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sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Psicogeografia

... E íamos nós pelos ares quando alguém que vinha em sentido contrário, nos disse:

- Não estais a perceber absolutamente nada.
Por isso, vou resumir-vos o que é que se está a passar.

Vós vedes os textos à vossa volta, mas todos os caracteres vos são ilegíveis. Por exemplo, este texto que agora está aqui, se for demasiado longo, de determinado ponto os vossos olhos não passarão. O excesso de texto cansa por antecedência, mesmo sem vos perguntardes ou vos deterdes nisso. E é precisamente por esse motivo que agora se impõe uma pausa. Pode ser bem sucedida através de um parágrafo, 

Assim.


Ou através de algum espaçamento entre as linhas.

Ah, deixem-me falar-vos duma boa piada. É que eles, lá nas universidades, fazem aquilo com tanto espaçamento, entre as linhas e entre as letras, que cada calhamaço até impressiona o próprio pacóvio que escreve (ou copia) os trabalhos. De modo que ele diz para si mesmo "Eh, pá, isto e tal...", não interessa agora estar a precisar.

Há também aquela táctica que é a da rendição, ou se o "texto" (sim, entre aspas) a comunicar assim o requer, à imagem, antepondo infalivelmente a máxima de que "uma imagem vale mais que mil palavras. Por extenso ou em numeral. Assim: 1 Imagem Vale + que 1000 Palavras. Fica catita e tal e cumpre-se mais uma banalidade e todos gostamos delas, não foi assim que te ensinaram para estares bem integrado na sociedade?

Portanto, recorremos aqui ao nosso amigo Raimundo Quintal, cujas mui ilustrativas fotos reproduzimos - cremos que não se importará que o façamos. Com o título "Pouco aprenderam com a dolorosa lição da natureza" (pôr frases a negrito, mesmo que não estejam à cabeceira dos textos, é também um truque muito usado nos meios habituais). As legendas são do geógrafo madeirense:

 Ribeira da Madalena - foz demasiado estreita , assoreada e incapaz de dar vazão ao caudal lamacento numa próxima cheia repentina - 02.02.13
 O estaleiro da AFA continua a crescer na Meia Légua. O canal de escoamento da Ribeira Brava continua estrangulado - 18.02.13
 Deslizamento na vertente oriental e obstrução do leito da Ribeira da Madalena, a jusante da estrada regional -02.02.13
 O estaleiro da AFA continua a crescer na Meia Légua. O canal de escoamento da Ribeira Brava continua estrangulado - 18.02.13
 A vertente oriental da Ribeira de Santa Luzia no troço entre a Fundoa e os Viveiros é facilmente erodida sempre que o caudal cresce - 15.11.12
 Água de Pena - o promotor e o empreiteiro da nova estrada não repararam no ribeiro. Os serviços de hidráulica do governo regional ignoram o problema. Quando chover intensamente o mesmo empreiteiro ganhará dinheiro no desassoreamento.
 Ribeira de Santa Luzia  - troço entre a Fundoa e os Viveiros - os deslizamentos e os desabamentos de blocos rochosos reduzem a secção de vazão e poderão provocar a obstrução do canal sob a rotunda dos Viveiros.
Entretanto continuam as obras de desfiguração da Baía do Funchal com o argumento do aumento de segurança da cidade em futuras cheias repentinas - 18.02.13



Agora que prestamos um bom e notável serviço para alertar e informar as populações 

(atenção, isto pode soar a tom irónico, mas os gritos fundamentados de Raimundo Quintal são mais uma corrente contra os maré do conformismo e da estupidez no altar e a mandar nos ditos servos, e aqui, com estas imagens e divulgação, prestamos homenagem ao geógrafo e um favor à lucidez) (fazer ressalvas também é adequado nos textos compridos: pode também ajudar a quebrar a "seriedade" do "corpo", vulgo "aborrecimento")

para que quando a tragédia voltar a acontecer ("não é uma questão de "se", mas uma questão de "quando") (tal como estão as coisas, parece haver uns espertinhos que andam a pedi-las...) sabermos que há responsáveis a julgar e encarcerar. Porque se o assassinato é punível com pena de prisão, porque não hão-de estes casos, flagrantes, de cair fora desta alçada? Olhem, naquele caso lá do meteorito da Sibéria também as seguradoras lavaram as mãos: porque o seu trabalho é fazerem dinheiro - se tiverem que dispensar alguma soma da enorme maquia que vão juntando, então, declaram falência.

Mais uma pausa.

E mais um parágrafo a nadar no nada.

