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sexta-feira, agosto 03, 2012

33


O homem separado do seu produto produz cada vez mais poderosamente todos os detalhes do seu mundo, e assim encontra-se cada vez mais separado do seu mundo. Quanto mais a sua vida se vai tornando um produto seu, tanto mais ele está separado da sua vida.




Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

quinta-feira, agosto 02, 2012

32

O espectáculo na sociedade corresponde a uma fabricação concreta da alienação. A expansão económica é principalmente a expansão desta produção industrial precisa. O que cresce com a economia, movendo-se por si só, não pode ser senão a alienação que encerrava justamente o seu núcleo original.




Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

quarta-feira, agosto 01, 2012

29


A origem do espectáculo é a perda da unidade do mundo, e a expansão gigantesca do espectáculo moderno exprime a totalidade desta perda: a abstracção de todo o trabalho particular e a abstracção geral da produção em conjunto traduzem-se perfeitamente no espectáculo, cujo modo de ser concreto é justamente a abstracção.


Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

terça-feira, julho 31, 2012

28

O sistema económico fundado no isolamento é uma produção circular do isolamento. O isolamento funda a técnica, e, por sua vez, o processo técnico isola. Do automóvel à televisão, todos os bens seleccionados pelo sistema espectacular são também as suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das «multidões solitárias». O espectáculo reencontra cada vez mais concretamente os seus próprios pressupostos. 

Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012 
O texto original data de 1967.

segunda-feira, julho 30, 2012

172


O urbanismo é a realização moderna da tarefa ininterrupta que salvaguarda o poder de classe: a manutenção da atomização dos trabalhadores que as condições urbanas de produção tinham perigosamente reagrupado. A luta constante que teve de ser travada contra todos os aspectos desta possibilidade de encontro descobre no urbanismo o seu campo privilegiado. O esforço de todos os poderes estabelecidos, desde as experiências da Revolução Francesa, para aumentar os meios de manter a ordem na rua culmina finalmente na supressão da rua. «Com os meios de comunicação de massa que eliminam as grandes distâncias, o isolamento da população demonstrou ser um meio de controlo muito mais eficaz.», constata Lewis Munford em A Cidade na História, ao descrever um «mundo doravante único». Mas o movimento geral do isolamento, que é a realidade do urbanismo, deve também conter uma reintegração controlada dos trabalhadores, segundo as necessidades planificáveis da produção e do consumo. A integração no sistema deve apoderar-se dos indivíduos isolados enquanto indivíduos isolados em conjunto: as fábricas como as casas de cultura, as aldeias de férias como «os grandes conjuntos habitacionais», são especialmente organizados para os fins desta pseudocolectividade que acompanha também o indivíduo isolado na célula familiar: o emprego generalizado dos receptores da mensagem espectacular faz [com] que o seu isolamento se encontre povoado pelas imagens dominantes, imagens que somente através deste isolamento adquirem a sua plena força.



Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

O livro de Munford (clicar ali em cima, no seu título) foi o terceiro livro do mês aqui no Georden, já lá vão mais de cinco anos.

domingo, julho 29, 2012

171


Se todas as forças técnicas da economia capitalista devem ser compreendidas como operando separações, no caso do urbanismo trata-se do equipamento da sua base geral, do tratamento do solo que convém ao seu desenvolvimento; da própria técnica da separação.


Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

sábado, julho 28, 2012

169

A sociedade que modela tudo o que a rodeia edificou a sua técnica especial para trabalhar a base concreta deste conjunto de tarefas: o seu próprio território. O urbanismo é esta tomada de posse do meio ambiente natural e humano pelo capitalismo, que, ao desenvolver-se logicamente como dominação absoluta, pode e deve agora refazer a totalidade do espaço como seu próprio cenário.




Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

sexta-feira, julho 27, 2012

175

A história económica, que se desenvolveu inteiramente em torno da oposição cidade-campo, chegou a um estádio de êxito que anula ao mesmo tempo os dois termos. A paralisia actual do desenvolvimento histórico total, em proveito da exclusiva continuação do movimento independente da economia, faz do momento que começam a desaparecer a cidade e o campo não a superação da sua cisão, mas o seu desmoronamento simultâneo. O desgaste recíproco da cidade e do campo, produto do desfalecimento do movimento histórico pelo qual a realidade urbana existente deveria ser superada, aparece nesta mistura ecléctica dos seus elementos decompostos, que recobre as zonas mais avançadas da industrialização.



Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

quinta-feira, julho 26, 2012

26


Com a separação generalizada do trabalhador e do seu produto perde-se todo o ponto de vista unitário sobre a actividade realizada, toda a comunicação pessoal directa entre os produtores. À medida que progride a acumulação dos produtos separados, e a concentração do processo produtivo, a unidade e a comunicação tornam-se o atributo exclusivo da direcção do sistema. O êxito do sistema económico da separação é a proletarização do mundo.


Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

quarta-feira, julho 25, 2012

174

O momento presente é já o da autodestruição do meio urbano. O rebentar das cidades sobre os campos, cobertos de «massas informes de resíduos urbanos» (Lewis Munford) é, de um modo imediato, presidido pelos imperativos do consumo. A ditadura do automóvel, produto-piloto da primeira fase da abundância mercantil, inscreveu-se no terreno com a dominação da auto-estrada, que desloca os antigos centros e exige uma dispersão cada vez maior. Ao mesmo tempo, os momentos de reorganização incompleta do tecido urbano polarizam-se em torno das «fábricas de distribuição» que são os hipermercados edificados em terreno aberto com um parking por pedestal; e estes templos do consumo precipitado estão eles próprios em fuga no movimento centrífugo, que os repele à medida que eles se tornam por sua vez centros secundários sobrecarregados, porque trouxeram uma recomposição parcial da aglomeração. Mas a organização técnica do consumo não é mais que o primeiro plano da dissolução geral que conduziu a cidade a consumir-se a si própria desta maneira.


Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Ed. Antígona, 2012
O texto original data de 1967.

sexta-feira, julho 06, 2012

Música para Neozelandês Ouvir

Não sei muito sobre o período revolucionário do meu país. Sei, no entanto, bastante da música que esse período produziu.
A minha opção de apresentar este género não partiu portanto de um interesse particular pela Revolução, mas sim por um interesse particular pela música da Revolução. Excluí o fado porque está demasiado conhecido por quem gosta de música do mundo; e o pop rock é igual a todos os outros popes rockes do resto do mundo. Pensando bem, talvez se possa mesmo defender que as canções que se fizeram nos anos que rodeiam o 25 de Abril, e dedicados a ele, sejam as mais portuguesas de sempre, com a sua mistura de urbano e rural, antigo e intervencionista, tradicional e eléctrico. Penso nas soluções originais de raíz rural do Zeca Afonso, nas harmonizações inéditas mas tocadas com instrumentos populares do Sérgio Godinho, na força universal da tipicidade lusitana dos Trovante.

Essa era alguma da música que levei para a Nova Zelândia. Seguiam na bagagem também o José Mário Branco, o Vitorino, o Adriano, o Cília e o Carlos do Carmo - este último não por causa do fado, mas por causa daquele medley de homenagem aos cantautores de Abril que ele apresenta no disco do Olympia.
Começámos pois a nossa pequena revolução radiofónica com «Grândola, Vila Morena», seguimos com «Os Pontos nos Iiis», «Trova do Vento que Passa», e ainda «Uns Vão Bem Outros Mal», «Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades», e por aí fora. Eu ia explicando em inglês os títulos, os temas, as razões, a conjuntra em que nasceram todas estas canções. O Xavier fazia perguntas, as minhas respostas contextualizavam a música dessa noite num passado distante de caravelas e impérios e num passado recente de activismo, lutas e conquistas sociais.

