens poderiam ser evitadas se houvesse aumento de capacidade das barragens existentes. Era mais barato e a natureza agradecia. Infelizmente a EDP apostou milhões para conseguir novas barragens, e isso incluiu antecipação de pagamentos de licenças que ajudaram o ex-ministro das Finanças Teixeira dos Santos a cobrir uma parte do défice de 2009, além da mais demagógica e milionária campanha publicitária da década, em que se fazia sonhar com barragens como se fossem os melhores locais do Mundo para celebrar a natureza...

Estes monstros de betão vão agora destruir dois rios da região do Douro, desnecessariamente. O Sabor, por exemplo, é uma jóia de natureza ainda selvagem. À medida que o turismo ambiental cresce globalmente, mais Portugal teria a ganhar com um Parque Natural do Douro Internacional ainda inóspito, genuíno. Já não será assim. A barragem em construção inclui uma albufeira de 40 quilómetros onde se manipula o rio de trás para a frente, com desníveis súbitos, acabando com a vida fluvial endógena e o habitat das espécies em redor.

Não menos grave é a destruição do rio Tua e da centenária linha do comboio. Uma vez mais o argumento é "progresso" - os autarcas e as populações acreditam que os trabalhadores da construção civil, que por ali vão andar por uns anos a comer e a dormir nas pensões locais, garantem a reanimação da economia... Infelizmente, não vêem o fim definitivo daquela paisagem e da mais bela história ferroviária de Portugal. Uma linha erigida a sangue, suor e lágrimas. Única. E que deveria ali ficar, mesmo que não fosse usada ou rentável, até ao dia em fosse entendida como um extraordinário monumento da engenharia humana e massivamente visitada enquanto tal.

Ao deixarmos cometer mais estes crimes, em troca de um mau negócio energético, não percebemos mesmo qual o nosso papel no Mundo. Esquecemos que a Natureza nos cobra uma factura muito pesada quando destruímos a fauna e a flora. Estamos a comprometer a qualidade da água e das colheitas de que precisamos para viver, com consequências para a nossa saúde e a das gerações vindouras. Se ainda não sabemos isto, sabemos zero. E ainda por cima vamos pagar milhões. É triste.

sexta-feira, setembro 09, 2011

Pois é...

Os EUA tentaram controlar os critérios editoriais da RDP e da RTP Açores na divulgação de notícias sobre contaminação de solos e aquíferos provocada por atividades da base das Lajes, na Terceira, revela o Diário Insular de 2 de Setembro citando e reproduzindo documentos divulgados pela Wikileaks. Segundo aquela fonte, em 2009 o consulado dos EUA em PDelgada terá feito pressão junto da RDP-RTP em Lisboa após o falhanço de diligências feitas junto da RDP-RTP Açores. Posteriormente, análises levadas a cabo pelo LNEC confirmaram na íntegra os rumores da contaminação de solos e aquíferos onde é captada água para abastecimento humano.


Via Onda3

terça-feira, setembro 06, 2011

Braga, Senhora Nossa da Agonia

Pela grande avenida, a cidade desperta.

Um livro de história despaginado que se apanha do chão.
Um homem, de sacola, aguarda. O pilar do prédio atrás dele não conhece o calor das suas costas.
Uma mulher retoma o ritmo do dia de ontem, acelerando o passo por entre os olhos a reconhecerem a luz.
Os carros escasseiam a esta hora. Antes do burburinho empresarial e económico programado há tantos anos...
Quase não há ninguém à espera do autocarro, à espera ainda do pára-arranca miúdos e sobre-graúdos por entre as ruelas de carros apertados e semáforos descontinuados.
Há um mostrador electrónico que nos estima o tempo de chegada do autocarro que nos vai recolher desta paragem. Estimativa em minutos. Em minutos que nunca mais andam. Decrescentemente. (Anda lá...!)
Melhor seria calculá-lo em distância, como se faz já noutras urbes com outra organização / planeamento... Com GPS é possível. Ou vivemos na Idade Média das paredes do mofo religioso amesquinhante e provinciano? As always.

Uma mãe, magra, leva pela mão o miúdo com sono.
Pelas manhãs, os miúdos têm sono de mochila às costas.
Logo pela manhã, os idosos aquecem já alguns dos bancos onde pretendem já passar algumas horas. Para ver o diáfano da manhã e o raiar do sol que se ergue aos dias do fim.
Miúdas bem vestidas terminam o café da manhã e entram na loja de roupa em que dobrarão e redobrarão as peças mexidas pelas mãos de clientes indecisos...
Os estabelecimentos abrem para nas suas portas se implantarem figurantes a ver os potenciais clientes simplesmente... passar. Eternos potenciais, efémeros figurantes...


Eu vi nos olhares da gente que espera a solidão do ser humano.
E sinto uma tristeza imensa no silêncio atroz que invade os corpos a flutuar.



