terça-feira, julho 05, 2011

Mais um fora-da-lei: Suíça

Quando há dois anos me encontrei em Bilbau com um companheiro da associação Slow Food Suíça, à alturas presidente deste movimento no seu país, assegurou-me que se a Suíça ainda não fazia parte da UE, não era por renunciar ao sigilo bancário: era por algo bem mais importante.

A condição que impunham à Suíça para integrar a União Europeia era a de que previamente tinham de renunciar às Consultas Populares Vinculativas.

Nesta ligação podeis ver como a Suíça é o Estado do mundo onde o seu povo mais participa:

À máfia política europeia não interessa a fraude fiscal, porque esta máfia sobrevive a especular e a acumular fortunas não só na Suíça, mas também noutros paraísos fiscais europeus: Luxemburgo, Liechtenstein, Mónaco, Vaticano, Malta, Chipre, Gibraltar, Andorra, Ilhas de Man, Jersey, Guernesey, Sark, Aldemey.

A única coisa que preocupa à nossa querida Europa, é que os cidadãos não tenham acesso à democracia directa.

E dificilmente a Suíça cederá a estas pressões, porque o povo suíço tem bem enraizada esta profunda tradição democrática.

A Suíça tem 7 milhões de habitantes, mais ou menos como a Catalunha e com apenas a assinatura de 100.000 cidadãos, eles próprios têm o direito de convocar um referendo cujo resultado será vinculativo para o Governo e as outras instituições.

Foi assim que o fizeram em mais de 300 ocasiões, quando os políticos profissionais legislam ou governam de costas para o povo suíço.

Uma das últimas foi quando o Parlamento não proibiu o cultivo de transgénicos no seu país. O povo indignado fez uma Consulta Popular, vencendo-a por um resultado inverso ao que tinham perdido na discussão parlamentar.

Com certeza que vos lembrais do que fez o Parlamento Catalán com a Iniciativa Legislativa Popular contra os transgénicos, que com 106.000 assinaturas de apoio, tiveram a ousadia de se aliar o PSC-PSOE, o PP e a CiU para evitar o debate parlamentar de um tema de tanto interesse para a sociedade catalã.

Umas semanas mais tarde, pelo contrário, autorizaram o debate da Iniciativa Legislativa Popular contra as touradas, porque era um tema folclórico, em que não se discutia nem a saúde das pessoas nem a dependência vil das nossas Instituições, das multinacionais farmacêuticas proprietárias das sementes transgénicas.

Na Suiza, em Espanha e no resto da Europa a maioria da classe política está lá para servir os grandes interesses económicos, mas ao menos na Suíça têm um mecanismo de participação que corrige os excessos desta maioria corrupta.

Decidi-me a escrever este artigo, quando li as declarações de Felipe González (Ex Presidente do Governo de Espanha), desprestigiando a democracia directa que o movimento 15M propõe, como se o exemplo californiano fosse o que inspira os Indignados.

Na seguinte ligação podem ver como um político evolui na sua ideologia, a partir da altura em que alcança o poder e por outro lado outros se mantêm fiéis aos seus princípios:


Penso que doravante um dos objectivos da cidadania terá que ser o de conseguir o direito a votar directamente, referendos vinculativos tal como os suíços fazem, para corrigir os abusos de tanto político corrupto e votar apenas em partidos ou plataformas que defendam esta opção.

O movimento dos indignados não pode perder-se em dezenas de notáveis propostas. Todas elas se conseguirão muito mais facilmente se o povo puder legislar directamente através das Consultas Populares Vinculativas.
Centremos os esforços neste tema - penso que é vital.


Josep Pamies


Texto publicado aqui.
Tradução de Eduardo F.

Capitalismo, essa arma de destruição massiva...*


A população de Detroit tem vindo a decrescer desde os tempos áureos da indústria automóvel [por que é conhecida] nos anos 1950, em que rondava os 2 milhões, para pouco mais de 700 mil pessoas.

Os escassos empregos e as crescentes hipotecas levaram mesmo as estáveis famílias da classe média para os subúrbios, deixando para trás centenas e centenas de casas e propriedades. Abandonadas. Segundo as estatísticas, o número de casas vazias duplicou na última década para 80 mil, mais que um quinto da totalidade da cidade. Mesmo que tenham vindo a demoli-las, à razão de 1000 casas por ano, não conseguem cobrir a percentagem a que as famílias estão a deixá-las.


Tradução por Eduardo F.
Fonte: Amusing Planet



* - e este caso é até bem asséptico: não mostra pessoas a matar para comer, por exemplo.
Ou os recursos naturais destruídos, poluídos, impróprios para manter a vida às pessoas que, do lado de fora do arame farpado (da propriedade), a eles querem chegar...

segunda-feira, julho 04, 2011

DESTRUIR, de cima a baixo, a cadeira que nos vai derrubar


Me llamarán, nos llamarán a todos.
Tú, y tú, y yo, nos turnaremos,
en tornos de cristal, ante la muerte.
Y te expondrán, nos expondremos todos
a ser trizados ¡zas! por una bala.

Bien lo sabéis. Vendrán
por ti, por mí, por todos.
Y también
por ti.

(Aquí no se salva ni dios, lo asesinaron.)

Escrito está. Tu nombre está ya listo,
temblando en un papel. Aquél que dice:
Abel, Abel, Abel...o yo, tú, él...


