segunda-feira, março 28, 2011

É a economia estúpida (sem vírgula nem ponto de interrogação)

Pongo en tus manos abiertas (Lp, 1969, Víctor Jara)


Todo o ser vivo, entidade ou instituição trabalha para a sua sobrevivência.
Na família, os pais educam os filhos à sua maneira, conforme o que acham que é mais correcto: isto é, pretendem dar continuidade, nos filhos, aos valores dos pais.

A sociedade enche-se de símbolos e agentes que pretendem perpetuar as suas formas de pensamento e funcionamento.

Uma empresa pretende atingir o sucesso e crescer.

Um sistema, seja ele qual for, político, económico, age à mesma maneira.

As ideologias - religiosas, económicas, políticas ou outras - pretendem manter-se pelo tempo. Através dos seus fiéis e seguidores.
Para que os seus seguidores o sejam, dando-lhes continuidade, é preciso que creiam nos valores que esses "sistemas" defendem, estimulam, propagandeiam e fazem reproduzir.

Uma pergunta se coloca, a todo o momento:
Quem sai beneficiado com a "saúde" do sistema (funcionamento e reprodução)?
São as pessoas?
Todas?
A maior parte delas?
Só algumas?
Sejam quais e quantas forem, certo é que elas têm todo o interesse em controlar o "sistema", impedindo-o que se auto-destrua.

.....

Qual é o mecanismo de funcionamento do Monetarismo para além da auto-perpetuação?

Será a sustentabilidade? A eficiência?

Nada produzido numa sociedade baseada no lucro é sustentável ou eficiente.
Se fosse, os aparelhos electrónicos teriam que durar muito mais tempo funcionais ou até se tornarem obsoletos.

Será a abundância dos recursos?
A abundância, em termos e oferta e procura, é na verdade um termo negativo:
se uma empresa mineira descobre dez vezes mais diamantes do que o costume, isso significa que a oferta de diamantes sobe, o que significa que o custo em lucro por diamante decresce.
Por isso os destroem.

(Não vimos, com as políticas económicas da PAC, os agricultores a despejar leite nos rios, a descarregar laranjas e tomates nos campos? - é disto que se trata.

Se os fornecêssemos a quem não os pode comprar, aqueles que os podem comprar reclamariam também direito sobre eles.
Portanto, isso não pode ser.
Logo, nem comem os que têm fome, nem os que não passam fome.

Tudo porque os produtores dos alimentos - no caso - precisam do dinheiro que receberiam por eles. Acham que estão preocupados com os esfomeados?
Até podem estar, mas isso não tem consequências úteis.
A utilidade mede-se em possibilidade de reduzir a dívida que lhes pesa no lombo.)


Isto significa que a sustentabilidade, a eficiência e a abundância são INIMIGAS do lucro.
Por outras palavras, o lucro deriva da escassez (e a pobreza é uma forma extrema de escassez).

Portanto, a sustentabilidade e a abundância nunca acontecerão num sistema baseado no lucro.
No Monetarismo.
O sistema em que todos vivemos.

O Monetarismo é controlado por quem?
Por aqueles que produzem a moeda.
Quem são aqueles que produzem a moeda?
Os bancos.
A partir do quê produzem eles a moeda?
Do nada.
Porque é que produzem a moeda?
Cedem-na aos governos dando-lhes crédito de que um dia esse valor, saído do nada, seja devolvido. Acrescido, claro está e ainda por cima, com um juro.

Se todo o dinheiro vem dos bancos, como é que é possível os governos pagarem todo o dinheiro que pediram emprestado mais a taxa de juro devida?

Não é possível.
É matematicamente impossível.

Impossível.


E repetimos, para quem ainda não compreendeu:
Impossível.

Voltamos a repetir:

IM-POS-SÍ-VEL


(ainda vos lembrais da equação acima?
Existe x dinheiro, criado pelos bancos, que esperam reavê-lo com a soma do juro: x+y.
Se x é todo o dinheiro que existe, onde é que vamos buscar y?
- Ah, os bancos produzem mais dinheiro.
Pois, repetindo o processo e iludindo-nos, adiando a resposta, que não existe.
E é esta produção ulterior de dinheiro que o desvaloriza a si mesmo. Como é que se chama a este processo?)


Assim, a dívida é a forma de manipulação de massas.
A forma mais avançada de sempre que o homem soube criar até hoje.
A manipulação das massas que têm de trabalhar para ganhar dinheiro. E que para ganhar dinheiro têm de competir. Não importando quem está a seu lado: cada um trata de si.

Assim, à semelhança das empresas, o Monetarismo tem fabricado em cada humano uma empresa que apenas visa o lucro. Que apenas visa o lucro porque é do lucro que depende para sobreviver, para se auto-perpetuar.

Por isso, as empresas e os humanos que agem à maneira de empresas, tomados uns e outras pelo pensamento único do Monetarismo, não se importam com as consequências sociais ou ambientais das suas acções.

Destroem tudo o que for preciso e assassinam quem for preciso.
O sistema inquestionável do Monetarismo tem virado todos contra todos.
Com guerras e pobreza, as formas de controlo e domínio dos mais fracos.

Com assassinatos, como o que fizeram a Víctor Jara.
Vejam quão subversiva pode ser uma pessoa que diz e canta o direito de viver em paz. Assassinado pelo regime de Pinochet, um dos muitos ditadores postos ao serviço do lucro de uns quantos.

Tem sido assim desde há alguns anos. Há demasiados.
Mas, como vimos, a sua forma de funcionamento não é infinita, não é sustentável.
Isto não pode ser sempre.
Isto não vai ser para sempre.


...


A escravatura física requer que os escravos sejam alimentados e alojados.
A escravatura económica requer que as pessoas se alojem e alimentem a elas próprias.

E em situação de fragilidade, de vítima da violência, seja através do medo que as religiões instituem, seja através da pobreza que as empresas e agentes financeiros impõem, é impossível que o comportamento humano seja ético.

O interesse é o divórcio do ser humano de si mesmo. Se não se ajudar a si mesmo... caminha para a extinção. E mais rapidamente se andar a matar-se entre si.