Eu venho de um silêncio antigo e longo
da gente que se vai erguendo desde o fundo dos séculos,
da gente a que chamam classes inferiores

Eu venho das praças e das ruas cheias
de crianças que brincam
e de velhos que esperam
enquanto homens e mulheres trabalham
nas pequenas fábricas, em casa ou no campo.

Jo Vinc d'un Silenci, Raimon


Assim canta um Raimon em cada cidade que se ergue a cada dia que não passa.
Que a cada dia se ergue para o nada em que caímos. Aspirados pela opacidade cinzenta das manhãs capitalistas e pobres da cidade de Braga.

Ruas que vão perdendo as janelas, prédios com pedras que se esmigalham com o vento, chãos abandonados que conhecem cada vez mais estranhos, pessoas que apenas passam, que passam cada vez com menos motivos para se deterem nos lugares. Lugares esvaziados de sentido, de valor e de vida.

Uma cidade que o tempo está a tomar às pessoas.
Expulsas cada vez mais de si próprias.
Expulsas dos lugares, exiladas de si mesmas.
Sem lugar são, as pessoas ficam doentes.
Sem outra hipótese.

Uma cidade de centros comerciais-caixão,
uma cidade fantasma,
a tentar sobreviver à força das obrazinhas e das negociatas que, beneficiam uns, prejudicam outros - "é a lei da concorrência! A lei da concorrênciazinha!, não te vires contra o mercado!, assim falou o beneficiado, assim o ouviu o prejudicado e todos os espectadores cadaverizados à sua volta...

Um hospital que já o foi.
Uma "área de lazer" que apenas cumpre o propósito mercantil. Não o do lazer.
Edifícios sobredimensionados, espelhados e quadrados, vorazes de atenção e calor...
O esvaziamento físico e de ideias, perdidas estas com os espaços e as pessoas que os fazem...


Ah, como é duro sobreviver no deserto...
Até quando, diz-me sua cidade velhaca e seca???


Qual é a relação destas pessoas que vivem aqui com este... "aqui"?
Crescentemente, a de um espectador frente à televisão?

Sobretudo se forem elas as mesmas que vêem à sua frente...
Se ainda souberem observar.
Se ainda não lhes tiver sido roubada essa faculdade do juízo, também ele ameaçado pela insanidade do meio e das pessoas e da sacrossanta economiazinha e da sua putéfia propriedade que nos expropria.

As pessoas portam a insanidade, não se revoltam contra ela: revoltar-se contra a insanidade é já ceder-lhe espaço, parecem dizer os seus ombros caídos e as suas caras pálidas.

Mas só as pessoas podem recuperar a sanidade.
Porque é para elas.
Nada mais que para elas.


Quem perde as origens perde identidade.

domingo, setembro 04, 2011

Um Tratado Sobre Os Nossos Actuais Descontentamentos, de Tony Judt


Título: Um Tratado Sobre Os Nossos Actuais Descontentamentos
Autor: Tony Judt
Tradução: Marcelo Felix
Editora: Edições 70 - Grupo Almedina - Outubro 2010


Uma obra saída da pena do historiador e escritor Inglês Tony Judt, que morreu em Nova York de esclerose lateral amiotrófica em 2010, ano igualmente da publicação do livro.

Indispensável, este conjunto de texto ou ensaios, pela análise objectiva e clareza de ideias, e sobretudo pela capacidade de nos por a pensar numa época em que “sabemos o preço das coisas, mas não fazemos ideia do que valem”.

“A desigualdade é corrosiva. Ela apodrece as sociedades a partir de dentro. A repercussão das diferenças materiais leva algum tempo a mostrar-se: mas a seu tempo aumenta a concorrência pelo estatuto social e bens; as pessoas experimentam uma sensação crescente de superioridade (ou de inferioridade) segundo as suas posses; cristaliza-se o preconceito para com as posições inferiores da escala social; o crime aumenta e as patologias do desfavorecimento social vão-se acentuando cada vez mais. O legado da criação de riqueza não regulada é realmente amargo.” (Pág. 34)

domingo, agosto 28, 2011

Stock off

Vidal: rua de São Vicente - Braga (Agosto 2011)

Esqueçam a suposta mensagem política: não é da nossa responsabilidade.