O problema para que andamos a alertar desde o começo deste texto é que a vida é um processo contínuo. Não tem intervalos. Isto, se não enveredarmos pela concepção - aliás, que subscrevo - de que cada filho que nasce é uma metamorfose mais da mesma vida (mas isso seria irmos por um caminho que não cabe agora aqui - esta é outra frase comum em teses académicas...). E se tudo é contínuo e a linguagem uma forma de organização do mundo, como apreendê-lo bem, correctamente?

Do que estamos a falar é do ruído em si. 
Dos gritos que damos no meio do vozear constante das grandes aglomerações urbanas, cada vez mais confundidas com aglomerações humanas.

Chegamos a casa cansados. Cansados do esforço físico que fizemos no trabalho cada vez mais exigente e esvaziante. Cansados do esforço da atenção requerida pelos assaltantes estímulos que se dirigem a nós como os vendedores de cartões de crédito.

Donde decorre que, a dada altura, demasiado fatigados, nos fechamos ao exterior e procuramos em nós, à nossa maneira, finalmente, o porto de abrigo mais que devido. Para mantermos a sanidade. 
Lermos um livro, escrevermos. Simplesmente ouvir música, olhando para dentro e escutando com atenção as notas e a poesia.

Deste processo de fechamento resulta a destruição da geografia. É uma frase nada inédita, cremo-lo, mas bem séria. Da abstracção forçada pelo controlo mediático e comunicativo (das coisas que, se reflectirmos, pouco nos interessam) vamos, lentamente, arrancando os papeis de parede que com tanto labor aprendemos a colar às coisas. Esse papel de parede, com a cola a deformá-lo (e à parede também) é o sentido de que as impregnamos.

Assim, no nosso cantinho, talvez ouvindo música pelos nossos "fones" (gosto desta palavra originariamente grega), ou alienados na teclagem do telemóvel, que nos faz já nem olhar à esquerda ou à direita (e isto é também uma metáfora) nas passadeiras que nos vão, de longe a longe, estendendo (com o prejuízo de sermos atropelados e mal-vistos pelos condutores apressados e obrigados à atenção que os peões parecem muito bem dispensar), vamos passando pelos espaços agora vazios.

O espaço não passará de um vácuo que teremos de preencher.
E se formos vazios só de vazio poderemos enchê-los.
E deles não rezará a história e a história não rezará por eles.


E tudo perde o sentido, pois que o sentido - tal como a direcção, numa seta - não passa de uma relação entre, pelo menos, dois pontos.
Se a nada nos relacionarmos, não saberemos, de vez, ler os vários e variegados textos que nos são apresentados.

Há ainda aquela nova forma de comunicar, parida da vertigem dos tempos ditos globalizados, não modernos pois é uma faceta mais do velho obscurantismo, que é a de que querer tudo abarcar (talvez para precisamente deixar tudo de fora mas com a sensação contrária), que é a de estabelecer hiperligações no "corpo" do texto. Por exemplo, aquela Ribeira Brava ali em cima fotografada tinha sido captada pelo Rogério pouco após o massacre de Fevereiro de há três anos.

Foto de Rogério Madeira, Ribeira Brava, 26.02.2010.

O excesso de informação será cada vez mais excesso e - como na internet - passaremos à frente das coisas que estão a gritar-nos para que as ouçamos, as leiamos, as pensemos.

Este é o fim da Geografia.
Porque a Geografia tem que ver com tudo.
Porque a Geografia nada voltará a dizer-te, então.


A parte da "psico" no título deste artigo tem que ver com a parte interactiva que tem de se estabelecer com o objecto por parte do sujeito.

Obrigado a quem conseguiu ler tudo isto.
Significa que ainda consegue ter capacidade de atenção e concentração, sem as quais nenhum raciocínio bem construído se consegue.

Que um homem que não pensa e não consegue organizar o seu pensamento não passa de animal inferior às suas expectativas.
Amén.

Hey, you blacklist, you blacklist, I've seen what you have done. 
I've seen the men you've ruined and the lives you've tried to run, 
But the one thing that I've found is, the only ones you spare 
Are those that do not have a brain, or those that do not care. 

sábado, janeiro 19, 2013

A metafísica da agregação das freguesias

Vem sempre tarde ou a más horas.
A discussão não é pertinente, a coisa mais premente, "há questões bem mais importantes a tratar, por exemplo, o desemprego."

O despropósito da reforma administrativa manifesta-se em manifestações, associações e solidariedade, reivindicações identitárias, apelos à história.
Bem mais grave que isso, é - claro está, que é disso que se trata - a transferência dos poderes e dos órgãos de decisão ou, melhor, dos institutos e centros de apoio às populações.
Que vivem ali.
E não noutro sítio.