Não sei o que terão pensado os agricultores, os criadores de gado, os lenhadores dessa comunidade rural de duas mil almas [Raglan], sobre esta revolução que lhes entrava pela casa adentro na noite serena. Terão talvez pensado que este povo português é tramado. Um povo de irredutíveis idealistas. E também um povo solidário, sensato, espartano, gente imune às tentações do consumismo bacoco e arrivista. Eu não desfiz o engano no final do programa, deixei-os ficar com essa ideia. Para se actualizarem, terão de vir ao fim do mundo para eles. É muito longe...


Gonçalo Cadilhe, em "Um Lugar Dentro de Nós", Clube do Autor, 2012, pp.100-101

segunda-feira, junho 18, 2012

Comparação do dia...

"Enquanto se governar do mesmo modo do que na Turquia e enquanto perdurarem na Bósnia as circunstâncias actuais, não há lugar nem para estradas nem para comunicação. Ao contrário, e por motivos muito diferentes, tanto os turcos como os cristãos estão contra qualquer nova construção ou manutenção das vias de comunicação. Hoje mesmo tive a oportunidade de o constatar claramente durante a conversa que mantive com o meu amigo, o gordo pároco de Dolac, frei Ivo. Queixei-me de como é íngreme e cheio de rodeiras o caminho entre Dolac e Travnik, dizendo-lhe que me admirava por os habitantes da povoação não fazerem nada para o arranjarem minimamente, já que são obrigados a percorrê-lo todos os dias. O frade primeiro olhou-me com ironia, como se eu fosse uma pessoa que não soubesse do que estava a falar, depois, manhoso, piscou-me um olho e disse cochichando:

- Senhor, quanto pior a estrada, menos frequentes são as visitas turcas. O que mais gostaríamos era de podermos colocar, entre nós e eles, uma montanha intransitável. E, no que a nós se refere, esforçamo-nos para percorrer qualquer caminho quando é preciso, pois estamos habituados a que sejam maus e a todo o tipo de ruindade. Na realidade, vivemos das dificuldades e, não diga a ninguém o que lhe vou dizer, mas ouça: saiba que enquanto forem os turcos a governar em Travnik, não precisamos de melhores caminhos. E, aqui entre nós, quando os turcos o arranjam, o nosso povo espera pelas chuvas ou pela neve para o esburacar e escavacar. Isso, até certo ponto, pode acabar por dissuadir os hóspedes indesejáveis.

Só quando acabou de falar, o pároco abriu de novo o olho que mantinha piscado e, orgulhoso da sua esperteza, voltou a pedir que não contasse aquilo a ninguém. É esta uma das razões por que os caminhos não prestam. Outra das razões reside nos próprios turcos. Qualquer das vias de comunicação com o mundo cristão significa para eles abrir portas à influência inimiga e à possibilidade de estas exercerem supremacia sobre a arraia, ameaçando assim o domínio turco. Além disso, senhor Daville, nós, os franceses, acabámos de engolir metade da Europa e não é de estranhar que os países que ainda não dominamos olhem com desconfiança as estradas que o nosso exército está a construir nas suas fronteiras."


"A Crónica de Travnik", Ivo Andric, Ed. Cavalo de Ferro, 2008, pp. 75-76

quarta-feira, maio 02, 2012

"Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno", por Serge Latouche

A propósito do tão propalado e sacrossanto crescimento económico, ou crescimento a que já caiu o económico, teríamos de voltar a este livro.

Ontem, 1º de Maio, dia do trabalhador, não foi um dia especialmente memorável para os "colaboradores" de um dado estabelecimento comercial espalhado pelo país, embora com sede fiscal fora dele.

Mediante a decisão / imposição / regulação dos preços nos seus burgos resulta um fácil controlo dos comportamentos de milhares de quase-mortos que pedincham por dignidade e vida. E que se riem, porque as suas preces foram ouvidas: haja caridadezinha...