Blas de Otero,
"Me llamarán", 1955



Comunidades inteiras estão a ser expulsas das suas terras no delta do Tana, no Quénia, para permitir investimentos da canadiana Bedford Biofuels e da britânica G4 Industries Ltd em culturas de cana do açúcar e de jatrofa para produzir biocombustíveis. The Guardian.

Notícia via Ondas3


E assim vamos, cúmplices da destruição que dizemos ser nefasta para o ambiente e para as pessoas.

A economia... sempre aquela máquina bem oleadinha que nos troca as voltas, nos dá o que nos tira, baralhado e revirado, nos tira o que nos dá, sempre em prejuízo da sustentabilidade.

Quando não sabemos o que as nossas simples acções de consumo implicam:

- de quem é a culpa?
- porque continuamos?
- face ao desconhecimento, porque não evitamos?

Mais uma vez, o dizemos:

no ciclo do consumo (extracção dos recursos, produção / transformação, distribuição, consumo propriamente dito e deposição das "externalidades"...), ao consumidor que queremos cada vez menos ignorante, apenas costuma ser mostrada a parte da venda.

Não nos questionamos:

De onde vem?
Quem produziu?
Como produziu?
O que implicou essa produção / transformação?
Quem trouxe?

Nós, os consumidores, temos duas fases, de todo este processo, que conhecemos bem.
TODAVIA....!!!
... ainda a última ali mencionada (deposição das "externalidades", vulgo "lixo", que não tem de ser o fim em si: é, e pode ser, o recomeço de outros ciclos de consumo...) costuma ser depreciada, desprezada, ocultada, esquecida, desvalorizada...

E porquê?

- Porque o "lixo" cheira mal.
Porque é desagradável, insustentável e eticamente reprovável.

blá blá blá....

Ai é?

Se cheira mal e é desagradável... não te sentes mal e desagradável por teres de o fazer?
Se te sentes mal e desagradável por teres de o fazer, porque não tentas reduzi-lo?

- Ah, porque quero continuar a ... ah... eh... ah,.. produzi-lo... Não, espera, não é bem isto: porque quero - é isso! - porque quero continuar a consumir o que produz o "lixo" que eu não quero produzir com o que consumo... Ui...
Que é que eu disse?

...

E há forma de reduzir o "lixo"?
Primeira forma: reduzir o consumo.
Segunda forma: escolher o que consumimos.

Sabendo mais, mesmo que as escolhas não aumentem com isso, aumentam as formas de sabermos escolher.
Em vez de paparmos qualquer porcaria que nos ponham na prateleira.
Qualquer prateleira.

Quereis mais uma?
Olhemos, então:

Dois estudantes do Scripps Institution of Oceanography da Universidade de San Diego encontraram resíduos de plástico em mais de 9% dos estômagos dos peixes capturados durante a sua viagem ao Giro Subtropical do Pacífico Norte. Science Daily.


Quantas pessoas estão a ler isto e a pensar?

sábado, julho 02, 2011

PPP? PQP!!!


"A EDP quer garantir o máximo de incorporação de mão de obra local nas obras de Foz Tua, estando já a desenvolver planos com o consórcio construtor Mota-Engil/Somague/MSF, a Direção Norte do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) e o Centro de Formação Profissional da Indústria da Construção Civil Norte."

Via EDP (imagem e excerto)


Blá blá blá...
Querem envolver as pessoas locais no projecto?
Gostam muito de criar postos de trabalho, não é?

Adoram é comprar os locais para que aceitem roubar-lhes o pouco que lhes resta.
Adoram é passar os bens que são de todos para as mãos de alguns.


É urgente rever as concessões e parcerias público privadas, tal como exige a `troika´ e como anunciado pelo novo Governo, sendo as barragens a 3ª Parceria Público Privada (PPP) mais cara para o país. E estimado que o custo total das novas barragens (durante a vida da concessão) seria cerca de 15 000 milhões Euros = 4600 € por família [1].

O que ganha um país quando destrói uma linha-férrea centenária que atravessa toda a região uma região interior que não tem outra alternativa que não uma futura auto-estrada com portagens?

A Linha do Tua percorre Trás-os-Montes, lado a lado com um dos últimos rios livres de Portugal, serve as gentes locais, transporta milhares de turistas de todos os cantos do mundo e, com a sua ligação a Puebla de Sanabria e à Alta velocidade Espanhola, poderia trazer a casa, pelo Verão e pelo Natal, milhares de emigrantes transmontanos.

O que ganha um país quando destrói um vale milenar único como o vale do Tua, para aumentar a sua produção energética em algo tão insignificante como 0,7% [2]?

Os impactos da construção desta barragem são irreversíveis e hipotecam para sempre o futuro de Trás-os-Montes. É urgente um novo olhar para Trás-os-Montes e para o desenvolvimento transmontano, em particular, para o Vale do Tua.


Comunicado da Quercus (excerto) pela revisão das Parcerias Público-Privadas (parecem-me depravadamente bem mais privadas que públicas...) no que diz respeito à construção de paredões, produção de energia, projectos e a delapidação da paisagem...


Soa a muitos pês?
Soa a pês a mais para a nossa vidinha cheia de ésses e dês?

Olhem,


«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

José Saramago – Cadernos de Lanzarote - Diário III – pag. 148

terça-feira, junho 28, 2011

Em mudanças?