Por exemplo, por haver zonas demograficamente pouco densas,

(aquilo a que os nossos jornalistas e os nossos governantes, quais deles os primeiros papagaios: isto é, quem reproduz a imprecisão geográfica: desertificação difere, e muito, de despovoamento...pronto, esta não íamos deixar passar no branqueamento habitual da estupidificação)

- um tribunal, 
- um centro de saúde, 
- uma repartição de finanças, 
- um centro de dia

e outros instrumentos de apoio social que não dependem - nem necessariamente, nem devem, de todo - do intuito lucrativo que está a destruir tudo o que é colectivo

fecham e transferem-se, em nome da racionalização de recursos, ou da chamada reorganização austera e sinistra (mas, no caso, feita pela direita) em tempos de escassez de meios (e excesso de cabeças bem-pensantes), para áreas...
(aha! lá está!)
... mais povoadas.

Em suma, quando estes organismos passam 
- sim, adivinharam! - 
a ter um comportamento de implantação ou de organização geográfica idêntica a empresas.
Pois, com o lucro.
Em nome da poupança, que é disso que se trata, no fim de todas as contas orçamentais.

Isso são as implicações directas.
Isto são as dificuldades acrescidas que as agregações de freguesias trazem para quem vive nelas.
E não é pouco.

Os hiper-nomes (em tempos de já tudo dito, feito, misturado e deslavado) das paróquias assim daí paridas são mais um folclore de pouca ou nenhuma montaria.
Por exemplo, o concelho com mais freguesias no país, Barcelos, (89 freguesias) dará à luz a linda menina de nome "União das Freguesias de Barcelos, Vila Boa e Vila Frescainha (São Pedro e São Martinho), como podemos ver nesta proposta.
Barcelos já teve mais que aquelas 89.
Não é engraçado?

Vá, deixemos isso para depois.


Na era das comunicações virtualizadas,
- a mãe a chamar o filho pelo feicebuque para ir jantar,
- o amigo a enviar uma mensagem à moça da fila da frente, 
- o amante de futebol a ler as estatísticas da época da equipa húngara de Zalaergeszeg, 
- acordar às 7h da manhã e ler as notícias no La Vanguardia, no Deutsche Zeitung, no Herald Tribune ou no Monde Diplomatique, para não perder pitada do que se passa lá fora, "que a coisa aqui tá preta...", como cantava, ao meu amigo, o Chico),
- o comentário "lol" à fotografia daquele moço que foi apanhado a fugir, nu, à frente de uma galinha em fúria,
-

Na era da desestruturação social, laboral, familiar, associativa,
- muros de estradas pagáveis que separam pessoas que tiveram que ir trabalhar, sob ameaça de despedimento, para uma sucursal no extremo do país, com as excelentes condições psíquicas e de integração social,
- casais que não têm filhos (sei lá, estéreis por causa dos químicos na porcaria de janquefude que conseguem pagar para comer, que é a mais barata e que serve para aniquilar as "classes inferiores"), que não podem ter filhos (que a vida está cara), a juntarem-se cada vez mais tarde (que não há condições para suportar uma renda, quanto mais pedir crédito a um banco para ficar agarrado o resto da vida a pagar a estúpida da casa em que vais morrer enjaulado), com pouco tempo para socializar, sair à noite (que há consumo mínimo),
- o abandono dos pais depois das férias. Não, o abandono dos pais no HOSPITAL, não no canil,
- o despedimento fácil, barato e a dar milhões a quem não pode perder um bocadinho de tempo a olhar para o outro, que "taime ij mónei", dizem os padres do só funcional mundo utilitário moderno,
- o entretenimento imposto e sorrateiro a criar divisões, desinteresse, a esvaziar ideias e a desestruturar, pela base, qualquer possibilidade de agregação de esforços em prole para lá da limpeza do cotão teu do umbigo. Ah!, viva a a liberdade de associação! Viva a Democracia!
- as horas tão infrutíferas e mal-pagas de vida que perdemos a trabalhar para ganhar a vida. Para trabalhar. E as horas escassas do dito descanso-rentabilização-das-forças-para-amanhã-vergares-de-novo-e-bem, produtivamente-a-mola-que-serve-para-a-máquina-em-que-nunca-te-revês-e-onde-te-perdes-todos-os-dias, que te não deixam espaço senão para dizeres que estás farto e que só queres estar sozinho e que os amigos e os familiares e as viagens e os passeios nos parques que tu não tens na tua cidade podem ficar para outra altura, ok? depois ligo-te, sim?.