Esta reacção automática massiva, como mihares de robôs, não é muito diferente dos apitos imbecis pela vitória de um clube ou de um partido, ou por qualquer outra manifestação alienante.
Aconteça ela em conjunto, em massa, ou individualmente.
(Como estarmos milhões, cada um em frente ao seu, a olhar para um ecrâ.
De televisão ou de ordenador.)

Que faz cada um de nós?
O primeiro passo para a reconversão desta economia e para a retracção dos valores que ela impôs está em fazer o contrário do que ela nos obriga (mediante controlos como o de ontem).
Reduzir o consumo.
Irá começar por alterar tudo.
Não será suficiente.
Depois urge não parar.
Mas primeiro temos de começar e forçar.

Ficam aqui algumas passagens interessantes deste pequeno e lúcido tratado.






Título: Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno
Edição Original: Petit Traité de la Décroissance Sereine (2007)
Autor: Serge Latouche
Tradução: Víctor Silva
Edição: Janero de 2011
Editora: Edições 70
ISBN: 978-972-44-1646-5
Paginação: 160 páginas

"Não podemos produzir frigoríficos, automóveis ou aviões a jacto «maiores e melhores» sem produzir também detritos «maiores e melhores». Nicholas Georgescu-Roegen "(...) a maximização do consumo baseia-se na predação e na pilhagem dos recursos naturais, à economia do cosmonauta, «para a qual a Terra se tornou um veículo espacial único, não possuindo recursos ilimitados, seja para dela os retirar, seja para nela vazar os seus poluentes»." Quem acredita que é possível o crescimento infinito num mundo finito ou é louco ou economista.
Kenneth Boulding
(p.28)


"Ao contrário doutras tradições religiosas como o budismo, a tradição cristã não favoreceu no Ocidente a relação harmoniosa entre o ser humano e o seu ambiente vivo e não vivo. O marxismo inseriu-se nesta tradição, o que levou Hans Jonas a dizer: «A humanização da natureza por Marx é um eufemismo hipócrita para designar a submissão total desta mesma natureza ao ser humano para uma exploração total com a finalidade de satisfazer as suas próprias necessidades.»"
(p.141)

"Os novos heróis do nosso tempo são os cost killers, estes gestores que as empresas multinacionais atraem a preço de ouro, oferecendo-lhes grandes quantidades de stock-options e indemnizações por rescisão. Formados geralmente nas business schools, que mais apropriadamente deveriam ser chamadas «faculdades de guerra económica», estes estrategos estão empenhados em transferir ao máximo os custos para o exterior, de modo a fazê-los recair sobre os empregados, os subcontratados, os países do Sul, os seus clientes, os Estados e os serviços públicos, as gerações futuras e sobretudo a natureza, transformada ao mesmo tempo em fornecedora de recursos e em caixote do lixo. Qualquer capitalista, qualquer financeiro, mas também qualquer homo oeconomicos (e todos o somos) tende a ser um «criminoso vulgar», mais ou menos cúmplice da banalidade económica do mal."
(pp.32-33)

"A economia transforma a abundância natural em raridade com a criação artificial da escassez e da necessidade através da apropriação da natureza e da sua mercantilização. Última ilustração do fenómeno, após a privatização da água: a apropriação do domínio vivo, em particular com os OGM. Os agricultores assim destituídos da fecundidade natural das plantas em benefício das empresas agro-alimentares. A imaginação do mercado», como diz Bernard Maris, «é incomensurável. Como se fosse um cuco, instala-se em tudo o que é gratuito. «Exclui estes e aqueles, estampilha a gratuitidade, impõe-lhe logotipos, marcas, portagens e depois revende-a.»"
(p.55)

"Finalmente, é preciso pensar em inventar uma verdadeira política monetária local. «Para manter o poder de compra dos habitantes, os fluxos monetários deveriam permanecer o mais possível na região e as decisões também deveriam ser tomadas o mais possível ao nível da região. Dêmos a palavra ao especialista (neste caso, um dos criadores do Euro): "Encorajar o desenvolvimento local ou regional ao mesmo tempo que se mantém o monopólio da moeda nacional é como tentar desintoxicar um alcoólico com gin."
(p.71)