Neste momento, está em curso uma autêntica operação de manipulação da opinião pública, procurando fazer crer que a antecipação de fundos comunitários constituiria uma importante ajuda a Portugal, pois contribuiria para diminuir as dificuldades actuais. Essa eventual antecipação é até apresentada, de uma forma clara ou velada, como já uma vitória do novo governo e uma prova de que a Comissão Europeia, leia-se Durão Barroso, está empenhada em ajudar Portugal. Comentadores com acesso privilegiado aos media, por falta de informação ou intencionalmente, estão a participar nessa campanha multiplicando os “benefícios” de tal eventual antecipação. Mas a verdade sobre os fundos comunitários, que é ocultada aos portugueses, é bem diferente. Até 31 de Março de 2011, Portugal não tinha utilizado 7.071 milhões € de fundos comunitários que a U.E. tinha posto ao dispor do País até a essa data; dito de outra forma, até ao fim de Março de 2011, Portugal só tinha conseguido utilizar 44,8% dos fundos comunitários programados para serem utilizados no período compreendido entre Janeiro de.2007 e Março de 2011.

Se a análise for feita por programas a gravidade da situação ainda se torna mais clara. Até 31 de Março de 2011, não foram utilizados, podendo-o ser, a nível do Programa Factores de Competitividade, designado também por COMPETE, que tem como objectivo o apoio à inovação e modernização das empresas, 1.054 milhões €; no Programa Potencial Humano (POPH), que visa o aumento da qualificação dos portugueses não foi utilizado 1.397 milhões €; no programa Valorização do Território, que tem como objectivo combater às assimetrias regionais e desenvolver as diversas regiões do País, nomeadamente as mais atrasadas, ficou por utilizar, até ao fim de Março de 2011, 1.717,9 milhões €; em relação aos Programas das Regiões Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve ficaram por utilizar 2.387,2 milhões € de fundos comunitários; na RA da Madeira ficaram por utilizar até 31.3.2011, podendo-o ser, 220,5 milhões e; e na RA dos Açores, ficaram por utilizar 240,7 milhões € de fundos comunitários até 31.3.2011.

E a pergunta que naturalmente se coloca é a seguinte: Por que razão isto aconteceu, quando era tão necessário que os fundos comunitários do QREN fossem utilizados atempadamente no combate à grave crise que o País enfrenta? Que razões terão impedido até Março de 2011 a não utilização de 7.071,8 milhões € de fundos comunitários quando isso era possível pois constava da programação aprovada pela Comissão Europeia? Para além das razões que estão associadas à falta de eficácia e eficiência das entidades públicas e privadas na utilização dos fundos comunitários, a causa mais importante da não utilização, neste momento, de um montante tão elevado de fundos comunitários prende-se com o facto dos beneficiários tanto privados como públicos não disporem de meios financeiros para suportar a parte que lhes cabe na despesa total. Como estão profundamente endividados e como a banca está a cortar no crédito e a não financiar a economia, entidades públicas e privadas estão cada vez mais impossibilitadas de utilizar os fundos comunitários porque não dispõem de meios financeiros para suportar a sua parte. Isso só não acontece no Programa Potencial Humano, onde os beneficiários privados são financiados a 100% com fundos públicos (fundos comunitários mais fundos públicos nacionais) e por essa razão a taxa de utilização é de 61,6%, enquanto no COMPETE, que é um programa fundamental de apoio às empresas, a taxa de utilização dos fundos comunitários foi apenas de 42,5%, e no Programa de Valorização do Território (desenvolvimento das diferentes regiões) atingiu apenas 37,6% até 31.3.2011. Um exemplo, para mostrar a gravidade da situação. No Programa Factores de Competitividade, no Eixo 3, existiam 628 milhões € de fundos comunitários destinados à modernização da Administração Pública. Como até 31.12.2010 tinham sido utilizados apenas 3,2% devido ao facto dos serviços públicos enfrentarem graves dificuldades financeiras, na última reunião da Comissão de Acompanhamento em que participamos, a autoridade de gestão apresentou uma proposta com o objectivo de transferir, da Administração Pública, 400 milhões € para sistemas de incentivos a privados. Fala-se muito da necessidade de modernizar a Administração Pública para diminuir os “custos de contexto” suportados pelos cidadãos e pelas empresas, mas depois a prática governamental é totalmente contrária às declarações oficiais.

Uma solução para a escassa utilização dos fundos comunitários seria conseguir que a U.E. aumentasse a comparticipação comunitária no financiamento dos projectos que, excepto o POPH, varia de reembolsáveis, 50%, máximo 85%, diminuindo a dos beneficiários assim como criar linhas de crédito bonificadas de apoio a projectos com participação comunitária. Mas por isto o governo não se interessa e os comentadores oficiais nos media não falam, preocupando-se com a antecipação de mais fundos comunitários, quando já não se consegue utilizar atempada e totalmente os que já estão disponíveis. Tal só pode ser entendido como fruto de um grande desconhecimento e como mais um acto de propaganda e de manipulação da opinião pública.

sacado daqui: 5dias.net

sexta-feira, junho 24, 2011

O reino da Dinamarca espalhado aos quatro ventos*

* e não, não é nenhum trocadilho ou alusão à energia eólica...






"Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente."
Jiddu Krishnamurti

sábado, junho 18, 2011

Mapa de fluxos de informação - 15M

Na natureza das sociedades humanas, a informação propaga-se de formas muito diferentes. A forma como se propaga tem uma importância vital tanto para a própria existência da vida como para o tecido social. No BIFI [Instituto Universitário de Investigação Biocomputação e Física de Sistemas Complexos, da Universidade de Zaragoza] perguntamo-nos como foi o processo de propagação da informação, se é ou não parecido com outros processos e se podia ter sido previsto.*





O estudo realizado em colaboração com Cierzo Development tinha como objectivo investigar, por um lado, as propiedades estatísticas da informação difundida e, por outro, como são os padrões de conectividade entre aqueles que emitem essa informação e entre aqueles que a recebem.