Já por aqui se abordou a betonização sistemática da cidade de Braga, e já se falou muito sobre o despovoamento do centro da cidade, acompanhado pela degradação dos imóveis (chamemos-lhes assim) que o sustentam, ou sustentavam. Já por aqui se falou de público e privado e da (suposta) dificuldade de ajustamento de ambos os interesses. Já por aqui se falou de pessoas e da sua apetência por produtos modernos acabando invariavelmente num qualquer calabouço no 7º ou 8º andar de um prédio mais ou menos inacabado. Já por aqui se falou de pessoas e do seu gosto particular por endividamentos a 30 anos, para pagar a sua (?) casa (vulgo apartamento), com garagem, obviamente para o seu carro, ou seus carros, pagos a 5 ou 10 anos. Se tiverem sorte. Já sabemos que muitas dessas garagens à imagem das pessoas, também metem água; mas quando passeamos no centro de Braga, ou neste particular pela rua de São Vicente, uma angústia miudinha apodera-se do nosso corpo cujo centro nevrálgico, nesse momento, são os seus olhos. Com algumas veneráveis excepções, o que observamos são prédios abandonados e a cair de podres, outros em mau estado de conservação, e outros ainda entalados nos exemplos anteriores, tudo paredes-meias com alguns espécimes robustos de meados do século XX, e devidamente escoltados por uma matilha permanente de automóveis. Já aqui se falou de responsabilidade(s), ou da ausência desta(s). Talvez seja tempo de falar de irresponsabilidade, de desleixo, de incúria e, se calhar, de desprezo por quem nem sequer tem um tecto.

sexta-feira, agosto 19, 2011

Convocatória - Sábado, 20.Ago, 15h, Porto e Lisboa

Caros amigos, defensores do Tua,

No próximo sábado decorrerá, no Porto e em Lisboa, uma acção em defesa da Amazonia, contra a construção da hidroelectrica de BeloMonte...os interesses são sempre os mesmos, o problema é global!

É importante a participação de todos, solidários com a Amazónia e activos na partilha da mensagem do Tua!

Mais informações:
Sábado, 20 de Agosto - às 15h00
PORTO - Consulado do Brasil - Av. FRANÇA nº20;
LISBOA - Consulado do Brasil - Praça de Luís de Camões - CHIADO

No facebook:

Muito obrigada pela participação e pela divulgação.
Até breve,
Célia Quintas


(difundido via correio-e)

quinta-feira, agosto 18, 2011

O lugar do lixo III

Quando a linguagem empobrece a alma, a mesma alma que se enriquece através da linguagem (mas não o mesmo tipo de linguagem, claro está), entramos numa espiral descendente do que é ser-se humano. Desse ser humano com tão propaladas e belas qualidades que sempre está em questão e em questionamento.
A meu ver, não o suficiente (questionamento).

Para que serve este texto?

Como é que o mundo muda?
Por acção - acção deliberada, consciente...
e - e aqui é que está! -
por inacção ou negligência - consciente ou inconsciente, deliberada ou não.

Enquanto as coisas se mexem, como não o mundo mexer-se com ele?
Pois que não será ele o conjunto delas? ou ele onde elas - exclusivamente - podem mexer-se?


Isto era só uma introdução.

O lugar do lixo é o nosso lugar na sociedade de consumo.
Ponto 1.

Ponto 2: o lugar da sociedade de consumo é no lugar do lixo.


E que tal os plásticos dos gelados, das garrafinhas que tão boa sede nos matam, ou que tão refrescantemente nos enchem de açúcares ou subprodutos da indústria químico-farmacêutico-em-última-análise-militar...?
Por cima da areia na praia, da erva na margem do rio.

Ah, e os pneus, quase irreconhecíveis na sua mole preta de borracha, abandonados na berma das auto-estradas, ou a servir, pintados de branco ou cores, de decoração de jardins e escolas e jardins-escolas (que os miúdos, divertidos, pintaram no seu recreio)?

Ah, a reciclagem e tal...
(continua)

quarta-feira, agosto 17, 2011

Nettezza Urbana, de Antonioni


Documentário sobre os varredores de ruas realizado em 1948.
Filmado em Roma.

quinta-feira, julho 28, 2011

A quente

...Pessoas que nós não vemos há anos, até.

Um incêndio não é um bom motivo para nos reunirmos todos. Mas é quase necessário. E também isto me preocupa. Onde temos andado, e tal, ? porque e mas quando é preciso estamos cá todos. Prontos para a batalha fatal.


Éramos talvez mais de dez. E enquanto o fogo ardia, crepitando a poucos metros e nas alturas das árvores, houve um espesso silêncio. Ninguém dizia nada. Observávamos.
Impotentes e deixando arder o que lenta e silenciosamente fomos perdendo até chegarmos a esta hora...

E lembro-me de tudo quanto foi e continuará a ser.

Dos eucaliptais, dos madeireiros, dos bombeiros, dos farenheits451, dos cortes do governo, do desinteresse, do mero-pano-de-fundo-para-as-nossas-vidas, da falta de ordenamento, do abandono, das cabras que já não pastam porque já não há cabras....

(...e penso que incêndios assim estão para o ordenamento como as crises, a inflação e a deflação estão para o sistema monetário e o capitalismo....)