"Segundo Yves Cochet, «uma alimentação mais económica em energia seguiria assim três orientações opostas às que hoje são correntes: seria mais local, mais sazonal e mais vegetariana». Continuará a ser «mais cara» se se continuar a fazer com que as vítimas paguem e a subsidiar os poluidores."
(p.76)

"A civilização capitalista caminha inexoravelmente para a sua derrota catastrófica; já não é necessária uma classe revolucionária para derrubar o capitalismo, porque ele cava a sua própria sepultura e a da civilização industrial no seu conjunto. É uma sorte, porque se vê bem que a luta de classes se esgotou com o triunfo do capital. (...) Neste sentido, o projecto da sociedade do decrescimento é eminentemente revolucionário. Trata-se não só de uma mudança de cultura, mas também das estruturas do Direito e das relações de produção."
(p.92)

"Se a França aplicasse a directiva europeia e produzisse 20% da sua electricidade a partir de energias renováveis, como a solar ou a eólica, isso criaria 240 000 empregos. Um documento publicado em 2005 pela Comissão Europeia mostra que cada milhão de euros investido na eficácia energética cria 12 a 16 empregos a tempo inteiro, contra 4,5 numa central nuclear e 4,1 numa central a carvão. Ou seja, custa duas vezes menos economizar um quilowatt-hora do que produzi-lo."

A satisfação das necessidades de uma arte de viver convivial para todos pode realizar-se com uma diminuição importante do tempo de trabalho obrigatório, de tal forma são importantes as "reservas", porque, durante séculos, os ganhos de produtividade foram sistematicamente transformados em crescimento do produto, e não em decrescimento do esforço."
(p.110-111)

"Nas condições actuais, o tempo liberto do trabalho não passa a ser apenas por isso liberto da economia. A maior parte do tempo livre não conduz a uma reapropriação do tempo da existência e não constitui um abandono do modelo mercantil dominante. O tempo continua a ser muitas vezes utilizado em actividades que ainda são mercantis, que não permitem ao consumidor assumir a via da auto-produção. Ele é desviado para uma via paralela. O tempo livre profissionaliza-se e industrializa-se cada vez mais. (...) Fundamentalmente, é com uma reconquista do tempo pessoal que nos confrontamos. Um tempo qualitativo. Um tempo que cultive a lentidão e a contemplação, ao ficar liberto do pensamento do produto. (...) Esta reconquista do tempo «livre» é uma condição necessária da descolonização do imaginário. Diz respeito também aos operários e aos assalariados, e não só aos quadros stressados, aos patrões acossados pela concorrência e às profissões liberaris apertadas em torno da compulsão ao crescimento. Podem passar de adversários a aliados na construção de uma sociedade do decrescimento."
(pp.119-122)

"É tão fácil «convencer» o capitalismo a limitar o crescimento como «persuadir» um ser humano a deixar de respirar, escreve Murray Bookchin. O descrescimento é forçosamente contra o capitalismo, não tanto por lhe denunciar as contradições e os limites ecológicos e sociais, mas antes de mais porque lhe põe em causa "o espírito", no sentido em que Max Weber considera "o espírito do capitalismo" como condição da sua realização. Se, em abstracto, talvez seja possível conceber uma economia ecocompatível com a continuidade do capitalismo imaterial, esta perspectiva é irrealista no que respeita às bases imaginárias da sociedade de mercado, ou seja, a desmesura e o (pseudo)domínio sem limites.