O estudo compreende o período entre o 25 de Abril e o 26 de Maio de 2011. A partir das 70 palavras-chave relacionadas com o movimiento 15M, fez-se o rastreio de todas as mensagens trocadas entre usuários que continham uma destas. No total detectaram-se e usaram-se 581.749 mensagens provenientes de 87.569 usuários. Os dados aqui analisados representam aproximadamente um terço de todas as mensagens e posts gerados no mundo. A partir destes dados, espera-se contar com novas fontes e colaborações para aprofundar ainda mais o estudo deste tipo de redes complexas.

Através de ferramentas computacionais e da teoria das redes complexas, na qual o BIFI é uma referência mundial, analisaram-se e relacionaram-se as palavras-chave que se foram criando através de uma popular rede social.nonosvamos ou democraciarealya, foram as primeiras a ser criadas. Seguiu-se um mais genérico genérico 15M, fazendo referência à data da primeira concentração. Posteriormente, a reunião de pessoas na Puerta del Sol de Madrid deu lugar a acampadasol, e a esta logo se seguiram outras em toda a geografia espanhola, as quais deram lugar a acampadabcn, acampadavlc, acampadagranada, acampadazgz, acampadabilbao e um extenso etc..., para chegar finalmente a globalcamp.

Poder obter uma quantidade suficiente de dados estatísticos em tiempo real é uma oportunidade única. Outros eventos de seguimento massivo -como os desportivos- tendem a estar demasiado concentrados numas poucas horas. Outros temas com muita estatística costumam ser de variação lenta. Algo como o 15M é uma situação perfeita para os estudos de formação e propagação de redes. E a sua presença online permite obter una informação que depois se poderá extrapolar a outras redes similares das quais não se podem obter dados directos.


Fonte: 15Mbifi.es
Tradução de Eduardo F.

* - O objectivo é prever para controlar.
Já se sabe. Não é despiciendo, portanto, com quem fica esse saber.


E por cá, como seria?

E amanhã, 19 de Junho de 2011 - dia em que em mais de 800 cidades no mundo se vai sair à rua - como será por cá?
(A normalidadezinha mesquinha do costume, já tememos...)


Não olhes
(apenas)
:
Junta-te.

quinta-feira, junho 16, 2011

Vejam quem tem sempre escolta

Este vídeo tem de ser divulgado.







Com cara de bons amigos...

Este método é velhinho....
Já aparecia descrito n'"As Vinhas da Ira", do Steinbeck.

Porque somos mais, mesmo que estejamos errados, a nossa versão irá prevalecer.
Agora é a nossa vez.
Estamos a construí-la.


E no fundo, esta é mais uma tentativa falhada de nos desacreditarem.
Mas não é assim que o vão conseguir.

Por isso, aguardaremos - sabemo-lo - novas formas de nos destruírem.
Tal como pressentimos no artigo anterior, isto vai acabar muito mal.
Porque a razão não pode nada contra a violência das armas.

Em fila, encostados à parede, ou cercados pelas polícias do mundo,
disparados de prédios, ocultos, ou disparados do ar, inacessíveis e ocultos, só a nossa morte nos calará.

Porque a razão e a dignidade está do nosso lado.
Nós somos vida.
A violência é contra nós.

terça-feira, junho 14, 2011

Sinfonia Surreal em construção

São estes os que assassinam - Víctor Jara


"Devem ser treinados para a violência
e não para o apaziguamento."


Junte-se
a indignação daquela septuagenária
com
o grito de Raimon,
uns olhos de Llach,
aquele sorriso e a Crucificação de Ochs,
as mãos (desfeitas...) de Jara,
os óculos de Lennon
e a voz de King...






Primeiro andamento:
- Eu tive um sonho


Há uma barreira que nos separa,
entre os que estamos deste lado e os que estais desse lado.
E chove muito.
Os vendedores da fruta estão indignados.
Talvez discutam para perceber o porquê de os preços que os produtores recebem serem tão baixos.
Talvez exijam melhores salários.
E se nós e os produtores recebêssemos mais que esta miséria?
Para onde vai o dinheiro que nós não recebemos, que nós nunca recebemos?
Para quem...?

Um desses vendedores, irado, de vassoura em riste, escorraça-me dali pra fora, como quem quer varrer o chão.
Não, amigo - pensei -, tu não estás a perceber.
Eu nem pude manifestar a minha posição.
Eu não estou contra ti.

Fujo, deixando-os para trás.

Chove muito
e trepo até um lugar mais ermo,
protegido
e mais só comigo,
mas completamente encharcado pela chuva que cai.

Descemos a Avenida da Liberdade.
Sim, pelo meio da estrada: não há mais carros - o trânsito somos nós.
Os prédios à nossa volta esmagam-nos.
Grito para trás,
para as janelas fechadas e vazias,

"Temos de sair prà rua,
juntos,
muitos,
quantos mais melhor."

[Porque levo isto, vivo, revivo, na memória que nunca me deixam morrer:

Dás-te conta, companheiro,
que pouco a pouco nos vão pondo o futuro
atrás das costas;
Dás-te conta, amigo.