O interesse é a negação do ser humano.
O interesse é o que se interpõe entre uma pessoa e outra quando o interesse não é a PRÓPRIA pessoa.
O interesse, o LUCRO, é a vantagem que querermos tirar do outro que é igual a nós.
Ligeiramente diferente:
O interesse, o LUCRO, é o querermos tirar vantagem do outro, que é igual a nós.


E todo o trabalho que não desmonte esta forma perversa de funcionarmos e sermos, todo o trabalho que não destrua os preconceitos e o desentendimento entre os homens está a ir no sentido errado.
Está a conduzir-nos à destruição e à dos meios para a sobrevivência.
O planeta.

É isto sustentável?

Não temos TODAS as dúvidas.
Uma é suficiente.

sexta-feira, março 25, 2011

Ridículo (diferente de "risível")

Imagem de uma cidade fantasma.
Retirada daqui.


"As centrais nucleares são obras-primas da Ciência e da Engenharia do Séc. XX. Desde que existem, há 56 anos, ocorreram três acidentes graves: Three Mil Island (TMI-EUA, 1979), Chernobyl (URSS, 1986) e Fukushima Daiichi (Japão, 2011). No entanto, nem TMI nem Fukushima, até agora, produziram qualquer morte ou caso de doença aguda. Em Chernobyl, a libertação de radioactividade causou 62 fatalidades. Dos 134 heróis que em Chernobyl enfrentaram as doses maciças de radiação (6000 milisieverts), acabaram por falecer 28 nas semanas que se seguiram ao acidente e mais 19 nos 20 anos seguintes, embora não por causas atribuíveis ao acidente, tendo sobrevivido 87. Dos 6 mil casos de cancro da tiróide infantil, contraídos por não ter havido distribuição de pastilhas de iodo, 15 resultaram em morte. Não foram detectadas outras consequências nas populações sujeitas à passagem da nuvem radioactiva.
Em Chernobyl, nem o tipo de reactor nem os sistemas de segurança se assemelhavam aos do mundo ocidental, incluindo Fukushima. Não havia confinamento de aço, a que se sobrepõe um outro de betão. Foi por isso que a explosão, motivada pelo sobreaquecimento, projectou o conteúdo do reactor na atmosfera, tendo o reactor ficado a arder 10 dias a céu aberto. Nada disto aconteceu em Fukushima.
Para comparação, durante os últimos 50 anos houve vários rebentamentos de barragens hidroeléctricas, dos quais os mais mortíferos foram um na Itália que matou 2 mil pessoas (Vajont, 1963) e outro na China (Banqiao, 1975) que matou 170 mil!...
A centrall de Fukushima Daiichi, a mais antiga do Japão, foi projectada na década de 1960 e os seus seis reactores instalados durante os anos 1970. É do tipo que se usou no início da energia nucelar, de "água ebuliente". O violento cataclismo natural que se abateu sobre o Japão matou pelo menos 17 mil pessoas. Mas nenhuma foi vitimada pelo acidente nuclear, ao contrário do que aluns média alarmistas tentam fazer crer, ao colocarem o número de mortos causado pelo tsunami em subtítulo das notícias sobre o acidente nuclear...
Foi preciso um tsunami gigantesco, após um terramoto cataclísmico, que afectou 15 reactores nas quatro centrais da costa leste do Japão, para que quatro reactores, de uma central de seis, avariassem gravemente. Todas estas centrais tinham sido concebidas para serem imunes a tsunamis com ondas até 5,7 metros de altura. Este tinha dez metros e os serviços auxiliares das centrais foram inundados. Felizmente, é cada vez mais provável que o acidente de Fukushima acabe tão inócuo para as populações como o de Three Mile Island. É altura de iniciar o debate. Terminada a actual crise e analisadas as suas consequências, assistiremos, sem dúvida, ao renascimento da energia nuclear civil."

Pedro Sampaio Nunes, engenheiro, especialista em energia.
Visão, 24.3.2011, p.90


Uma opinião a favor do nuclear, num artigo sobre os perigos e receios do acidente da central de Fukushima, torna-a - a esta opinião - num momento de um ridículo gritante que não suscita qualquer riso. Apenas alguma raiva, quanto muito.

À Visão, e aos autores do artigo, Isabel Nery, Luís Ribeiro, Paulo Chitas e Sara Sá, não posso deixar de agradecer tal opção. Penso que não tiveram consciência disso, mas é isso que paira após a leitura de algo assim com um tal enquadramento. Num padrão de matizes verdes lá vem um vermelho gritante e ainda querem que fiquemos indiferentes, não?

Se tivessem tido consciência dessa, digamos, reacção nos leitores CONTRA o nuclear, e se, com ela, o tivessem feito deliberadamente (o que implica, portanto, dar opinião; o que corrobora, portanto, que a neutralidade é muito difícil, quando não impossível) ainda mais agradecia aos redactores do semanário.

Queria só acrescentar que - julguem por vós próprios - a opinião deste senhor, engenheiro, reflecte muito a mesma ética que tem servido para esventrar a Terra e dividir os homens em gananciosos e indiferentes, em decisores e acatadores das decisões, em poderosos e submissos.

Em superiores e inferiores.
Isto, num mundo em que pensávamos que todos éramos humanos.

Ah, mas uns são mais humanos que outros...!
Quais dos dois são eles?
Os que morrem pela Terra, os que vivem na Terra, os que vivem da Terra, e não da exploração da fraqueza dos outros.

"Quem escolhe ser assim,
quando chegar ao fim
vai ver que errou o seu caminho.
Quando a vida é hipotecada,
no fim não sobra nada
e acaba-se sozinho."

E estando no mesmo mundo, no único que temos, poderemos viver sozinhos?
Podemos continuar a conviver com pessoas que põem em causa a convivência?

Não será isto um caminho insustentável?
Mesmo antes das consequências: no plano das ideias, à partida - Será isto sustentável?
Porque temos aguentado até aqui, isso serve-nos de resposta, tranquilos,?