O capitalismo generalizado não pode deixar de destruir o planeta tal como destruiu a sociedade e tudo o que é colectivo."
(p.125)

quarta-feira, abril 18, 2012

Topofobia traduz um desenraizamento que é também interior

"E as pessoas perguntarão: «Quem será esse senhor de grandes óculos e colete apertado, com aspecto de estrangeiro, tomando notas num caderninho? Que escreverá ele? Do que menos suspeitam, certamente, é que faço contas aos custos da expedição. Aliás, observam que tomamos notas sem imaginar para contar o que vemos, e não o contamos por o termos visto. Viajar por prazer? Não, não se viaja por prazer. Viaja-se para dizer que se esteve aqui ou ali, ou para fugir do sítio em que está; o monomaníaco das viagens é-o por topofobia, foge de todos os lados. Viajar não é natural. As crianças não passeiam indo a um lugar determinado, mas brincam correndo em volta de um ponto. Obrigá-los a percorrer uma légua cansa-os mais do que deixá-los correr três léguas num jardim. E os adultos precisam da caça - aqui, do atavismo - para percorrer os campos."

Miguel de Unamuno, Espinho, Agosto de 1908
in "Por Terras de Portugal e Espanha", p. 55 (Ed. Nova Vega, 2009)


"Mal conseguiam alojamento num sítio, continua Nossack, os fugitivos partiam de novo, para seguir viagem ou tentar regressar a Hamburgo, «ou para salvar qualquer coisa ou para a busca persistente dos familiares», ou pela negra razão que compele um assassino a voltar ao local do crime. Fosse pelo que fosse, todos os dias se movimentava uma multidão incontável de gente. [Heinrich] Böll viria a sugerir mais tarde que estas experiências de desenraizamento colectivo estão na origem do gosto pelas viagens da República Federal, esse sentimento de não ser capaz de permanecer num sítio, de estar sempre a querer mudar."

W. G. Sebald, 2003, in "História Natural da Destruição", pp.37-38 (Ed. Teorema, 2006)



Se assim for, o crescente fluxo de pessoas devido à economia (em negócios de trabalho ou naquele outro de sobrevivência...), está a ser um reflexo do abandono de nós próprios e das nossas razões de ser.

Será que vamos suportar conviver com quem tem cada vez menos a perder?

quarta-feira, maio 11, 2011

Desculpe, importa-se de repetir?

"A África-do-Sul não era, de todo, o único país envolvido. Os detalhes da rede, que emergiam aos poucos, pareciam um diário de viagem errático.

Um fornecedor alemão tinha providenciado as bombas de vácuo.
Um intermediário em Espanha fornecera dois tornos especializados.
Um consultor suíço tinha viajado para a Malásia para produzir partes de centrifugadoras baseadas nos projectos paquistaneses que tinham tido origem na Holanda.
Um ex-responsável militar israelita, nascido na Hungria e a trabalhar na África-do-Sul, foi preso numa estância de ski em Aspen, Colorado, pelo seu papel no fornecimento ao Paquistão de interruptores de descarga eléctrica comandáveis, mecanismos que podem ser usados em detonadores de armas nucleares.
Um engenheiro britânico prepara os planos para a oficina mecânica líbia, criada para produzir componentes de centrifugadoras.
Fornos especiais foram comprados à Itália.
Conversores de frequência e outros aparelhos electrónicos haviam sido produzidos em oficinas turcas, usando componentes provenientes de outras partes da Europa.

No final, os investigadores da AIEA [Associação Internacional para a Energia Atómica] desenterrariam ligações a mais de 30 empresas em igual número de países."

"A Era da Mentira" (trad. de Carlos Santos), Mohamed Elbaradei,
Ed. Matéria Prima, 2011, p. 207

Nem me apetece fazer comentários...
Nem tampouco sei como classificar isto...