Dás-te conta, companheiro,
que no-lo vão roubando cada dia que passa;
Dás-te conta, amigo.

Dás-te conta, companheiro,
que há já muitos anos
que nos escondem a história
e nos dizem que não a temos;
que a nossa é deles;dás-te conta, amigo.

Dás-te conta, companheiro
que agora querem o futuro
pouco a pouco, dia a dia, noite a noite;
dás-te conta, amigo.

Dás-te conta, companheiro,
não querem argumentos,
usam a força,
dás-te conta, amigo.

Dás-te conta, companheiro,
que temos de sair à rua,
juntos, muitos, quantos mais melhor,
se não queremos perder tudo,
dás-te conta, amigo

Dás-te conta, companheiro,
Dás-te conta, amigo?

(e isto foi escrito em 1972 e continua em carne viva...)
]

Ao fundo da avenida, há uns degraus para uma piscina gigante
À chuva e ao frio, desobedecemos à razoabilidade:
alguns mergulham na água gelada, rindo.

Vêde! Temos sede de infinito!
Não tememos a morte.
A vida não é um crime.


Saímos da redoma,
saímos do cubículo
[era uma universidade, ou uma escola...] em que estamos a pensar.
Queremos ir ver o parlamento.

Não temos pé-de-cabra.
Umas mãos surgem na esquina e nos dão uma chave-mestra.
Porque há amigos que, caladamente, já sabem que isto não vai dar a lado nenhum.
Que daqui não saímos.

Subimos as escadas para o parlamento
e reparamos que está convertido numa sala de jogo,
em cuja sala principal mais parece um casino...

Vejo um compartimento que me interessa mais que as peças que se ganham e perdem:
uma sala com música.
Mas os discos que têm e temos para ouvir e recriar são de outras canções,
que nada nos dizem.
Ah, como nos faltam canções do agora...


Eu vi-te, miúdo.
Vi como tu és pequeno - tão pequeno...! - e enfrentaste os cassetetes dos fardados.
És a força da vida.
A morte que te deterá é parcial.
Porque em ti, a luta continua.
Para além de ti.

E eu ergo-te no ar e abraço-te.
Tu fumas, em sinal de desobediência à vida que te quer matar.



São estes os que assassinam - Martin Luther King


Segundo andamento:
- Eu tenho um sonho


Hoje acordei com o coração a bater.
Hoje voltei a sentir que tenho um coração a bater.


Aos polícias que ao silêncio pesado e aos corpos em festa respondem com violência:

Podeis espancar-nos.
Podemos sangrar muito.
Podemos morrer de tanto sangrar...

Eu tenho um sonho.

E no dia em que fores ao supermercado,
para alimentares a tua familiazinha,
o vendedor da caixa
vai recusar-se a passar a fruta que queres comer, invocando:

- Tu espancaste um amigo meu.

Nesse mesmo momento, o responsável, o capataz do supermercado, virá.
E o vendedor será suprimido e apagado dos registos.
Dos registos do supermercado.
Menos um.
Sim, menos um.
("Se me falares de destruição, não contes comigo.")

Será substituído por outro.
Mas nada mais mudou.
E as condições que produziram a objecção de consciência continuam a produzir vítimas.
Vivências e sentimentos de raiva.
Contra.

Da próxima vez, tu, polícia, político, empresário, bancário, bolsista, porco capitalista
vais dirigir-te a um supermercado e vais ter de enfrentar - adivinha! - um "colaborador".
Que vai dizer-te, baixinho:

- Tu espancaste um familiar meu.

E da próxima vez,
seremos mais,
ouvirás, sem to dizerem,
eu conheço o sujeito que tem aquele hematoma
- fui responsável por ele
(Oh yeah! A man's got a do what a man's got a do... e tretas do género
dirty work... dirty job...
- Ganho a vida a espalhar a morte...

E da próxima vez,
seremos mais ainda,
verás um familiar teu num hematoma...


E então, tu, polícia, já cansado, vais propor, lá na tua esquadra, a produção de fruta só para vós.
Para não terdes de enfrentar o mundo fora de horas.
Fora do horário de expediente.
"Somos pessoas", querereis argumentar.

Sereis? - perguntamos.

O que faz uma pessoa ser uma pessoa
senão a relação com os outros?
O que faz um humano ser humano
senão ser humano para com os outros?


E aí estaremos já a ganhar.

E aí estarás a caminhar rumo à independência.
Rumo a nós.
Calada e inconscientemente a ti próprio.

Tu não poderás viver cá fora.
Serás privado do contacto com as pessoas e o quotidiano.
Viverás entre os polícias e perderás, de vez, aquilo que te faz ser um homem entre os homens.
Estarás prestes a tornar-te numa máquina quando te perguntares:

- Mas que sentido é que isto faz?
Porquê tanta divisão?
Porque é que estou a afastar-me do mundo?
O que é que eu estou a servir?

Se não sou eu quem sai beneficiado com o que faço,
para que estou eu a fazer isto?
Sou polícia de quem?
Quem é que eu sirvo?
Para que é que eu sirvo?


Terceiro andamento:
- Eu tenho uma distopia*

São estes os que assassinam - John Lennon


O polícia não veste a farda: a farda veste o polícia.
O polícia não tem a arma: a arma tem o polícia.
O polícia é uma máquina.
E as máquinas são sempre telecomandadas.

E o investimento em segurança será reforçado.