Na era da mobilização autocrática
- a da obrigação de deixar o apartamento
- a da obrigação de não permanecer no local
- a da ordem para sair do bairro, que vai ser demolido, a do campo, que vão começar as obras para o futuro e novo aeroporto de Notre-Dame-des-Landes, 
- a da obrigação de sobreviver noutra terra, "plena de oportunidades"
- a da transferência de pessoal para serviços para os quais não estavas preparado e se não te adaptares vais prà rua.

Na era dos fluxos instantâneos
- do dinheiro virtual à pressão de um "enter"
- do lixo humano escravo e emigrante à pressão de um "out!" (por xenofobia ou ordem dos serviços de estrangeiros e fronteiras.. bah!, fronteiras...!)
- dos objectos de consumo que mandas vir pela net do outro lado do mundo, mas que vieram da China, sempre da China, ou de um outro país onde fica sempre mais fácil produzir e é mais fácil poluir, que ninguém vai saber e todos lucramos com isso: eles, porque lhes damos trabalho, tu, porque tens a coisa a sair-te mais mais barata, e eu, que tive a brilhante ideia de congregar esforços virtuais e liguei uma coisa à outra, aqui sentado em frente a este computador brilhante e cheio de cristais líquidos,
- do lixo que antes não o era e só agora que já usaste e desembrulhaste o objecto é que te apercebeste que é... lixo, que envias - chamando as forças de limpeza, 24 horas por dia, sempre ao teu dispor, em nome da saúde pública - para longe dos teus olhos cada vez mais mirrados


Nestas eras todas, em que, devido à liquidez, não consegues formalizar uma teoria, pois quando terminas a frase já tudo parece ter mudado e o que querias dizer já aí vem contradito pelo que agora se te apresenta;
nestas eras todas, em que devido à comunicação, física ou informacional, os efeitos já não se restringem a este ou àquele sítio, lugar, zona, região, país...

nós observamos que...

a fusão das freguesias é uma decorrência normal da perda de fronteiras que figuram apenas como ideias ou traços num mapa, também ele desenhado com base em ideias.

A agregação de freguesias é a materialização da enxurrada do capitalismo e dos valores da economia a sobreporem-se a tudo o que possa ser expropriado, esvaziado, explorado, transformado, vendido e transferido.

Na era dos assaltos que ficaram por fazer ninguém sairá seco deste planeta azul de cores misturadas.
Viva a riqueza cultural: enquanto eu profito, (fico com o graveto, 'tás a ver?) tu ficas a ver navios.
Pois, pá, é para isso que...Viva a riqueza cultural e coloral do planeta das notas verdes e do fitoplâncton em redução abismal.

Globalização é o mundo a rodar tão rápido quanto uma batedeira: para misturar bem.
Para desorientar bem.
E envolver tudo.
Mas... sempre a bater no mesmo lado.
E sempre o mesmo a bater bem.
Às claras.
Sem interrupção que nos valha.

A metafísica da agregação das freguesias acaba mesmo aqui: nas fronteiras, vistas, agora sim também aí, como um anacronismo. Barreira finalmente derrubada pela racionalização económica sob a capa do bem comum que fica sempre para depois.

A reformulação de fronteiras e a renomeação ocorrem quando o poder é outro, sendo outro porque assim impõe mudanças, assim se afirmando como novo poder. Numa pescadinha-falácia de rabo-na-boca que não conseguirás comer.

Trata-se, simplística e kuhnianamente, de mudança de paradigma.
A meta deixa de ser física, passou a ser objectivo. 
But, em francês, goal, em inglês, understand silly oldman?

Ou talvez não seja outro paradigma.

Porque este último assalto era um dos assaltos que faltavam depois do despojamento que tem vindo a ser praticado pela rapina secular dos bancos.
Agora que se proporcionou e todos estamos com a corda no pescoço, incluindo os porcos capitalistas dos banqueiros de todo mundo, unidos e divididos, eis o momento.
Vem tarde e a más horas!!!

segunda-feira, dezembro 10, 2012

A poc a poc

A poc a poc els nens s'adormen
A poc a poc, Pi de la Serra 




Centro Paroquial e Social de São José de São Lázaro, Braga
Foto de Edward Soja, 15.11.2012


"Pouco a pouco", cantava o Pi de la Serra (e aqui o Serrat) a canção popular catalã, "os pequenos vão adormecendo".
Diz o Kundera (e o Anselm Jappe) que a sociedade assiste à infantilização.
Crianças a assistir a criançados.
(Há dias uma notícia dizia que proliferava na publicidade o tutubear - ou seja, apelar ao consumidor tratando-o por tu: coisa que vai no mesmo sentido do que aqui vamos falar).