Sim, mas quantas mortes, quantas destruições, quantos estropiamentos podemos continuar a suportar?

"How many years can some people exist,
before they're allowed to be free?"

Quantas violências, quantos atropelamentos, quanto desrespeito pela vida?

Não nos obriguem a sermos como vós.
"Não me obriguem a vir para a rua gritar."

Ou a coisa vai mesmo acabar mal.
Muito mal.


quinta-feira, março 17, 2011

Portugal Provisório...

Tantofazização de Portugal

Jeronimização de Portugal

Éfêmização de Portugal

Merkelização de Portugal

Albanização de Portugal

(...)

(etc., etc.,...)

quarta-feira, março 16, 2011

Os generais do sistema perfeito

No sistema perfeito, também os polícias estão tomados.

Se um dos grupos económicos dominantes pagasse à Polícia (entidade) para assegurar que podiam fazer o seu trabalho habitual, isso levantaria uma questão ética: estaria a comprar a Polícia, ou seja, a torná-la uma agência privada.

Mas isso é que era bom!

Pelo que ouvi, e creio ter ouvido bem, foi a própria Polícia a escoltar os camionistas do grupo.
A polícia vai de bom grado: tão zeladora que ela é...

Mas então... o que é que isto quer dizer?

Quererá isto dizer que uma entidade que é pública está a fazer um serviço privado?
Num sistema perfeito, deve ser isso.

E diz que é por razões de segurança.
Pois claro que é por razões de segurança.
E porque é que se fazem greves? Não será também por razões de segurança?
Ah...! e que polícia é que vem apoiar os grevistas?

A raiva nasce da impotência e do vazio.

Dêem-lhes isso, tirando-lhes tudo: a vida digna.

Depois (só) eles é que são violentos.



No sistema perfeito, os centros das cidades são esvaziados de pessoas para que quando comece o novo dia de trabalho, milhares e milhões de pessoas por esse mundo fora, que neles não cabem (e que deles são expulsos por várias razões... económicas é forma de calar-nos a todos!) a eles se dirijam. Para quê?

Ora, no sistema perfeito, saem beneficiados os que vendem e controlam o petróleo e os transportes.

No sistema perfeito, há governos que dizem querer melhorar o ambiente e reduzir a dependência do petróleo, mas que têm todo o interesse em que se consuma. E quanto mais caro, mais dinheiro recebem. E quanto mais combustível, melhor.
Até acabar.

No sistema perfeito, os governos querem evitar a especulação imobiliária e o desordenamento, mas fazem consórcios com empreiteiros e ainda por cima (aqui a perversão está à vista, na lei) recebem dinheiro pelo número de habitantes que a sua área de jurisdição tiver.
E quantos mais, mais recebem.

Até acabar.


No sistema perfeito destruímos as casas de quem protesta. Para que quem protesta fique de tal modo enfraquecido e sem poder que não consiga protestar e lutar por um sistema menos perfeito.

No sistema perfeito, as massas saem a perder.
Sempre.
Até acabar.
Até acabarmos com o sistema perfeito.

terça-feira, março 15, 2011

Compor o ramalhete...

Projecto de Regularização, Renaturalização e Ordenamento
da Zona Ribeirinha do Rio Este”

Nova vida do Rio Este começa agora!


A Câmara Municipal de Braga inicia esta terça-feira (15 de Março) os trabalhos de “Regularização, Renaturalização e Ordenamento da Zona Ribeirinha do Rio Este”, curso de água que atravessa a zona urbana de Braga.


Adjudicada à empresa “Arlindo Correia & Filhos, SA” por 2 348 960 euros, a empreitada, que tem um período de execução de 548 dias, é financiada a 80 por cento por fundos comunitários, no âmbito do programa regional “ON 2”.
O “Projecto de Regularização, Renaturalização e Ordenamento da Zona Ribeirinha do Rio Este” incide no troço mais urbano desta linha de água, entre a Avenida Frei Bartolomeu dos Mártires e a Ponte Pedrinha, numa extensão aproximada de 2,9 quilómetros.
São seus objectivos a reabilitação e requalificação ambiental da bacia do Este, o que vai influenciar positivamente a qualidade da paisagem e a promoção do estabelecimento do ecossistema ribeirinho.
«Mediante o ordenamento da área de intervenção pretende-se também promover a utilização dos espaços ribeirinhos pela população e transformá-los num importante elemento estruturante e amenizador da paisagem», sublinha Ilda Carneiro.
Estão, assim, contempladas algumas intervenções para melhoria pontual das condições de escoamento, nomeadamente a limpeza e desobstrução do leito e margens e a redefinição de secções transversais.
As soluções propostas relativas ao ordenamento da zona ribeirinha compreendem, entre outras acções, a criação de uma via ciclável em percurso contínuo, o que melhora a acessibilidade, a segurança e o conforto dos utentes ao longo desta linha de água.
Compreende igualmente a substituição do revestimento do leito (fundo e margens) e a plantação de vegetação ribeirinha, requalificando o “corredor fluvial”.
Prevê-se ainda a criação de vários “planos de água”, através da construção de pequenos açudes, de forma a criar um corpo de água permanente.
No âmbito da intervenção está prevista a concessão de dois espaços destinados a café-bar, com esplanadas voltadas para o rio, localizados nas áreas verdes das ruas Machado Vilela e Armando Lira (Ponte Pedrinha).
Contemplada está igualmente a criação de percursos temáticos, de carácter pedagógico, que tirem partido da relação entre a distância percorrida a pé ao longo da via principal, para a relacionar com outras distâncias, como as do sistema solar ou as percorridas pelos navegadores portugueses.
São consideradas ainda algumas intervenções pontuais, como o tratamento e encaminhamento da descarga do colector da Avenida da Liberdade, os muros em alvenaria em Santa Tecla, e a limpeza e desobstrução de levadas na Zona dos Galos.
O projecto de execução contempla ainda um plano de monitorização, que consiste essencialmente na implementação de marcas de cheia, na medição de caudais e na monitorização contínua da qualidade da água.
O rio Este nasce na Serra do Carvalho, a uma altitude de 512 metros, na zona de transição entre os concelhos de Braga e Póvoa de Lanhoso, percorrendo cerca de 52 quilómetros desde a nascente até à sua confluência com o rio Ave, dos quais 23,9 quilómetros se localizam no concelho de Braga.