- a segurança deles
eles,
os poderosos do poder de Estado,
do poder da finança,
da bolsa,
das grandes potências
e do dinheiro,
eles,
que têm a terra para produzir as coisas deles,
que têm as sementes que se lançam na terra que é deles,
que têm os "colaboradores" que as lançam na terra, que é deles,
que têm os mercados onde vender a sua fruta,
que têm os meios de distribuir a fruta, que é deles e que usam para reforçar o poder que têm,
que têm os combustíveis para os carros distribuírem a fruta deles
para eles...

eles,
que se servem de nós há séculos
via formas e exercícios do poder
para aumentarem
perpetuarem
e transmitirem
o seu poder
e a sua falta de valores,

eles
investirão e aumentarão a vigilância
"contra o poder legítimo e democrático".

E nós,
nas nossas praças e outros lugares onde não temos tecto nem onde cair mortos,
nós,
gota a gota (negada e poluída),
grão a grão (ogêémanipulado),
bala a bala (perdida),
tiro a tiro (mal dirigido),
guerra a guerra (sempre "inevitável" e sempre disseminada como qualquer das outras doenças fabricadas em laboratório... que também é deles)

then,
nós,
"crucificados",
seremos assassinados.
Como já o fomos e temos sido desde há séculos.

Mas a história continuará.
Mesmo que continue a não ser a nossa.

Porque ninguém vai sair daqui.
E nós não vamos parar.

O mundo é a nossa praça.
E a vida não é um crime.


Os grandes revolucionários não são os que pegam em armas.
Mas sim aqueles que pensam e sonham a vida e o amor dos homens.
Para a vida e o amor dos homens.
Nós estamos deste lado.

Escolhe o teu.


* - não, não confundas "distopia" com "miopia".

São estes os que suicidam - Phil Ochs


Face ao momento histórico a que chegámos,
concluamos uma coisa muito simples:
numa crise ecológica, social e biológica sem precedentes,
ou ultrapassaremos juntos isto
ou não ultrapassaremos isto.
Todos.

SÊ A MUDANÇA QUE QUERES VER NOS OUTROS




You say you want a revolution
Well you know
We all want to change the world
You tell me that it's evolution
Well you know
We all want to change the world
But when you talk about destruction
Don't you know you can count me out

Don't you know it's gonna be alright
Alright Alright

You say you got a real solution
Well you know
We'd all love to see the plan
You ask me for a contribution
Well you know
We're doing what we can
But when you want money for people with minds
that hate
All I can tell you is brother you have to wait
Don't you know it's gonna be alright
Alright Alright

You say you'll change the constitution
Well you know
We all want to change your head
You tell me it's the institution
Well you know
You better free your mind instead

But if you go carrying pictures of Chairman Mao
You ain't going to make it with anyone anyhow
Don't you know know it's gonna be alright
Alright Alright



(Lennon / McCartney, 1968)

segunda-feira, maio 30, 2011

sexta-feira, maio 20, 2011

Retrato de Cidade na Cidade


Foto de Rogério Madeira, Cork (Irlanda), 13.05.2011.


+ info: m-city.org

quarta-feira, maio 11, 2011

Desculpe, importa-se de repetir?

"A África-do-Sul não era, de todo, o único país envolvido. Os detalhes da rede, que emergiam aos poucos, pareciam um diário de viagem errático.

Um fornecedor alemão tinha providenciado as bombas de vácuo.
Um intermediário em Espanha fornecera dois tornos especializados.
Um consultor suíço tinha viajado para a Malásia para produzir partes de centrifugadoras baseadas nos projectos paquistaneses que tinham tido origem na Holanda.
Um ex-responsável militar israelita, nascido na Hungria e a trabalhar na África-do-Sul, foi preso numa estância de ski em Aspen, Colorado, pelo seu papel no fornecimento ao Paquistão de interruptores de descarga eléctrica comandáveis, mecanismos que podem ser usados em detonadores de armas nucleares.
Um engenheiro britânico prepara os planos para a oficina mecânica líbia, criada para produzir componentes de centrifugadoras.
Fornos especiais foram comprados à Itália.
Conversores de frequência e outros aparelhos electrónicos haviam sido produzidos em oficinas turcas, usando componentes provenientes de outras partes da Europa.

No final, os investigadores da AIEA [Associação Internacional para a Energia Atómica] desenterrariam ligações a mais de 30 empresas em igual número de países."

"A Era da Mentira" (trad. de Carlos Santos), Mohamed Elbaradei,
Ed. Matéria Prima, 2011, p. 207

Nem me apetece fazer comentários...
Nem tampouco sei como classificar isto...

Umas breves notas, após a leitura deste recente livro:

Como no sistema-mundo, parecemos estar todos a cozinhar, com as nossas pequeninas, minúsculas acções, um monstro.
Seja ele chamado bomba atómica (este excerto foi retirado do capítulo sobre, como Elbaradei lhe chama, "O bazar nuclear de A. Q. Khan", um engenheiro que vende o seu trabalho a partir do Paquistão - um dos países com bomba atómica, a par da Coreia do Norte, Estados Unidos da América, Israel, Índia, França, Grã-Bretanha...), seja ele aquecimento global.
Isto é, todos, isolados e em rede, contribuímos, inconscientes ou não de todos os restantes elementos da rede, para uma soma que desconhecemos e que é maior que a soma das partes.
Uma espécie de inconsciente colectivo mundial.