O império da criança - não no que tem de sonho, liberdade etológica e inquirição descobridora - não veio para retemperar uma ameaça de insustentabilidade no sistema do mal-estar capitalista a cair no precipício do consumo "negativo" (consumo negativo ocorre quando era "esperado" que ele crescesse x e só cresceu y: isto é, cresceu menos, mas cresceu!).
Veio para afirmá-lo.
Depois da criança - já estamos a ver - não há mais nada.

Passamos a explicar.

A criança é o ser humano com menos memória criada.

Pronto, está explicada.
O bebé ainda não existe, praticamente.
O condicionamento de que fala o Huxley está em curso, por exemplo, nos cursos de inglês na pré-primária: quer dizer isto que, ainda antes de aprender Português, já estão - para uma integração plena na sociedade do futuro - a aprender outra língua.

A língua materna quer dizer o quê?

Aliás, com tantos ésse-éme-ésses como forma quase preponderante de comunicação - à distância e distanciada - dos nossos alunos até aos secundário (nem queremos ir mais longe), a língua sofre uma transformação que, noutros lugares, conseguimos apelidar de "crioulização".
Há piadas sobre os pais não entenderem o que dizem as mensagens dos filhos.
E chegam a casa e é toda uma nova aprendizagem para os entender e... controlá-los (que é isso a que chamamos educação, não é?)

- Atualiza-te, velhota!

(dizem eles - e nós - sem o "c")
(ah, repararam no "velhota" e escandalizaram-se, foi?
Pois, tudo é relativo, não foi isso que te ensinaram?)

A liberdade que associamos à infância - talvez devida àquela inocência que provém da falta de memória e esta de conhecimentos e, portanto, da capacidade de relacionar e formar juízos e "explodir" em ideias - é coarctada, no que aqui nos concerna, por exemplo, na limitação espacial.

O condicionamento ambiental é palpável, visível.
Só que, como vai sendo pouco a pouco, talvez nem nos apercebamos.
Às vezes, o que está mais longe dos nossos olhos é o que está mesmo à frente do nosso nariz.

Igreja e Creche de São Lázaro, via gúgal
(conservada para memória futura,
Se o mesmo paizinho gúgal assim o quiser. $alvé!)


O pátio onde gritavam e corriam - experienciámo-lo por diversas ocasiões - os miúdos no Centro Paroquial e Social de São Lázaro, que podemos ver na ainda disponível imagem de satélite do paizinho gugle (as perspectivas são distintas, mas permitem a comparação) ficará agora reduzido a insignificância. Apenas ao espaço em que já não faça sentido correr.
Apenas a uma área onde já não caibam todas as crianças na hora do recreio.
E brincarão lá dentro.
Talvez para um dia (esta é das nossas falácias predilectas!, a do "efeito bola-de-neve") estarem acostumadas a viver sem sol.
Como aliás já muitos "aprendem", obrigados, a "colaborar" (antigamente dizia-se "trabalhar"), dentro de caixotes que são autênticas cidades de consumo e destruição dos mundos além-olhos.

Com o turismo barato a crescer, normal é que aumentem e destruam mais espaço com aeroportos.
Mas, sob que pretexto estão a ampliar a creche?
Afixadas nos tapumes das obras - em todas - apenas nos informam do "quê", mas nunca do "porquê".

Como se tudo o que acontecesse tivesse que acontecer e tudo fosse irreversível ou irremediável.
E como se tudo pudesse acontecer e mudar com a condição de estarmos de acordo com os valores que presidem a essas mudanças.
E é por ainda não sermos todos crianças - elas não podem defender-se, e cada vez menos poderiam... - que não somos todos quadrados e encaixotados nas ideologias dominantes que nos fazem dizer
Amén.

Não somos todos gregos, nem somos todos troianos.
Eis porque os motivos são sempre a maçã das maiores discórdias.

Uma coisa é visível - estas mudanças têm impactos.
Nesses impactos não económicos não estão os patos bravos a pensar, que isso... "não é da sua competência"

(Eles só agem à maneira de empresas: visam o lucro.
E se mostrarem obra aos pacóvios, todos aplaudem o vício.
Assim se compram as pessoas, assim são alienadas as pessoas.