Comunicado aos munícipes.


Ah... já estava a ver que iam demolir os prédios que a CMB aprovou até agora (até agora, porque já não resta mais espaço...). Que alívio...


As obras e as monitorizações são necessárias.

Mas, obviamente, tinha de haver uma concessãozita qualquer a actividades comerciais relacionadas com a intervenção - estranharíamos se assim não fosse no reino da promiscuidade (público e privado, betão e qualidade...)

A maquia é gira: a desculpa do costume é a de não sermos tecnocratas, e não podermos argumentar sobre é excessiva.
Se ainda puder, talvez até derrape.
Estas coisas gostam muito de derrapar..

segunda-feira, março 14, 2011

O sistema perfeito

- No sistema perfeito, as manifestações têm de ser marcadas com x dias de antecedência: podeis manifestar-vos à vontade, - parece dizer - sois livres.

- Não foi avante o chip nas matrículas porque alguém, na loucura do seu juízo, defendeu que isso seria uma intromissão na liberdade mais básica e que, assim, poderia saber-se precisamente onde estava àquela hora x.
Mas com os pagamentos indevidos (abusivos) das ex-scut (até familiaridade atribuímos a isto...), sabem quando e onde entras, têm radares para saberem onde vais, calcular a tua média de velocidade e aplicar-te multas se vieres com essas histórias de que: a) não eras tu que ia naquele carro; b) o teu carro estava a ser rebocado; c) (inventem)

- No sistema perfeito, os beneficiários das decisões não correspondem aos que sofrem os efeitos negativos destas: as barragens expulsam populações e destroem espaços, memórias e vida? Tanto se lhes dá: o dinheirinho que vão ganhar com a electricidade que vais consumir, com os "postos de trabalho" que vão criar.... (Onde é que já se viu isto, ganhar dinheiro com a criação de postos de trabalho? Ah, quando quem os cria explora aqueles "coloboradores"...)

- No sistema perfeito aceitamos correr o risco de uma... de todas as explosões nucleares que venha a haver - quem decide que vale a pena não é quem as quer (às centrais nucleares, à energia destruidora, à - óbvio - fuga radioactiva) e quem terá de morrer por elas. Porque no sistema perfeito, a decisão não está nas mãos de quem sofre com as decisões. Já viram o que era se fosse ao contrário? Assim não podia ser e este é o sistema perfeito...

- No sistema perfeito aumentam-se os preços dos produtos locais, destrói-se a produção local, importam-se produtos de muuuuito longe, que ainda por cima são bem mais baratos e dá muito jeito com tanto custo de vida. Quem fica a ganhar são os transportadores e as petrolíferas, requeridos sine qua non.

- No sistema perfeito, esses países exportadores de produtos de mau pagamento pelo seu trabalho, esforço e vidas nem podem piar, pois tudo depende dos distribuidores mundiais, que estabelecem os preços... E.... mais vale mal pago que retirarem-nos a miséria que nos pagam pelo que produzimos.

- No sistema perfeito, transportes, meios de comunicação, energias, governos, escolas, drogas e fugas, curas e doenças pertencem a mãos familiares e seguras, onde não se correm riscos de se tomarem decisões que podem deitar tudo a perder ou à desvalorização das acções ("O país x "desvalorizou" hoje x por cento e os "mercados" estão a reagir... blá blá blá.")
("Não sabes gerir um país, seu estúpido! Eu disse que era nesta tecla, não naquela! Em que universidade é que tiraste o curso?")

- No sistema perfeito, criam-se exércitos de excedentários e de resignados que estarão dispostos a tudo para sobreviver. Porque no sistema perfeito não é descurado o instinto de sobrevivência: o homem reduzido à sua essência orgânica, desindivudualizado, des-socializado, etc. HOMEM?
(Animal.)

- No sistema perfeito, os não-consumidores são abandonados ("Eu compro, logo existo") em lares e casas vazias, longe dos olhares que vêem e só querem ver que tudo está bem e que o futuro está a ser acautelado em caixas de aforro e filhos que crescem depois de os irmos buscar à escola com engarrafamentos à porta e miúdos desesperados ao telemóvel.

- No sistema perfeito, os direitos são uma submissão: "Temos direito a..." Sim, mas se temos direito a, quer dizer que alguém, superior, está lá para no-los conceder ou consentir. No sistema perfeito, mesmo na luta pela dignidade estamos a perdê-la.

- No sistema perfeito, ensinam-nos a dependermos das tecnologias, desde o berço até à cova. Porque no sistema perfeito, toda a tecnologia está ligada a computadores centrais que não estão nas nossas mãos e que, caso nos revoltemos contra a máquina, poderão ser desligados e transtornar a vida "tal como a conhecemos. E nós não queremos isso, pois não?"

- No sistema perfeito, qualquer tentativa de denegrir ou atacar o funcionamento do sistema, que é perfeito, será neutralizada mediante o apagamento, a desmemória, a confusão e a morte dos inimigos do sistema perfeito.

- No sistema perfeito, as canções que se ouvem e os textos que se lêem para preencher as frinchas do tempo em que pudermos estar a pensar no sistema e em nós nele são inócuas, insípidas, insensibilizadoras, inodoras e insossas. São folhas brancas que não escrevem nada nem deixam escrever: porque são perfeitas e feitas à imagem e semelhança do sistema, perfeito também.

- No sistema perfeito, as vozes só podem crescer mediante amplificadores que não pertencem às vozes que querem falar.

- No sistema perfeito, nós não lemos, nós não escrevemos, nós não pensamos, nós não entendemos, nós não contestamos isto mesmo que estamos a ler. Porque no sistema perfeito, isto que estivermos a ler, está escrito num meio que não nos pertence mediante caracteres e ideias com ideias que não se coadunam (por isso são ininteligíveis) com tudo o que todos os dias nos ensinam a todos.