- Ah, eu não tenho nada a ver com isso!... Eu só fabrico interruptores, vou lá saber em que é que eles são usados...!
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- Ah, em que é que eu contribuo para isso?... Eu só poluo / consumo / destruo um bocadinho..., vou lá levar com toda a responsabilidade (para alterar o meu mui nobre modus vivendi)...!


A outra nota é a que se prende com a repescagem do chamado "Equilíbrio do terror" que a aniquilação nuclear representa.
Está patente, na visão de Elbaradei, a quezília entre os que têm enriquecimento de urânio e os que o não têm. Sendo que os que o têm não querem que os que o não têm... tenham.

Com que direito? Qual é a superioridade moral?

Nenhuma. O Direito, quando entronca no negócio, de pouco serve. Comprovada na rede de interesses implacável e indetectável do exemplo acima.

Porque quando se trata de armas - para matar, que é isso que elas só sabem fazer... - os primeiros confiam na superioridade... da violência e do poder de a exercer.
De a exercer sobre aqueles que, não dispondo de igual força destruidora, a têm de acatar.

Com que direito?

O urânio existe na natureza.
O problema está na capacidade em enriquecê-lo, meios técnicos, materiais e humanos de que nem todos dispõem (uns têm, alguns dos que não têm, querem ter) e, depois - aqui é que realmente grave, e com isso ninguém se preocupa....- no facto de o material radioactivo (por exemplo, o principal componente das bombas atómicas, o Urânio 235, mas também outros, como o Tório, o Estrôncio, o Plutónio, o Césio...) passar a existir.

Se a algum país fosse pedido para armazenar lixo tóxico, ele aceitaria? Com que porta-voz? Representativo?

O factor disuasor da violência não pode ser baseado numa violência de igual dimensão.

A consequência é deste processo, inevitavelmente, um crescendo de violência: todos quererão dispor armas nucleares.

Mas a questão está a montante: o material radioactivo não é já, em si, existindo, um problema?

Este é o argumento que está antes da defesa da segurança da energia nuclear.
Não é a questão de haver sismos que provoquem fugas de radioactividade que está em análise.
A análise está antes. Porra.
A fonte dessa radioactividade já existe. Nesse caso, ampliada, aumentada, enriquecida.

Quem conseguir compreender este raciocínio...
Sei lá...
Cada vez menos sei fazer comentários...

sábado, maio 07, 2011

Mais um terrorista

(Com opção de legendas)


Sugerido por Magda Gama.

sexta-feira, maio 06, 2011

Das notícias que não interessam

"Depois do acidente nuclear de Fukushima, no Japão, a Comissão Europeia triplicou o nível máximo de radiações permitido nos alimentos. Já fizera o mesmo depois do desastre de Chernobyl, para evitar o caos no mercado alimentar."

Visão de 5.5.2011, p.18



Esta pequenina notícia, tão pequeniiiiina que ela é, não passará na televisão.
Esta informação é só isto: duas frases, apenas.
Nem mais, nem menos.

Da mesma forma que para não se atentar contra os direitos humanos de alguns povos ou pessoas basta não se lhes reconhecer esses direitos humanos, para continuarmos dentro da lei, basta alterar-se a lei.

O que preside a esta mudança?
Podermos continuar a violentar à vontade.
Que racionalidade desumana é esta?
Diz-me, Hanna Arendt.

Quem ganha com estas mudanças?
Os seres humanos?

Em nome dos mercados alimentares.
Em nome do dinheiro.

Cada vez mais que nunca, recusar esta violência.
Glocalizar, criar redes de proximidade.


"Ser sozinho não é sina
nem de rato de porão
Faz também soprar o vento
não esperes o tufão
Põe sementes do teu peito
nos bolsos do teu irmão."


As coisas que nos afectam a vida directamente não são lançadas como bombas atómicas: para funcionarem têm de ir penetrando, como agulhas, finíssimas, a que as nossas peles não possam oferecer resistência.

Depois, claro, vem a droga e tudo o mais que lhes quiserem meter.
Que quiserem meter em nós.
E aí, amigos, esqueçamos as boas intenções: já é tarde.

"Entretém-te, filho, entretém-te.
Eles decidem por ti.
Decidem tudo por ti."

Estamos a perder.
Todos.
Porque o povo, vencido, jamais será unido.
Porque o povo, dividido, continuará perdido.

quinta-feira, maio 05, 2011

Ensaio sobre a subversão necessária (Sobre lucidez)



Em verdade, uma acção destas é mais importante que o que pensamos.
Porque não pensamos.

Apropriarmo-nos do espaço público (mesmo que fabricado para servir o capital habitual... -o económico) implica investimento mas sempre lá acaba por causar danos.
E tão maiores são esses estragos se e quanto maior e numerosa essa apropriação.

É sobre esses estragos que vimos (tentando que comecemos a ver-) reflectir um bocadinho hoje.


1. - O sujeito

1.1 - A partilha

As experiências colectivas dão-lhes existência maior.
Simplesmente porque mais pessoas a viveram.
E, como somos e existimos em relação com os outros, somos mais vivos.

1.2 - A memória

A vivência colectiva cria sensações.
E as sensações vividas em conjunto, criam uma memória mais perdurável que a apenas baseada nos conceitos que se incorporam de fora para dentro.
As expressões do corpo, ouvidas ou vistas, vão no sentido contrário: de dentro para fora.

