Pouca gente sabia ao que ia. Era apenas um concerto.
Mas as mais de 500 mil almas que ali acorreram tornaram o Woodstock num fenómeno sociológico.
Passavam-se 25 anos da II Grande Guerra, com a prosperidade e a paz, a demografia conheceu outros valores, os países destruídos estavam praticamente de costas direitas, a produção industrial dava grandes passos para o consumo em massa, as cidades expandiam-se e com elas a burguesia, as gerações (jovens e adultos, filhos e pais) dividiam-se: uns deixavam de ter a suposta superioridade moral sobre outros, e estes autonomizavam-se daqueles, buscando, então e sempre, a identidade e um sentido.
O aumento do poder de compra por parte dos jovens, os fenómenos da moda e da mudança dos costumes do início da década de sessenta (que tantas canções ié-ié francesas descrevem: ouçam Françoise Hardy, France Gall ou a Stella), o desenvolvimento das filosofias de libertação (vide Huxley e Leary), a abertura das mentalidades, a noção da história e as lições dos erros bem aprendidas... muitos factores a confluir para nos sussurrar que a revolução estava em curso e que os tempos estavam a mudar.
As lutas entre as duas grandes potências militares da altura, grandes combates ideológicos e no terreno, sangrentos de um sangue absurdo, cego e telecomandado espalhado pelos povos que nunca estiveram na ribalta...
Por trás de tudo, as canções, banda-sonora relato dessas grandes pequenas revoluções: as danças "obscenas" do Elvis e aquela música barulhenta, e vinda dos negros! (finais dos anos 50, EUA), a poesia anarquista de Léo Ferré, antiburguesa de Brel, interventiva de Ferrat (via Aragon), sarcástica de Brassens (50/60, França)...
Já repararam numa coisa?
Num mesmo ano, 1963, foram gravadas "Os Vampiros", do Zeca Afonso, a "Trova do Vento que Passa", do Adriano Correia de Oliveira" e a "Blowin' in the Wind", do Bob Dylan.
Penso que já por mais de uma vez li que as canções folk de protesto estadunidenses (Joan Baez, Pete Seeger, Woody Guthrie, Phil Ochs...) influenciaram e despoletaram em muitos países o surgimento das chamadas "Novas canções"...
Bem, pelo que aprendi até hoje não me abstenho de contra-argumentar, pois no nosso país, orgulhosamente fechado e, talvez mais importante que isso, ainda virado para a Europa (França, entenda-se...), duvido muito que a influência do outro lado do Atlântico tivesse feito sentir-se a esse ponto.
E para quem é pela tese de que foi o Dylan que catapultou a canção de protesto e espalhou as sementes pela Europa, eis um argumento mais:
aqui ao lado, vindo de Valência para Barcelona, surgiu um homem a cantar versos existencialistas. Esse homem chama-se
Raimon e o seu primeiro grito foi "Al Vent", canção escrita em 1959, mas apenas editada em... 1963 (coincidência, não é?). Foi essa canção, e mais nenhuma outra, com que em Espanha - primeiro na Catalunha )e demais países de fala catalã), depois no País Basco, depois na Galiza, na Comunidade de Madrid e em todo o resto do país - a canção de intervenção começou. Dylan? Não, Raimon ouvia canções norte-americanas, mas o jazz, os espirituais negros e estava mais virado para França (com Brassens como a maior influência) e para Itália.
Isto foi só um parêntesis da geografia da mudança.
Mas também houve os Beatles, que explodiram em Inglaterra em... 1963 (mais uma vez) e arrastando a multidão de jovens em delírio, ao mesmo tempo que lhes deram inconscientemente a noção do poder que tinham, viraram o curso da história (a meu ver, a passagem do paradigma francês para o anglófono, em termos de capitalização dos valores culturais).
Depois, com os Rolling Stones, os Who e os Kinks o rock ficou mais agressivo. Sintomático e sintético disso e do tempo é a canção "My Generation", (The Who), em que Roger Daltrey canta "You're talking about my generation" e "I hope I die before I get old". Foi também com os Who (Pete e, depois, o Keith) que a violência passou a exercer-se em palco (nos instrumentos). Aqui estávamos já em 1965. As tensões cresciam.
Em 1967 houve o Festival de Monterrey, organizado, entre outros, por Paul Simon. Mítico festival, livre e pacífico como Woodstock não conseguiu ser. Livre teve que ser, porque os milhares de pessoas assim o quiseram (a grande mole humana tem muita força quando vai toda numa direcção), mas houve uma agressão de Pete (sim, aquele mesmo) durante o concerto dos Who. Claro, isso não manchou o evento. Aliás, hoje nem é lembrado.
Como não é lembrado que o Woodstock tinha outros valores além do de paz e amor. O movimento hippie, e o festival muito lhe devia, preconizava a paz com a natureza, contra a produção industrial, pela agricultura biológica, contra a guerra, a nuclear e todas as outras...
Isso hoje não é lembrado. Caiu em desuso.
Em 1971 era fundada a Greenpeace. Processos cumulativos típicos do avanço e da evolução da História humana.
Em 1973, a crise do Petróleo e a afirmação das energias alternativas.
Décadas de 70 e 80: primeiro o poder da raiva punk, depois o grande vazio que ficou após essa força libertada [vazio sentimental: gótico; vazio mental: neo-românticos e pops sintetizados de discotecas onde se ia (ah! dantes era assim) para ouvir música...]
A revolução digital, a suposta democratização da informação, a terciarização da economia, o esvaziamento da praça e do poder públicos, a deterioração da cidade e da cidadania (a abstenção luta contra o voto em branco e vence...), a degradação ambiental e dos recursos, as lutas contra os gigantes económicos (empresas e países), as migrações dos deserdados, a força do gigante que constrói todo um sistema para nos impor uma nova ordem que ainda não percebemos bem no que nos transformou ... e que mais?