Umas breves notas, após a leitura deste recente livro:

Como no sistema-mundo, parecemos estar todos a cozinhar, com as nossas pequeninas, minúsculas acções, um monstro.
Seja ele chamado bomba atómica (este excerto foi retirado do capítulo sobre, como Elbaradei lhe chama, "O bazar nuclear de A. Q. Khan", um engenheiro que vende o seu trabalho a partir do Paquistão - um dos países com bomba atómica, a par da Coreia do Norte, Estados Unidos da América, Israel, Índia, França, Grã-Bretanha...), seja ele aquecimento global.
Isto é, todos, isolados e em rede, contribuímos, inconscientes ou não de todos os restantes elementos da rede, para uma soma que desconhecemos e que é maior que a soma das partes.
Uma espécie de inconsciente colectivo mundial.

- Ah, eu não tenho nada a ver com isso!... Eu só fabrico interruptores, vou lá saber em que é que eles são usados...!
| |
- Ah, em que é que eu contribuo para isso?... Eu só poluo / consumo / destruo um bocadinho..., vou lá levar com toda a responsabilidade (para alterar o meu mui nobre modus vivendi)...!


A outra nota é a que se prende com a repescagem do chamado "Equilíbrio do terror" que a aniquilação nuclear representa.
Está patente, na visão de Elbaradei, a quezília entre os que têm enriquecimento de urânio e os que o não têm. Sendo que os que o têm não querem que os que o não têm... tenham.

Com que direito? Qual é a superioridade moral?

Nenhuma. O Direito, quando entronca no negócio, de pouco serve. Comprovada na rede de interesses implacável e indetectável do exemplo acima.

Porque quando se trata de armas - para matar, que é isso que elas só sabem fazer... - os primeiros confiam na superioridade... da violência e do poder de a exercer.
De a exercer sobre aqueles que, não dispondo de igual força destruidora, a têm de acatar.

Com que direito?

O urânio existe na natureza.
O problema está na capacidade em enriquecê-lo, meios técnicos, materiais e humanos de que nem todos dispõem (uns têm, alguns dos que não têm, querem ter) e, depois - aqui é que realmente grave, e com isso ninguém se preocupa....- no facto de o material radioactivo (por exemplo, o principal componente das bombas atómicas, o Urânio 235, mas também outros, como o Tório, o Estrôncio, o Plutónio, o Césio...) passar a existir.

Se a algum país fosse pedido para armazenar lixo tóxico, ele aceitaria? Com que porta-voz? Representativo?

O factor disuasor da violência não pode ser baseado numa violência de igual dimensão.

A consequência é deste processo, inevitavelmente, um crescendo de violência: todos quererão dispor armas nucleares.

Mas a questão está a montante: o material radioactivo não é já, em si, existindo, um problema?

Este é o argumento que está antes da defesa da segurança da energia nuclear.
Não é a questão de haver sismos que provoquem fugas de radioactividade que está em análise.
A análise está antes. Porra.
A fonte dessa radioactividade já existe. Nesse caso, ampliada, aumentada, enriquecida.

Quem conseguir compreender este raciocínio...
Sei lá...
Cada vez menos sei fazer comentários...

terça-feira, outubro 05, 2010

Espaços vitais

Uma noite de lua cheia
atravessámos a montanha.
Lentamente. Sem dizer nada.
Se a lua era plena
também o era a nossa pena.

Para que se nos perdoe
a guerra, que a estropia,
me ajoelho e beijo a minha terra.
Com a sombra a acaricio,
antes de passar a raia.

Na Catalunha deixei
No dia da minha partida
meia vida adormecida.
A outra metade veio comigo
para não me deixar sem vida.

Na minha terra do Vallés
três montes fazem uma serra,
quatro pinheiros um bosque denso,
cinco quarteirões muita terra!
"Não há terra como o Vallés!"

Hoje em terras de França
E amanhã mais longe, talvez,
Não morrerei de saudade,
Antes de saudade viverei.

Uma esperança desfeita.
Um pesar infinito
E uma pátria tão pequena
que sonho completa.


Joan Oliver (Pere-Quart)
Tradução de Eduardo F.


Espaços vitais

O arrumador de carros afasta os companheiros, aos gritos:
- A minha zona vai daqui até ali!