2. - O meio

O meio existe como um espaço apropriável.
Não tem emoções, não tem forças nem fraquezas.
As vibrações não são por ele causadas: absorve-as e retransmite-as.
Mas não é neutro: tem condicionantes.
Quem tem emoções e forças, quem as extrai e as sente, ou quem as porta, de uns para outros lados, são as pessoas.
As pessoas podem escolher ser neutras, simplesmente passando, distraídas do que estão a viver.
Ou podem escolher - se a isso se levarem ou forem levadas - não ser indiferentes: tropeçando, parando para escutar e observar. Para sentir e repercutir essas sensações em si mesmas e no que as rodeia.

Os espaços são seres inanimados aguardando a nossa animação (a nossa alma, portanto) e criatividade.
Os espaços são repositórios das nossas esperanças e aspirações de existência.
Os espaços são manifestações do poder de quem os faz, fez ou fará.
Também por isso não são neutros: transmitem e simbolizam poderes e valores.

Esta actividade estava marcada / agendada / prevista?
Foi pedida autorização? (Vêem-se baias de separação, no topo, junto às escadas...)
Se sim, a partir do momento em que se acharam no dever de a pedir, automaticamente se auto-censuraram no seu poder puro e independente.

Acaso as massas que vão ao futebol pedem permissão aos polícias para passar rumo aos estádios?
Depende por onde, sim.
E a simples presença da polícia - que vigia e, portanto, age com a força coerciva que entidades lhes atribuíram (temos de questionar essas entidades e temos de nos questionar, porque o poder passa sempre por o aceitarmos) - está já a condicionar a própria acção do ser livre, espontâneo.
Estão ao serviço de quem?

Contrastar com
(vulgo "igual Vs. diferente") :

Acaso aos automobilistas lhes é pedido que não atravessem as estradas que foram feitas para atravessar?
A quem pertencem as estradas? e a quem pertencem os automóveis?
A quem pertencem as vidas dos automobilistas?
Estão ao serviço de quem?


1+2=3

Esta interacção sujeito-meio, criativa, viva e alegre, é a mais-valia que não explora nem um, nem outro: está ao nosso serviço.
Não se paga, não se compra, não se vende.
E quem não paga, não se compra, não se vende.
O dinheiro não entra aqui: as relações são humanas, não comerciais.
As trocas são directas: as ficções não se interpõem entre nós.
Sabemos e sentimos com o que contamos e fazemos.

As manifestações públicas (sobretudo as artísticas) são doenças para quem as transmite e para quem a elas se expõe.
São doenças contra a saúde amesquinhante imperante.
Amesquinhante do ser humano e da sua capacidade para ser mais justo e fraterno para com o que o rodeia, para com os que o rodeiam.

A tónica desta subversão da normalidadezinha petrificante está simplesmente em quebrar, agora e sempre, o ciclo afastador de nós mesmos que é criado pelas maiores violências que afligem o homem:

a indiferença (e, portanto, o silêncio),
a desmemória (e, portanto, a desorientação),
a solidão (e, portanto, a distância),
a incompreensão (e, portanto, o medo).

Provocar é um acto de amor.
Provocar é contrário à morte e à não existência.
É uma saída do beco que somos sem o outro.
É uma explosão do beco que somos sem o centro (o coração).
Existir é existirem em nós e fazermo-nos existir nos outros.

Como as palavras são doenças humanamente transmissíveis, a memória e a vida estarão sempre contra os totalitarismos.
Totalitarismos, que, por desleixo, facilmente vamos semeando em nós e à nossa volta.

A praça só faz sentido se for pública.
Se for usada e apropriada - através das vivências, individual ou colectivamente - pelos nossos corpos vivos e activos.

A vida é, em si mesma e já, um manifesto.
Estejamos à sua altura e sejamos homens.


Porque,
afinal de contas...
não é isto a utopia (um espaço que erguemos acima e para além de nós mesmos)?

A Natureza é tão bonita, caramba!...

Conjunto Maria Albertina - "O Emigrante" (EP, data ignorada)


Uma equipa de geólogos estrangeiros estará no próximo sábado, em Valongo, para estudar vestígios de formações geológicas existentes na Serra de Santa Justa, datadas do período do Ordovícico – na escala de tempo geológico, corresponde à Era Paleozóica. Estas formações retratam geologicamente Valongo há 490 milhões de anos, altura em que o território era ainda parcialmente coberto por mar.

Segundo os especialistas participantes, “estas formações, visíveis sem recurso a escavação, são únicas no mundo, sendo por isso um testemunho fundamental para estudos realizados e teorias formadas acerca do assunto”.
Os investigadores, provenientes dos mais diversos países como Rússia, Austrália, China, EUA, República Checa, Reino Unido, Espanha, Dinamarca e França, estudarão formações geológicas existentes no território de Valongo, mais propriamente na Serra de Santa Justa e Pias.

Em vésperas do simpósio internacional que se realizará em Espanha, especialistas provenientes da Rússia, Austrália, China, EUA, República Checa, Reino Unido, Espanha, Dinamarca e França estarão então em Valongo, na Serra de Santa Justa.

Os vestígios do período Ordovícico – durante o qual ocorreu o apogeu das trilobites –, existentes na Serra de Santa Justa e Pias, têm suscitado o interesse dos especialistas nacionais e internacionais.

Em 1994, a Câmara Municipal de Valongo, em colaboração com o Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto decidiu arrancar como projecto do Parque Paleozóico de Valongo, dedicado à importância do património geológico existente na Serra de Santa Justa.


Notícia via CiênciaHoje