Lembro-me de todos pressentirmos entre nós a busca de um culpado, sempre a nossa sanha secular de um bode expiatório, de perseguirmos alguém e, se preciso, merecer o fogo que nos vai queimando o olhar e enegrecendo a vida...

(... mas "más allá de mis penas personales, me ensancho, me ensancho...")

Lembro-me das perdas pessoais e colectivas, acauteladas?, não acauteladas?, do espaço dito privado e da falta de zelo, porque "isso é lá com eles e não tens nada que meter o bedelho"...

Sei dos criminosos que já partiram com a sua maquia e deixaram mais uma mais valia para o fogo, parece que cuidadosamente espalhada pelo chão.
E sei que, como diz a canção dos Moody Blues, quem transforma a terra em deserto continua sem ser considerado criminoso...

(Ah, a nossa bela capacidade de julgar e do silêncio compadecido ou cúmplice...)


Enquanto me lembro de todas estas coisas e muitas mais, num ápice tudo isso desvale a pena.
No vórtice dos ventos, todos estes pensamentos são consumidos pelas chamas às nossas frentes. Pelo fogo à nossa frente e lá por cima.

Espectadores durante todo o espectáculo, observadores até ao desfecho.

Neste momento, a zona de batalha é um lugar destroçado e negro, os lutadores continuam a pairar sobre as nossas cabeças enquanto o ruído dos helicópteros entra nas nossas cabeças e o cheiro de cinza continua nos nossos narizes.

Pensei,
vamos dar o nosso testemunho disto. Desta noite longa e rápida de 28 de Julho de 2011.
Cada um que diga o que pensa, viu e sentiu.
Reuniremos tudo e assim será a história desta terra queimando-se que nos aflige.

"Na Alemanha, se queres cortar árvores, não é assim. Vai lá o técnico da Câmara, pergunta ao interessado na madeira
Quantos quilos queres?
Ok, podes cortar aquela, aquela e aquela."
Não é assim. [deitar abaixo todas as que nos apetece e deixar as cascas, belo material combustível...]. Tiras a madeira, mas não podes deixar cascas, nem o serrim... Não podes deixar nada...
Vivi lá 17 anos e nunca vi um incêndio. E há florestas por todo o lado.
E em Maio as pessoas vão todas fazer churrascos."

(Algo como isto, espero não estar a deturpar a memória, à soma do fumo e do sono...).

Este é um testemunho.
Apenas.

É hora de chorar sobre o desfeito e o incendiado.
De chorar esta terra e este país.

É hora de uma vez mais (dez anos depois?) olhar a terra queimada e a cinza fria e sentir "que amor não se entrega na noite vazia?"

A vingança vai-se servindo.
A quente.

Disse a Mãe, chateada até aos ossos.

domingo, julho 17, 2011

Portugal - Estudo de Geografia Regional, por Pierre Birot

Título: Portugal - Estudo de Geografia Regional
Edição original: Portugal - Étude de Géographie Régionel (1950)
Autor: Pierre Birot
Tradução: Evaristo Vieira
Edição: 2ª ed., Abril de 2004
Editora: Livros Horizonte
Colecção: Horizonte Histórico
ISBN: 972-24-129-14
Paginação: 152


É interessante descobrir como era visto Portugal há mais de 6 décadas. E ter a sensação de ser quase como um destapar de todas as coisas, e imensas, com que fomos "tapando" e "alterando" o solo e os usos que lhes fomos e vamos dando.
Os modos de vida agrícola, as linhas do relevo, a constituição geológica, as principais características da vegetação, algumas indicações do então novo crescimento económico e urbano...
No que respeita às práticas mais rurais, talvez ainda algo desse mundo de então reste ainda, escondido algures. Onde a "civilização" - seja ela o que for - não a tenha apagado por completo.
No que respeita aos desenvolvimentos das zonas urbanas, tanto já mudou que apenas poderemos achar indicações ultrapassadas. Mas que fazem parte da história de terras e de (cada vez menos) gente.

Mesmo que problematize - questão sempre presente e exercício sempre necessário (as divisões no mapa são meras linhas que não são assim tão detectáveis como um muro berlinense ou israelita) - e analise o que distingue umas regiões de outras (daí a sua individualização e nomeação), o autor não se deteve nas ilhas. Ficaram à margem. Tal como, geograficamente - face à parte continental-, não deixam de estar. O que acaba por ser uma pena, pois poderíamos ter um breve testemunho de como eram e se regiam. Um breve estudo é um estudo breve, iniciático, introdutório e sujeito a posteriores aprofundamentos.

Surpresa foi "desencantar" ainda este livro, que não é frequente vermos nas livrarias. Sim, as tais que têm cada vez menos para nos oferecer e mais com que nos encher o olho impressionável e susceptível às cores e às dimensões. Tampouco sabia da sua existência.
Pensamos que, por isso, pode ser uma boa leitura para iniciados.
Esta é a nossa proposta de Julho.