Próximo!!



domingo, dezembro 09, 2012

Praticar Geografia é descrever para dar sentido às coisas

"One more tree will fall
how strong the growing vine
turn the earth to sand
and still commit no crime"
John Lodge, "One More Time to Live"
Moody Blues, 1971
Sabemos que não é a primeira vez que estes versos aqui são partilhados.
Quem há-de defender os direitos de outrem?
Quem há-de defender melhor os direitos de outrem senão esse mesmo "outrem"?
Imagem provinda daqui

Centenas de ouriços-cacheiros morrem, fora outras causas, atropelados pelas estradas deste país cada vez mais alacatroado, abandonado, especulado, comprado, vendido, desertificado, desordenado, desbaratado, delapidado. 

Quando eu era mais pequeno, via com alguma frequência na freguesia onde vivia uma ou outra cobra. Essa oportunidade foi escasseando cada vez mais. Há anos que não vejo uma cobra.
Sim, já parámos para pensar nisto? Nesta constatação tão simples e prática?
Já parámos para pensar e ter esta constatação?

Lembramo-nos de que a tendência, pelo que fomos observando à nossa volta, foi sempre a da desaparição de árvores. Dali, dali, dali, dali e dali.
Seja porque estorvava o trânsito, porque levantava o alcatrão, porque dificultava a visão, porque era um bom sítio para construir uma casa...

Quantas vezes acontece o contrário?
Quantas pessoas - assim chamadas de defensoras do público (do que é de todos ou para benefício de todos ou da maioria), serão precisas para fazerem valer as acções sobre este e aquele e aquele e o outro - assim nem sequer apelidado de privado- ?

Isto é política.
Política que, por prevalência de uns ou outros valores, por omissão ou por acção, se vai materializando no espaço à nossa volta.

Quem regula o abstracto, assim chamado / caluniado ao que não tem consequências observáveis, "para já", ou "para ontem"?
Quem defende os direitos dos animais?
Os animais têm direitos?
(que sexos dos anjos andamos nós a discutir enquanto não aprendemos nada...)
(Olha, aqueles homens ali estão a decidir se te podem matar ou não, diz o coelho bravo para a avestruz...)

É só uma área equivalente à do Reino Unido.

O genocídio de um povo, como o que uns tentaram fazer com alguns e estes alguns tentam, a pretexto de segurança nacional, fazer com outros, é condenável, não é?

"Pois, todos temos culpas no cartório, não foi isso que te ensinaram?"

O que significa a extinção de uma espécie?
A extinção de uma espécie humana (ou raça ou lá o que a nomenclatura convencionar chamar-lhe) é bem mais condenável e alvo de críticas que a extinção de uma espécie - olha, lá vai mais uma!... - ups... - não-humana, não é?

Pois, e já sabemos que a partir daí nada a fazer para essa.

"Agora é irreversível. Irreversivelzinho a dar c'um pau."

Se o John Lodge e os Moodies eram visionários, não queremos dizê-lo, envergonhados talvez estejamos.
O que me parece é que a baixeza moral e ética talvez já existisse à altura em que o escreveram e cantaram. E o pior é que, na esperança da evolução, não evoluir significa, comparativamente, andar literalmente para trás.
No caso, espacialmente são os seus elementos que existiam e já não existem.
Anos e anos de trabalho lento da natureza literalmente sumidos.
Manchas e elementos da paisagem a recuar.
Recuar.

E, ideia que tive há pouco e que me fez cá vir reflectir, já repararam que o recuo dos elementos ditos naturais - aqueles que existem independentemente de nós os colocarmos lá - vai a par do aumento dos produtos transformados que comemos e com que vamos lidando no quotidiano?

Se o leite já não é bem leite porque as vacas já não pastam e têm de dar as tetas a máquinas com uma periodicidade absurda, que mudou senão a transformação e o uso que fazemos dos recursos?

Se a porcaria que vamos ingerindo, à pressa nos nossos intervalos de tranalho (vulgo "maior fatia do nosso dia"), é resultado da "optimização" do tempo, tais como "comer é divertido" ou "aproveite a vida" ou ainda "sensação de viver",... que mudou senão a forma como vamos rastejando nestes cimentos à beira-mares implantados?

Se dizem que preferimos,
ou,
se nos destinam caixotes epilhados para nos aglormerarmos
(partindo daquele princípio biológico tão escondido que diz que "juntos sobrevivemos com menos dificuldades face às - vejam só - ameaças da natureza),

não significam a desorientação e a maquinização uma consequência necessária da transformação dos modos de vida?