E porque felizmente vivemos no sistema perfeito, isto vai ser apagado não tarda muito ou não vai ser apagado de todo: o sistema é que decide o que é melhor para ele e para nós.

Amén, Perfeitismo.

sábado, março 12, 2011

Pronto...

quarta-feira, março 02, 2011

Escopofilia (Sitiações na Cidade)

Cairo, Fevereiro de 2011
(Imagem retirada daqui)


Cold hearted orb that rules the night
Removes the colours from our sight
Graeme Edge


Entre o mundo e a imaginação há um mundo que nos é negado e uma imaginação de que vamos sendo expoliados. Actores e autores (palavras que, já agora, têm a mesma raíz) do nosso empobrecimento, passivos e activos.

Precisarmos de ver o mundo para estimular-nos a entrar no mundo é já uma perda da mente.
Se quiserem, uma perversão da mente humana.
Estimularmo-nos à mínima noção de realidade, então, traduz uma destruição grave da mente. Maus-tratos para com a capacidade humana de imaginar e sonhar.
E essa violência sofrida reside nas aspirações que nos são cerceadas, negadas e sonegadas.


A perversão em pessoa (dentro de nós) diz-nos que é difícil passarmos pelo buraco da agulha, camelos no deserto de humanidade que estamos a ser. Assim, o que nos excita parece ser suficiente. E o que nos excita é o orifício por que olhamos (por que nos olhamos e não vemos) ser tão pequeno e mesquinho.

Babamo-nos com as capas das revistas e o desfile das futilidades, pensando:
- Ah... quem me dera ser fútil.
Escorre-nos saliva pelos beiços ao invejarmos o poder dos ricos e dos corruptos (não pedimos desculpa pelos pleonasmos), magicando de que atoleiro sairia a nossa vida se atingíssemos o orgasmo do dinheiro...

Mas ei-lo que surge: é um fantasma, espectral, junto ao vidro:

As revoluções do homem na rua, o Street Fighting Man rollingstoniano que vemos nas praças do lado de lá...
- Estamos quase lá, quase lá...!!!
... são aquilo que queremos realmente fazer cá.

A televisão estimula, é certo.
Mas, como todo o desejo contém em si a sua auto-destruição, a televisão acaba por amaciar, abrir a tampa da panela que os poderes unificado e unilateral têm cozinhado.
Connosco na panela sobreaquecida...

Deixemo-nos de nos despedir de nós mesmos.
Ou continuaremos a cair num vazio de nós mesmos.
Ficaremos cada vez mais do lado de fora, pobres e solitários a quem até a imaginação e a capacidade do amor humano nos foram roubados para vender.
Queremos tomar-nos de assalto e os interlocutores comerciais que tomaram conta de nós ainda exigem que lhes paguemos!
Que as revoluções trazem muitos inconvenientes (subida dos preços, crises políticas... e demais ameaças e violentações simbólicas quotidianas, propaladas pelos média, produzidas pelo poder instituído...




Yo no sé muchas cosas, es verdad.
Digo tan sólo lo que he visto.
Y he visto:que la cuna del hombre la mecen los cuentos,
que los gritos de angustia del hombre los ahogan con cuentos,
que el llanto del hombre lo taponan los cuentos,
que los huesos del hombre los entierran los cuentos,
y que el miedo del hombre...
ha inventado todos los cuentos.


Poema de León Felipe, interpretado pelos Aguaviva
(Lp Cada vez más cerca, 1970)



Os soldados também são (vão sendo...) homens, iguais e tão pouco livres como os que os confrontam. (Imagem retirada daqui)


Temos direito a ser felizes e queremos ser dignos.
Exigimos que nos deixeis em paz!
Somos pessoas, sabíeis? Temos vontades e aspirações...
Temos necessidade de futuro.

Seus poderosos porcos e perversos, que usais toda a força (sofisticada e bruta) para nos dividir, com vossos "eus-telefones", com os vossos "meus espaços", com os vossos "eus-googles" e toda a treta que fazeis passar por nossa, mas que é vossa e só vossa - porque é para vós que vai o dinheiro.

Tende cuidado, que o dinheiro não é a única forma de poder.
Tem sido a maior, mas não conseguireis destruir a nossa cidade...

Tende cuidado.
Porque o capitalismo sempre teve como a própria estrutura a auto-destruição, de tão perverso e contra-natura que é...

terça-feira, março 01, 2011

Paul Claval em Guimarães

Paul Claval

Terra dos Homens: a Geografia

9 de Março de 2011 - 15:00

Universidade do Minho, Azurém, Guimarães

C2.36


Paul Claval (1932-) é um geógrafo francês, professor emérito da universidade de Paris IV-Sorbonne. Interessou-se pela Geografia económica nos anos 50, pelo trabalho de economistas espaciais, e trabalhou com diversas orientações da Nova Geografia durante os anos 60. A partir dos anos 70 dedicou-se à Geografia cultural, realizando diversos trabalhos considerados como pioneiros na disciplina, procurando sempre mais os processos económicos, sociais e políticos do que a descrição geográfica. Em 1992 fundou a revista Géographie et cultures, e em 1996 ganhou o prémio Vautrin Lud, um equivalente na Geografia ao prémio Nobel.

Com uma obra vastíssima – composta por cerca de 40 livros e centenas de artigos –destacam-se os livros Principes de géographie sociale (Princípios de Geografia Social, Genin et Litec, 1973); Espace et pouvoir (Espaço e Poder, PUF, 1978); La Logique des villes - Essai d’urbanologie (A lógica das cidades, Litec, 1981); La Géographie Culturelle (A Geografia cultural, Nathan, 1995); Histoire de la géographie française: De 1870 à nos jours (História da Geografia Francesa: de 1870 aos nossos dias, Nathan, 1998); Epistémologie de la géographie(Espistemologia da Geografia, Nathan, 2001); La Géographie du XXIe siècle (A Geografia do século XXI, L’Harmattan, 2003); Géographie régionale - De la région au territoire (Geografia Regional – da região ao território, Armand Colin, 2006).