Leitores, ávidos, de todo o mundo, cultivai-vos!

Nota: Envie a sua sugestão de leitura para georden@gmail.com que posteriormente publicaremos neste mesmo espaço.

domingo, julho 10, 2011

Os bancos...

Quando, o Ministério das Finanças anunciou que o Governo vai prestar uma garantia de 20 mil milhões de euros aos bancos até ao fim do ano, respirei de alívio. Em tempos de gravíssima crise mundial, devemos ajudar quem mais precisa. E se há alguém que precisa de ajuda são os banqueiros.

De acordo com notícias de Agosto deste ano, Portugal foi o país da Zona Euro em que as margens de lucro dos bancos mais aumentaram desde o início da crise. Segundo notícias de Agosto de 2007, os lucros dos quatro maiores bancos privados atingiram 1,137 mil milhões de euros, só no primeiro semestre desse ano, o que representava um aumento de 23% relativamente aos lucros dos mesmos bancos em igual período do ano anterior. Como é que esta gente estava a conseguir fazer face à crise sem a ajuda do Estado é, para mim, um mistério.

A partir de agora, porém, o Governo disponibiliza aos bancos dinheiro dos nossos impostos.

Significa isto que eu, como contribuinte, sou fiador do banco que é meu credor. Financio o banco que me financia a mim. Não sei se o leitor está a conseguir captar toda a profundidade deste raciocínio. Eu consegui, mas tive de pensar muito e fiquei com dor de cabeça. Ou muito me engano ou o que se passa é o seguinte: os contribuintes emprestam o seu dinheiro aos bancos sem cobrar nada, e depois os bancos emprestam o mesmo dinheiro aos contribuintes, mas cobrando simpáticas taxas de juro. A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada.

Tendo em conta que, depois de anos de lucros colossais, a banca precisa de ajuda, há quem receie que os bancos voltem a não saber gerir este dinheiro garantido pelo Estado. Mas eu sei que as instituições bancárias aprenderam a sua lição e vão aplicar ajuizadamente a ajuda do Governo.

Tenho a certeza de que os bancos vão usar pelo menos parte desse dinheiro para devolver aos clientes aqueles arredondamentos que foram fazendo indevidamente no crédito à habitação, por exemplo, e que ascendem a vários milhares de euros no final de cada empréstimo. Essa será, sem dúvida nenhuma, uma prioridade.

Vivemos tempos difíceis, e julgo que todos, sem excepção, temos de dar as mãos. Por mim, dou as mãos aos bancos. Assim que eles tirarem as mãos do meu bolso, dou mesmo.


Ricardo Araújo Pereira, Outubro de 2008
(Crónica "Boca do Inferno", publicada na revista Visão)

Tão actual, não é?

quinta-feira, julho 07, 2011

Do nada nada vem

Do nada nada vem.


Esta máxima, antiquíssima, demora a ser apreendida, aprendida, concretizada, imaginada... na nossa forma de entendermos o mundo.

Como se despolui uma água poluída?
É fácil: retiram-se-lhes os poluentes.

E, assim, sem esses poluentes, a água despoluída já pode ser consumida?
(Depende da finalidade, é certo: mesmo poluída pode ser consumida...)
Por exemplo, para beber?

Talvez ainda não.
Então, o que falta?
É preciso que a água readquira as características que a fazem potável, bebível.

A um líquido nada de especial acontece se mais líquido lhe for acrescentado.
De cada vez que defecamos ou urinamos na água, nas nossas casas-de-banho muito bem apresentáveis e perfumadinhas e cor-de-rosinhas, estamos a tornar essa água imprópria para beber.

(Não sei onde está o choque...
Quê, vão dizer-me que nunca pensaram nisso?...
Então?! não vemos que se não fôssemos nós as ETARs não tinham lá muita piada?
Pois, nós fazemos a porcaria para elas a desfazerem.
À porcaria...)

Como se limpam essas águas?
Acrescentando-as a outras águas?

Não estou a conseguir chegar lá....

Ah, já sei. Pensemos no seguinte:
Como proteges uma coisa?

Constróis um muro à volta.
Mas assim essa coisa morre lá dentro.
Ah...

Bem...

Se queremos proteger um elemento de vida, temos de proteger e cuidar do meio onde esse elemento É.
Onde esse elemento vive.
Onde esse elemento é vida.

É assim que fazem para preservar as espécies (porque já vamos tarde e a más horas)... em vias de extinção: protegem os habitats.
- ESTA É A VISÃO POSITIVA, AO SERVIÇO DA VIDA.