Vêde bem: os sinais estão por todo o lado.
Saibamos analisá-los: isso também é fazer / praticar Geografia.
E estamos a precisar muito para encontrarmos o equilíbrio.
A natureza parece que anda sempre à procura do equilíbrio.
O homem, que ela pariu e ele parece rejeitar, parece andar sempre à procura de (__________________________)
(preencher este espaço vazio)

quarta-feira, agosto 29, 2012

Imprensa do dia (13): novas geografias

Bragança limita paróquias e admite redução das missas:

Escassez do clero e mobilidade populacional são justificações para medida que já é comum em vários países da Europa. – in Público


Parece que a tal crise toca a todos - mas não será bem assim. Religião ou falta dela, a verdade é que não se pode pastorear quando não há sequer rebanho. Mais difícil ainda, se rareiam os pastores. Não se trata apenas de pobreza franciscana, mas de mudanças profundas no território.

quarta-feira, maio 02, 2012

"Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno", por Serge Latouche

A propósito do tão propalado e sacrossanto crescimento económico, ou crescimento a que já caiu o económico, teríamos de voltar a este livro.

Ontem, 1º de Maio, dia do trabalhador, não foi um dia especialmente memorável para os "colaboradores" de um dado estabelecimento comercial espalhado pelo país, embora com sede fiscal fora dele.

Mediante a decisão / imposição / regulação dos preços nos seus burgos resulta um fácil controlo dos comportamentos de milhares de quase-mortos que pedincham por dignidade e vida. E que se riem, porque as suas preces foram ouvidas: haja caridadezinha...

Esta reacção automática massiva, como mihares de robôs, não é muito diferente dos apitos imbecis pela vitória de um clube ou de um partido, ou por qualquer outra manifestação alienante.
Aconteça ela em conjunto, em massa, ou individualmente.
(Como estarmos milhões, cada um em frente ao seu, a olhar para um ecrâ.
De televisão ou de ordenador.)

Que faz cada um de nós?
O primeiro passo para a reconversão desta economia e para a retracção dos valores que ela impôs está em fazer o contrário do que ela nos obriga (mediante controlos como o de ontem).
Reduzir o consumo.
Irá começar por alterar tudo.
Não será suficiente.
Depois urge não parar.
Mas primeiro temos de começar e forçar.

Ficam aqui algumas passagens interessantes deste pequeno e lúcido tratado.






Título: Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno
Edição Original: Petit Traité de la Décroissance Sereine (2007)
Autor: Serge Latouche
Tradução: Víctor Silva
Edição: Janero de 2011
Editora: Edições 70
ISBN: 978-972-44-1646-5
Paginação: 160 páginas

"Não podemos produzir frigoríficos, automóveis ou aviões a jacto «maiores e melhores» sem produzir também detritos «maiores e melhores». Nicholas Georgescu-Roegen "(...) a maximização do consumo baseia-se na predação e na pilhagem dos recursos naturais, à economia do cosmonauta, «para a qual a Terra se tornou um veículo espacial único, não possuindo recursos ilimitados, seja para dela os retirar, seja para nela vazar os seus poluentes»." Quem acredita que é possível o crescimento infinito num mundo finito ou é louco ou economista.
Kenneth Boulding
(p.28)


"Ao contrário doutras tradições religiosas como o budismo, a tradição cristã não favoreceu no Ocidente a relação harmoniosa entre o ser humano e o seu ambiente vivo e não vivo. O marxismo inseriu-se nesta tradição, o que levou Hans Jonas a dizer: «A humanização da natureza por Marx é um eufemismo hipócrita para designar a submissão total desta mesma natureza ao ser humano para uma exploração total com a finalidade de satisfazer as suas próprias necessidades.»"
(p.141)

"Os novos heróis do nosso tempo são os cost killers, estes gestores que as empresas multinacionais atraem a preço de ouro, oferecendo-lhes grandes quantidades de stock-options e indemnizações por rescisão. Formados geralmente nas business schools, que mais apropriadamente deveriam ser chamadas «faculdades de guerra económica», estes estrategos estão empenhados em transferir ao máximo os custos para o exterior, de modo a fazê-los recair sobre os empregados, os subcontratados, os países do Sul, os seus clientes, os Estados e os serviços públicos, as gerações futuras e sobretudo a natureza, transformada ao mesmo tempo em fornecedora de recursos e em caixote do lixo. Qualquer capitalista, qualquer financeiro, mas também qualquer homo oeconomicos (e todos o somos) tende a ser um «criminoso vulgar», mais ou menos cúmplice da banalidade económica do mal."
(pp.32-33)