Em Portugal publicaram-se alguns livros de Paul Claval que tiveram grande difusão e sucesso: A Nova Geografia (Almedina, 1982); Geografia do Homem – Cultura, Economia e Sociedade (Almedina, 1987); e já mais recentemente História da Geografia (Edições 70, 2007); e A Construção do Brasil - Uma grande potência em emergência (Piaget, 2010).

Orador convidado do Departamento de Geografia em 2002, para as IV Jornadas de Geografia e Planeamento, esta é a segunda visita de Paul Claval à Universidade do Minho. Nesta palestra, Paul Claval propõe-se falar do seu mais recente livro, publicado no Brasil (Editora Contexto) no final de 2010: Terra dos Homens: a Geografia. A obra divide-se em quatro partes: ‘A Geografia como prática’; ‘A Geografia como experiência do espaço e dos lugares’; ‘A Geografia como ciência: a contribuição dos gregos e a sua reinterpretação na Renascença’; ‘A Geografia como ciência: a Geografia moderna e as suas mutações’.


Info: www.geografia.uminho.pt

sábado, fevereiro 26, 2011

Quem ouve o homem?

Um ano depois, em entrevista à RTP, Raimundo Quintal fala-nos do que esteve e continua a estar errado (na Madeira, mas não só).

E também fala do que pode estar certo.

Basta seguir esta ligação e vale a pena.

(a ver quanto tempo fica disponível...)

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

A taxa de lucro é historicamente decrescente

Se o fundamentalismo do crescimento
que dirige actualmente o mundo continuar nesta via,
justificará um fundamentalismo naturalista
que considera a
indústria como o Mal.” *
Bernard Charbonneau


Isso cumpriu-se assim, ainda que tenha havido fenómenos que o foram ocultando ou contornando, como o processo de internacionalização do capital, o fenómeno das multinacionais e o aproveitamento do desenvolvimento desigual entre espaços sociais e económicos diversos do planeta, tudo isso abençoado pelo fenómeno recente da globalização... mas quando se estudam os dados descobre-se que a lei de ferro da tendência constante à queda da taxa de lucro funcionou inexoravelmente como tal.**


Novo paradigma económico e civilizacional.
Não o do decrescimento intencionado ou racional ou planificado (isso é que era bom: era o Homem e as sociedades humanas a assumirem o controlo...), mas, sim, obrigado pelas circunstâncias.
Sendo a mais premente a do esgotamento dos recursos naturais.


Título: Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno
Edição Original: Petit Traité de la Décroissance Sereine (2007)
Autor: Serge Latouche
Tradução: Víctor Silva
Edição: Janeiro de 2011
Editora: Edições 70
ISBN: 978-972-44-1646-5
Paginação: 160 páginas


A ideia**, sintetizada aqui, vai a par (o que é diferente de "ir ao encontro") do recente ensaio de Serge Latouche que hoje vos trazemos e do qual reproduzimos a epígrafe* acima.

Diversidade cultural como pão prà boca



O filme promocional da Capital Europeia da Cultura, apresentado no domingo, na sessão de apresentação da primeira versão do programa do evento em 2012.
Ao longo de pouco mais de três minutos é aberto o livro sobre aquilo que a Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura vai mostrar aos vimaranenses e aos milhares de visitantes que são esperados na Cidade Berço.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

As ribeiras são corpos vivos

"Numa primeira fase, concordei que se tivesse escolhido a praia para fazer o depósito provisório da pedra e da areia transportada pelas ribeiras. Simplesmente, esses inertes foram ficando. Continua a destruir-se a paisagem lindíssima da Madeira para extrair mais pedra, quando se podia usar a que está ali. Foi por isso que aderi ao cordão humano. Esta foi a primeira vez que os madeirenses vieram para a rua sem haver um artista convidado ou espetadas - vieram em defesa da baía do Funchal."


Raimundo Quintal, numa curta (curtíssima) entrevista à Visão, que aparece na edição de hoje, dia 24.2.11, p.88

Ouvir também uma entrevista que o geógrafo deu à Antena 1, há dias, a propósito da passagem da data que afectou muitos madeirenses. Aqui.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Andarilho e Cantor



Bendito sejas tu.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Da revolta sopra o vento

A Visão do dia 3 de Fevereiro apresentava uma infografia com os países em conflito.

Tunísia (o rastilho, em forma humana, a 17 de Dezembro, pela revolta de Mohamed Bouazizi contra a corrupção de funcionários - vejam... não é preciso haver uma máquina de corruptos, bastam umas quantos sujeitos sem escrúpulos...), Egipto (desemprego, corrupção), Iémen (custo de vida), Sudão (razões económicas, i.e., idem), Síria (idem), Argélia (também o preço dos alimentos baixado após ameaças), Jordânia (idem) (abolição dos impostos sobre os alimentos), Líbia (igual), Marrocos (desemprego...), Arábia Saudita (condições de vida), Mauritânia, Barein, Omã (corrupção, custo de vida...)...


"Bah, - dizemos - estes árabes (sim, todos com profecia árabe numa importante parte da sua população) não sabem o que querem... sempre insatisfeitos..."

É não vermos que as aspirações humanas mais básicas se resumem a viver em paz.
Temos o direito de viver em paz. Com dignidade, trabalho, liberdade e sem fome.

E a maior parte dos conflitos massivos que ao longo da história se têm dado resultam de nos serem retiradas as esperanças (ou as coisas mesmo) dessas aspirações.

Para a forca ia um homem.
Alguém perguntou ao condenado:
Para onde vais?
Eu não vou - eles é que me levam.

(era mais ou menos assim uma das epígrafes de um romance de Saramago)


Não nos obriguem a vir prà rua gritar...
Tirem-nos o pão da boca.
Atrevei-vos...



Será preciso sermos árabes para sermos o poder que nos controla?
Não. Não será.
Nós temos isto cá. Temos desemprego, temos fome, temos corrupção...
Temos liberdade como esses países não têm.
Mas... vai dar no mesmo. É para isto que queremos a liberdade? Para termos desemprego, fome, corrupção...?
Há aqui algo que não está a bater certo.