É assim que fazem para exterminar as populações - privam-nas dos alimentos e de um lugar para viver. Sim, tal como os Israéis deste mundo fazem aos que moram nas Faixas de Gaza deste mundo.
- ESTA É A VISÃO NEGATIVA, AO SERVIÇO DA MORTE.


Mas onde é que íamos?
Ah...

Esqueçam tudo o que está para cima: era só um pretexto / contexto / subtexto.


"O tratamento de águas residuais através de sistemas que utilizam vegetação e microrganismos é uma alternativa que tem vindo a ser implementada em Portugal ao longo dos últimos anos.

Mas agora, através de um projecto da Escola Superior de Biotecnologia (ESB) da Universidade Católica no Porto (UCP), este tipo de solução ganhou uma nova abordagem ao ser aplicado numa unidade de turismo localizada em Ponte de Lima, devido às características típicas destas instalações, como a sazonalidade dos resíduos.

Este sistema, denominado de fito-etar, é uma alternativa ecológica às etares convencionais e caracteriza-se por recorrer ao leitos de plantas e a microrganismos como meio de tratamento de águas residuais, recriando assim as condições depurativas encontradas nas zonas húmidas naturais.

“É um tratamento biológico feito através de plantas e de microorganismos que as colonizam e que promove a degradação natural dos poluentes", explicou ao «Ciência Hoje», Paula Castro, investigadora da ESB-UCP, destacando que esta alternativa promove a biodiversidade e também tem uma boa integração na paisagem."


Notícia CiênciaHoje

quarta-feira, julho 06, 2011

O Atlântico vai acabar...

Imagem via Wikipédia

O Atlântico vai acabar... MAS essa não é a questão essencial.

A questão é que o BPA - Banco Português do Atlântico já nem existe...


....


É óbvio que estamos a brincar.
Bancos há-os aos montes: proliferam e prosperam com as crises...
São os primeiros ladrões a aparecer com cara de vítimas...

A notícia é esta, avançada pelo CiênciaHoje, aqui.


Mas o mais relevante nisto tudo, a questão verdadeiramente essencial, é a supressão daquela letrinha, via NAO (não, não estamos a referir-nos à Oscilação do Atlântico Norte, mas, sim, ao Novo Acordo Ortográfico...), que faz com que a "zona de subducção" agora tenha virado "zona de SUBDUÇÃO...!

(
Não, também não é no texto da notícia que assim aparece, mas, sim, nos manuais escolares:

a doença espalha-se de uma forma muito mais eficaz!

Que a internete é para ver umas gaijas e mandar uns meiles... não para aprender ciência... isso é coisa de cotas que ainda escrevem as palavras como antigamente... Do género, 'tás a ver?, aquela... ai, como é que era?...

Olha, agora não me lembra, mas era mesmo muita curtida, iá...
)


Esta é a questão essencial do fim dos oceanos.
Sem aquele QS... aquele KC, como em "Que se lixe!", subducção passa a ser algo bem mais suave, sem quaisquer violência capaz de gerar sismos...
Onde é que a subdução assusta quem quer que seja?

Coitadinha da moça...

A espoliação continua...

O Georden não é indiferente à supressão da ligação ferroviária Porto-Vigo.

É um absurdo pegado.
Mas, infelizmente, dentro da lógica a que nos têm vindo a habituar.
Sem confrontarem os interessados.
De cima pra baixo, que é como sempre se fez e fará através dos meios de comunicação de massas. Sem qualquer respeito.
Aliás, nem sei porque ainda se dão ao trabalho de o anunciar...


O Portugal do cada vez mais "orgulhosamente sós".
Cada vez mais isolados e estranhos a nós mesmos.

Irmãos galegos, ajudai-nos!



Tudo perdido em favor das grandes rodas...
Rui Pires Cabral

terça-feira, julho 05, 2011

Mais um fora-da-lei: Suíça

Quando há dois anos me encontrei em Bilbau com um companheiro da associação Slow Food Suíça, à alturas presidente deste movimento no seu país, assegurou-me que se a Suíça ainda não fazia parte da UE, não era por renunciar ao sigilo bancário: era por algo bem mais importante.

A condição que impunham à Suíça para integrar a União Europeia era a de que previamente tinham de renunciar às Consultas Populares Vinculativas.

Nesta ligação podeis ver como a Suíça é o Estado do mundo onde o seu povo mais participa:

À máfia política europeia não interessa a fraude fiscal, porque esta máfia sobrevive a especular e a acumular fortunas não só na Suíça, mas também noutros paraísos fiscais europeus: Luxemburgo, Liechtenstein, Mónaco, Vaticano, Malta, Chipre, Gibraltar, Andorra, Ilhas de Man, Jersey, Guernesey, Sark, Aldemey.

A única coisa que preocupa à nossa querida Europa, é que os cidadãos não tenham acesso à democracia directa.