O colonialista impõe-se, em todas as frentes:
(na quantidade de produtos, meios de expressão, valores e significações...)
mais ou menos ruidosamente.
Na consumo expansivo e incessante, todo o espaço, uma vez conquistado, se torna pequeno.

(...a Terra é finita...)

(...)


Espaços sociais

No autocarro e no comboio, um pressuposto, aceite conforme a densidade, da distância dos corpos (que vai, em último caso, a uma questão de milímetros, ou mesmo ao contacto físico.)
Um ombro que se toca...

Se os transportes públicos estão vazios, aceitamos -esperamos- que as pessoas se sentem isoladas umas das outras.
"Porque têm medo da solidariedade!"...
?

Nas filas para os pagamentos ou para os levantamentos, necessário é, por privacidade e respeito, que se conserve uma certa distância.
Não invasiva. Na ordem dos centímetros até ao metro.

(...)


Espaços íntimos

À mesa com a família, as conversas privadas da vida e da morte, do crescimento e do envelhecimento. Das ilusões e desilusões de cá estarmos, ficarmos, das penas por quem cá deixarmos.
Palavras íntimas que estranhos também terão. Noutra língua. Para designar as mesmas coisas. Precisamente as mesmas coisas...


Os amantes precisam de um lugar, aberto ou fechado, onde mais ninguém exista.
Onde, conforme o poder de abstracção que um invocar no outro, mais ninguém consiga existir.
Ali. Naquele momento.
Durante aquela eternidade.


Não pensar em mais ninguém:
- És só meu / És só minha...
- Sim, mas será para sempre?
Como, então, suportar a ideia da exclusividade que vai durando?

(...)


Espaços desencontrados / Espaços perdidos

Os mendigos não têm espaços íntimos.
Os sem-abrigo não têm espaço social.
Os refugiados não têm espaço vital - têm um não-espaço vital.
Donde não podem sair.

Os exilados e os emigrantes têm de recomeçar tudo de novo.


A nossa vida é
a soma dos lugares em que criámos raízes,
a soma, diferencial, das pessoas em que criámos laços.

A liberdade do indivíduo mede-se com as liberdades das pessoas que o fazem.



À medida que o mundo nos vai estrangulando a paz, invadindo-nos em todos os campos da nossa vida, seja através do ruído, do trabalho ou da falta dele, da economia inelutável, da política do desleixo, da cultura do consumo, dos média sufocantes ..., fugas se impõem.
Necessariamente.

Para mantermos a sanidade.
Para continuarmos vivos.
Precisamos de paz.

Precisamos de um espaço que seja nosso.
Precisamos de uma loucura que seja só nossa...

- O meu vício é só meu!
- Sim, mas já viste quantos milhões como tu têm esse vício?

Pessoas com auscultadores, deixando para longe o mundo à sua volta.
Pessoas ao telemóvel, trazendo para perto o mundo não à sua volta.
Cada um na sua.
Solidão multiplicada.
Desencontros continuamente adiados.
Negação do mundo.


As fugas encontradas, se muito perseguidas e mesmo assim não achadas, podem ir ao ponto de disfunções: reacções químicas, psicológicas, psicossomáticas. Obsessivo-compulsivas. Esquizofrénicas.
Ansiedade. Carências contínuas e irresolúveis.
(Inexoráveis?)

Criação de mundos imaginários.
Mundos irreais que nos respondam ao que o mundo não nos soube responder...
Que nos devolvam a nossa realidade.
O nosso direito de existir.
Não abdicarmos da nossa vida.

Onde nos sintamos nós.
Onde possamos gritar.
Onde possamos finalmente ouvir a nossa voz.

Negação da solidão inútil, estioladora.
Apurada, aprimorada...
...com a solidão.


"Perguntando a um grande filósofo qual era a melhor terra do mundo,
respondeu que a mais deserta.
Porque a mais afastada dos homens!"

"Sermão de Santo António aos Peixes",
Padre António Vieira


Viva a liberdade.