A maior distopia do nosso tempo é termos condições para acabarmos com a fome no mundo... e não o fazermos.
Uma parte quer, outra não quer.
Essoutra que não quer, quer manter a situação, para ter a outra parte na mão.

E andamos a brincar com a História,
entre conservadores e renovadores, que alternam entre si na luta pelo poder.

(Será isto a dialéctica hegeliana?)

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Enterrar o aterro

A intenção de deixar estar e,

"Já agora aproveitamos e transferimos mais umas massas dos contribuintes a uns determinados privados, que é para isso que cá estamos, que é quem representamos, que é para isso que cá viemos e temos ficado."

PIOR,
usar o aterro de materiais acumulados pelas cheias de há um ano para fazer uma tal obra supostamente bonita e bem-intencionada (ler penúltimo artigo do Georden, aqui), juntou ontem, domingo, 20 de Fevereiro, cerca de 2000 cidadãos que se expressaram formando um cordão humano.

Unidos contra mais um retrocesso em matéria ambiental.
Nenhum destes retrocessos é um retrocesso qualquer.
É um retrocesso mais no desrespeito pelo que deve voltar a ser e temos contínua e estupidamente impedido.

A intenção de fazê-la bonita nada tem que ver com desrespeito pelas pessoas que perderam a vida na enxurrada.
Mas tem que ver com desrespeito pelas vítimas futuras, porque aterrar uma praia não vai no sentido de evitar mais (é mais uma forma de interferir no processo natural).

Tem que ver com desrespeito pelos cidadãos que querem a praia como estava.

E tem que ver com - menos relevante - com o facto de esta intenção e esse projecto ser pago com o dinheiro da Lei de Meios [verba que o Governo português deu à Madeira para ajudar as vítimas da catástrofe e reconstruir as zonas afectadas], segundo o geógrafo Raimundo Quintal, um dos mobilizadores desta iniciativa cívica.
(excerto da notícia da VisãoOnline)

Ler mais na notícia do Público.

domingo, fevereiro 20, 2011

Cast a stone

Comunicado via Quercus



A primeira pedra da barragem da Foz do Tua simboliza a pedra que se quer colocar em cima de um defunto aquando do seu enterro. Simboliza o desejo pela morte do Turismo do Tua, da biodiversidade do Vale, do Desenvolvimento Sustentável, do Património Humano, Cultural e Arquitectónico e da Linha do Tua com mais de 123 anos de História. Demonstra ainda o desrespeito pelo passado e o “não querer saber” do futuro. O desrespeito pela identidade da região.

A Quercus lembra que a futura barragem, a ser construída, produzirá o equivalente a 0,07% da energia eléctrica consumida em Portugal em 2006 (Dados da Rede Eléctrica Nacional).

Esta barragem afectará de modo irremediável o Património Natural do Vale do Tua, um dos mais bem conservados de Portugal. Afectará também de forma irreversível a paisagem Património Mundial do Douro Vinhateiro.

A construção desta barragem:

- viola a Directiva Quadro da Água, por destruição da qualidade da água
- acaba com a linha do Tua e com a acessibilidade ferroviária ao nordeste
- irá afectar muito negativamente os últimos dois pilares de desenvolvimento da Região de Trás-os-Montes e Alto Douro: a Agricultura e o Turismo. Recorde-se que estas duas actividades não são deslocalizáveis e de alto valor acrescentado.

Se barragens fossem sinónimo de riqueza e emprego, esta região seria uma das mais ricas e teria taxas de desemprego mais baixas da Europa. Contudo, tal não se verifica, bem pelo contrário.

A região de Trás-os-Montes e Alto Douro está a ficar cada mais pobre e despovoada, sendo que a concretização deste empreendimento só irá agravar a situação.

A estimativa do custo do Plano Nacional de Barragens é de 7.000 milhões de euros a ser pagos pelos consumidores - em vez de um investimento em alternativas energéticas que custariam somente 360 milhões de euros para obter os mesmos benefícios em termos de protecção da clima e de independência energética [1].


Ver intervenção na RTP: aqui

Vila Real, 18 de Fevereiro de 2011

O Núcleo Regional de Vila Real da
Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza


[1] - As novas grandes barragens requerem um investimento de 3600 M€, implicando custos futuros com horizontes de concessão até 75 (setenta e cinco) anos. Somando ao investimento inicial os encargos financeiros, manutenção e lucro das empresas eléctricas, dentro de três quartos de século as nove barragens terão custado aos consumidores e contribuintes portugueses não menos de 7000 M€ – mais um encargo brutal em cima dos que já se anunciam por força da crise e em cima dos custos de deficit tarifário eléctrico que neste momento atinge cerca de 1800 M€.

A mesma quantidade de electricidade que as barragens viriam a gerar pode ser poupada com medidas de uso eficiente da energia, na indústria e nos edifícios, com investimentos 10 (dez) vezes mais baixos, na casa dos 360 M€, com períodos de retorno até três anos, portanto economicamente positivas para as famílias e as empresas. Estas estimativas foram feitas por :

- Madeira A, Melo JJ (2003). Caracterização do potencial de conservação de energia eléctrica em Portugal. VII Congresso Nacional de Engenharia do Ambiente. APEA, Lisboa, 6-7 Novembro 2003

- Melo JJ, Rodrigues AC (2010). O PNBEPH numa perspectiva de avaliação estratégica, política energética e gestão da água. 4ª Conferência Nacional de Avaliação de Impactes (CNAI´10). APAI/UTAD, Vila Real, 20-22 Outubro 2010.


Ver também Movimento Cívico pela Linha do Tua

sábado, fevereiro 19, 2011

Ai ele é isso? (caso ainda não soubéssemos...)

"Não é coisa que se veja muito no arquipélago: está marcado um protesto público contra uma decisão de Alberto João Jardim. No domingo, 20 - dia em que se marca o primeiro aniversário da tragédia que matou 50 pessoas na Madeira -, espera-se que mil pessoas formem um cordão humano junto ao aterro que serviu de depósito de emergência para o entulho das enxurradas (e que se supunha provisório). O objectivo é lutar contra a intenção do Governo Regional de aproveitar o entulho para construir um cais e uma zona de lazer, em vez de limpar a zona e devolver à ilha a praia de areia preta que lá estava."