E dificilmente a Suíça cederá a estas pressões, porque o povo suíço tem bem enraizada esta profunda tradição democrática.

A Suíça tem 7 milhões de habitantes, mais ou menos como a Catalunha e com apenas a assinatura de 100.000 cidadãos, eles próprios têm o direito de convocar um referendo cujo resultado será vinculativo para o Governo e as outras instituições.

Foi assim que o fizeram em mais de 300 ocasiões, quando os políticos profissionais legislam ou governam de costas para o povo suíço.

Uma das últimas foi quando o Parlamento não proibiu o cultivo de transgénicos no seu país. O povo indignado fez uma Consulta Popular, vencendo-a por um resultado inverso ao que tinham perdido na discussão parlamentar.

Com certeza que vos lembrais do que fez o Parlamento Catalán com a Iniciativa Legislativa Popular contra os transgénicos, que com 106.000 assinaturas de apoio, tiveram a ousadia de se aliar o PSC-PSOE, o PP e a CiU para evitar o debate parlamentar de um tema de tanto interesse para a sociedade catalã.

Umas semanas mais tarde, pelo contrário, autorizaram o debate da Iniciativa Legislativa Popular contra as touradas, porque era um tema folclórico, em que não se discutia nem a saúde das pessoas nem a dependência vil das nossas Instituições, das multinacionais farmacêuticas proprietárias das sementes transgénicas.

Na Suiza, em Espanha e no resto da Europa a maioria da classe política está lá para servir os grandes interesses económicos, mas ao menos na Suíça têm um mecanismo de participação que corrige os excessos desta maioria corrupta.

Decidi-me a escrever este artigo, quando li as declarações de Felipe González (Ex Presidente do Governo de Espanha), desprestigiando a democracia directa que o movimento 15M propõe, como se o exemplo californiano fosse o que inspira os Indignados.

Na seguinte ligação podem ver como um político evolui na sua ideologia, a partir da altura em que alcança o poder e por outro lado outros se mantêm fiéis aos seus princípios:


Penso que doravante um dos objectivos da cidadania terá que ser o de conseguir o direito a votar directamente, referendos vinculativos tal como os suíços fazem, para corrigir os abusos de tanto político corrupto e votar apenas em partidos ou plataformas que defendam esta opção.

O movimento dos indignados não pode perder-se em dezenas de notáveis propostas. Todas elas se conseguirão muito mais facilmente se o povo puder legislar directamente através das Consultas Populares Vinculativas.
Centremos os esforços neste tema - penso que é vital.


Josep Pamies


Texto publicado aqui.
Tradução de Eduardo F.

Capitalismo, essa arma de destruição massiva...*


A população de Detroit tem vindo a decrescer desde os tempos áureos da indústria automóvel [por que é conhecida] nos anos 1950, em que rondava os 2 milhões, para pouco mais de 700 mil pessoas.

Os escassos empregos e as crescentes hipotecas levaram mesmo as estáveis famílias da classe média para os subúrbios, deixando para trás centenas e centenas de casas e propriedades. Abandonadas. Segundo as estatísticas, o número de casas vazias duplicou na última década para 80 mil, mais que um quinto da totalidade da cidade. Mesmo que tenham vindo a demoli-las, à razão de 1000 casas por ano, não conseguem cobrir a percentagem a que as famílias estão a deixá-las.


Tradução por Eduardo F.
Fonte: Amusing Planet



* - e este caso é até bem asséptico: não mostra pessoas a matar para comer, por exemplo.
Ou os recursos naturais destruídos, poluídos, impróprios para manter a vida às pessoas que, do lado de fora do arame farpado (da propriedade), a eles querem chegar...

segunda-feira, julho 04, 2011

DESTRUIR, de cima a baixo, a cadeira que nos vai derrubar


Me llamarán, nos llamarán a todos.
Tú, y tú, y yo, nos turnaremos,
en tornos de cristal, ante la muerte.
Y te expondrán, nos expondremos todos
a ser trizados ¡zas! por una bala.

Bien lo sabéis. Vendrán
por ti, por mí, por todos.
Y también
por ti.

(Aquí no se salva ni dios, lo asesinaron.)

Escrito está. Tu nombre está ya listo,
temblando en un papel. Aquél que dice:
Abel, Abel, Abel...o yo, tú, él...


Blas de Otero,
"Me llamarán", 1955



Comunidades inteiras estão a ser expulsas das suas terras no delta do Tana, no Quénia, para permitir investimentos da canadiana Bedford Biofuels e da britânica G4 Industries Ltd em culturas de cana do açúcar e de jatrofa para produzir biocombustíveis. The Guardian.

Notícia via Ondas3


E assim vamos, cúmplices da destruição que dizemos ser nefasta para o ambiente e para as pessoas.