Podemos entender esta intenção como, à partida, duas coisas:

* Por um lado, é uma atitude de atropelamento ao que prometera. Coisa a que estamos irritantemente cada vez mais habituados em quem tem deveres para connosco.

* Por outro, isto corrobora a demissão das responsabilidades e demonstra que os projectos que se idealizam após uma manifestação natural de disfunções introduzidas não são necessariamente para evitá-las, diminuí-las ou corrigi-las.
É a visão que vamos tendo. Ou querendo ter.

À catástrofe do ano passado ripostamos com... mesquinhez e compadrios.
Para não dizer mais.

Amanhã lá estaremos.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Orlando Ribeiro, o documentário

Através da notícia via Ciência Hoje foi-nos lembrado (lembraram-nos; lembramo-nos) que o documentário do passado domingo está disponível na página da RTP.

A ligação é esta.
Uma hora de honra, prazer e conhecimento da Geografia e de Portugal.
A não perder (outra vez, se for o caso).

Sustentemos o que nos sustenta.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

100 Anos: 2 Rupturas, Um Repto

Auto-retrato (cerca de 1940)
Extraído da página sobre O Geógrafo


Galopim de Carvalho, obviamente (já lá iremos a este obviamente), não se esqueceu do mestre.

A propósito dos 100 anos do nascimento de Orlando Ribeiro (sim, 16 de Fevereiro de 1911), achámos por bem aproveitar a deixa amarga (ameixa amarga) com que ficámos depois de assistirmos ao documentário do último domingo.

Ah,
só por acaso,
(Primeira Ruptura):
Para a Geografia em Portugal existe um antes de Orlando Ribeiro e um depois de Orlando Ribeiro.


A deixa amarga (pêra agridoce) foi ouvirmos o sociólogo-fotógrafo-ex-ministro-da-agricultura(-e-da-reforma-agrária...) Álvaro Barreto dizer com muita paixão e serenidade que (mais ou menos de cor e ouvido o cito):


"«Portugal, o Mediterrâneo e O Atlântico» é um livro fascinante que nos diz muito daquilo que somos. Um dos grandes livros de literatura - científica, obviamente, mas - da literatura portuguesa. Devia ser obrigatório [exceptuando a verdade, nesta última frase a nossa memória já deve estar a enfiar-nos um barrete, sr. Barreto...] nas escolas."


É tão bom ouvirmos e sentirmos a paixão
("Como são duras as pessoas felizes", não é?)
quando não se conhece a crua e triste realidade...


Ide à procura.
Ide.
Buscai, como o pau vai atrás dum cão.
...
Depois ficamos a saber um bocadinho mais e é aqui que as coisas se tornam azedas.
O dito livro, editado originalmente em 1945, pela Coimbra Editora, teve a sua mais recente reedição em... - adivinhem lá, conquanto imaginem o que estes escassos anos significam em termos editoriais neste país... - 1998 (a sétima edição). Reeditado por uma editora, Sá da Costa, que - ao que parece - já não existe.

Título: Portugal, O Mediterrâneo e o Atlântico
Autor: Orlando Ribeiro
Edição: 1989 (4ª ed.)
Paginação: 186 pp.
Editora: Sá da Costa


Sim, obras artísticas e culturais, que enformam a história das regiões e dos povos, estão... inacessíveis às pessoas.
Mas... Sim, a verdade é que, quem quiser, por muito pouco (a ElectricidadeDestePaís bate palminhas), podemos ler este livro - gratuitamente - nesta ligação da Biblioteca Nacional (notem bem, "Cópia Pública").

Só que - não aproveitemos subterfúgios - sabemos bem...
ler um livro nas mãos continua a ser substancialmente diferente de o ler num suporte electrónico.

E não venham cá com tretas nem alijamento do dever da exigência:
O menosprezo pelo esforço e pelas expressões científicas e/ou artístico-culturais (discos e livros...) que grassa nos principais zeladores da sua autonomia (sim, o Estado, como nosso representante, pulsão e propulsionador das nossas vontades) é

- "A minha pátria é a língua Portuguesa" -

ponto de ruptura para a perda da identidade e da existência de um povo.
Quereis destruir um povo?
Começai pela sua língua.
(Esta é a SREC: Segunda Ruptura, Em Curso)

Como se pode amar alguma coisa sem a conhecer? (nem odiar nos é permitido...)
Partilhar o que é bom é um dever de todos os que têm a sorte de tomarem contacto com o bom.
São valores. Que nos fazem e aos quais devemos emprestar o nosso empenho e paixão.
A cultura, como o amor, é de enorme responsabilidade para com o outro.
Responsabilidade individual e colectiva. E uma porque a outra e vice-versa.

Galopim de Carvalho, tendo tais valores e prezando tais valores, obviamente pratica-os: exprimindo-se, lembrando-se, partilhando as suas impressões, memórias.
Com o outro: nós, que o lemos.


(O Repto)

O senhor António Barreto, que, quase de igual forma óbvia, estimamos,
gere uma equipa de fantásticos senhores cujo trabalho (que o Georden já mencionou aqui) é imprescindível para mais bem nos conhecermos enquanto pessoas, sociedade e pessoas e sociedade entre sociedades e outras pessoas,
é responsável por uma fundação que tem lançado uns ensaios (guias-de-sobrevivência: lucidez) de também imprescindível valor...

bem podia promover - defendendo publicamente - a edição - de tal interesse nacional (não é só o cimento que é de interesse nacional...) - levada a cabo pelo Ministério da Cultura - do dito livrinho.


Amigo Barreto, faça isso por nós.
Para partilharmos dessa paixão que tanta água na boca sedenta nos deixou.


Aos sedentos, felizmente, não lhes falta a sede:
partilhemos Orlando Ribeiro e muitos outros que reflectem sobre o mundo que nos rodeia e nos faz.
Somos mais nós.