A economia... sempre aquela máquina bem oleadinha que nos troca as voltas, nos dá o que nos tira, baralhado e revirado, nos tira o que nos dá, sempre em prejuízo da sustentabilidade.

Quando não sabemos o que as nossas simples acções de consumo implicam:

- de quem é a culpa?
- porque continuamos?
- face ao desconhecimento, porque não evitamos?

Mais uma vez, o dizemos:

no ciclo do consumo (extracção dos recursos, produção / transformação, distribuição, consumo propriamente dito e deposição das "externalidades"...), ao consumidor que queremos cada vez menos ignorante, apenas costuma ser mostrada a parte da venda.

Não nos questionamos:

De onde vem?
Quem produziu?
Como produziu?
O que implicou essa produção / transformação?
Quem trouxe?

Nós, os consumidores, temos duas fases, de todo este processo, que conhecemos bem.
TODAVIA....!!!
... ainda a última ali mencionada (deposição das "externalidades", vulgo "lixo", que não tem de ser o fim em si: é, e pode ser, o recomeço de outros ciclos de consumo...) costuma ser depreciada, desprezada, ocultada, esquecida, desvalorizada...

E porquê?

- Porque o "lixo" cheira mal.
Porque é desagradável, insustentável e eticamente reprovável.

blá blá blá....

Ai é?

Se cheira mal e é desagradável... não te sentes mal e desagradável por teres de o fazer?
Se te sentes mal e desagradável por teres de o fazer, porque não tentas reduzi-lo?

- Ah, porque quero continuar a ... ah... eh... ah,.. produzi-lo... Não, espera, não é bem isto: porque quero - é isso! - porque quero continuar a consumir o que produz o "lixo" que eu não quero produzir com o que consumo... Ui...
Que é que eu disse?

...

E há forma de reduzir o "lixo"?
Primeira forma: reduzir o consumo.
Segunda forma: escolher o que consumimos.

Sabendo mais, mesmo que as escolhas não aumentem com isso, aumentam as formas de sabermos escolher.
Em vez de paparmos qualquer porcaria que nos ponham na prateleira.
Qualquer prateleira.

Quereis mais uma?
Olhemos, então:

Dois estudantes do Scripps Institution of Oceanography da Universidade de San Diego encontraram resíduos de plástico em mais de 9% dos estômagos dos peixes capturados durante a sua viagem ao Giro Subtropical do Pacífico Norte. Science Daily.


Quantas pessoas estão a ler isto e a pensar?

sábado, julho 02, 2011

PPP? PQP!!!


"A EDP quer garantir o máximo de incorporação de mão de obra local nas obras de Foz Tua, estando já a desenvolver planos com o consórcio construtor Mota-Engil/Somague/MSF, a Direção Norte do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) e o Centro de Formação Profissional da Indústria da Construção Civil Norte."

Via EDP (imagem e excerto)


Blá blá blá...
Querem envolver as pessoas locais no projecto?
Gostam muito de criar postos de trabalho, não é?

Adoram é comprar os locais para que aceitem roubar-lhes o pouco que lhes resta.
Adoram é passar os bens que são de todos para as mãos de alguns.


É urgente rever as concessões e parcerias público privadas, tal como exige a `troika´ e como anunciado pelo novo Governo, sendo as barragens a 3ª Parceria Público Privada (PPP) mais cara para o país. E estimado que o custo total das novas barragens (durante a vida da concessão) seria cerca de 15 000 milhões Euros = 4600 € por família [1].

O que ganha um país quando destrói uma linha-férrea centenária que atravessa toda a região uma região interior que não tem outra alternativa que não uma futura auto-estrada com portagens?

A Linha do Tua percorre Trás-os-Montes, lado a lado com um dos últimos rios livres de Portugal, serve as gentes locais, transporta milhares de turistas de todos os cantos do mundo e, com a sua ligação a Puebla de Sanabria e à Alta velocidade Espanhola, poderia trazer a casa, pelo Verão e pelo Natal, milhares de emigrantes transmontanos.

O que ganha um país quando destrói um vale milenar único como o vale do Tua, para aumentar a sua produção energética em algo tão insignificante como 0,7% [2]?

Os impactos da construção desta barragem são irreversíveis e hipotecam para sempre o futuro de Trás-os-Montes. É urgente um novo olhar para Trás-os-Montes e para o desenvolvimento transmontano, em particular, para o Vale do Tua.


Comunicado da Quercus (excerto) pela revisão das Parcerias Público-Privadas (parecem-me depravadamente bem mais privadas que públicas...) no que diz respeito à construção de paredões, produção de energia, projectos e a delapidação da paisagem...


Soa a muitos pês?
Soa a pês a mais para a nossa vidinha cheia de ésses e dês?

Olhem,


«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

José Saramago – Cadernos de Lanzarote - Diário III – pag. 148