"A economia transforma a abundância natural em raridade com a criação artificial da escassez e da necessidade através da apropriação da natureza e da sua mercantilização. Última ilustração do fenómeno, após a privatização da água: a apropriação do domínio vivo, em particular com os OGM. Os agricultores assim destituídos da fecundidade natural das plantas em benefício das empresas agro-alimentares. A imaginação do mercado», como diz Bernard Maris, «é incomensurável. Como se fosse um cuco, instala-se em tudo o que é gratuito. «Exclui estes e aqueles, estampilha a gratuitidade, impõe-lhe logotipos, marcas, portagens e depois revende-a.»"
(p.55)

"Finalmente, é preciso pensar em inventar uma verdadeira política monetária local. «Para manter o poder de compra dos habitantes, os fluxos monetários deveriam permanecer o mais possível na região e as decisões também deveriam ser tomadas o mais possível ao nível da região. Dêmos a palavra ao especialista (neste caso, um dos criadores do Euro): "Encorajar o desenvolvimento local ou regional ao mesmo tempo que se mantém o monopólio da moeda nacional é como tentar desintoxicar um alcoólico com gin."
(p.71)

"Segundo Yves Cochet, «uma alimentação mais económica em energia seguiria assim três orientações opostas às que hoje são correntes: seria mais local, mais sazonal e mais vegetariana». Continuará a ser «mais cara» se se continuar a fazer com que as vítimas paguem e a subsidiar os poluidores."
(p.76)

"A civilização capitalista caminha inexoravelmente para a sua derrota catastrófica; já não é necessária uma classe revolucionária para derrubar o capitalismo, porque ele cava a sua própria sepultura e a da civilização industrial no seu conjunto. É uma sorte, porque se vê bem que a luta de classes se esgotou com o triunfo do capital. (...) Neste sentido, o projecto da sociedade do decrescimento é eminentemente revolucionário. Trata-se não só de uma mudança de cultura, mas também das estruturas do Direito e das relações de produção."
(p.92)

"Se a França aplicasse a directiva europeia e produzisse 20% da sua electricidade a partir de energias renováveis, como a solar ou a eólica, isso criaria 240 000 empregos. Um documento publicado em 2005 pela Comissão Europeia mostra que cada milhão de euros investido na eficácia energética cria 12 a 16 empregos a tempo inteiro, contra 4,5 numa central nuclear e 4,1 numa central a carvão. Ou seja, custa duas vezes menos economizar um quilowatt-hora do que produzi-lo."

A satisfação das necessidades de uma arte de viver convivial para todos pode realizar-se com uma diminuição importante do tempo de trabalho obrigatório, de tal forma são importantes as "reservas", porque, durante séculos, os ganhos de produtividade foram sistematicamente transformados em crescimento do produto, e não em decrescimento do esforço."
(p.110-111)

"Nas condições actuais, o tempo liberto do trabalho não passa a ser apenas por isso liberto da economia. A maior parte do tempo livre não conduz a uma reapropriação do tempo da existência e não constitui um abandono do modelo mercantil dominante. O tempo continua a ser muitas vezes utilizado em actividades que ainda são mercantis, que não permitem ao consumidor assumir a via da auto-produção. Ele é desviado para uma via paralela. O tempo livre profissionaliza-se e industrializa-se cada vez mais. (...) Fundamentalmente, é com uma reconquista do tempo pessoal que nos confrontamos. Um tempo qualitativo. Um tempo que cultive a lentidão e a contemplação, ao ficar liberto do pensamento do produto. (...) Esta reconquista do tempo «livre» é uma condição necessária da descolonização do imaginário. Diz respeito também aos operários e aos assalariados, e não só aos quadros stressados, aos patrões acossados pela concorrência e às profissões liberaris apertadas em torno da compulsão ao crescimento. Podem passar de adversários a aliados na construção de uma sociedade do decrescimento."
(pp.119-122)

"É tão fácil «convencer» o capitalismo a limitar o crescimento como «persuadir» um ser humano a deixar de respirar, escreve Murray Bookchin. O descrescimento é forçosamente contra o capitalismo, não tanto por lhe denunciar as contradições e os limites ecológicos e sociais, mas antes de mais porque lhe põe em causa "o espírito", no sentido em que Max Weber considera "o espírito do capitalismo" como condição da sua realização. Se, em abstracto, talvez seja possível conceber uma economia ecocompatível com a continuidade do capitalismo imaterial, esta perspectiva é irrealista no que respeita às bases imaginárias da sociedade de mercado, ou seja, a desmesura e o (pseudo)domínio sem limites.

O capitalismo generalizado não pode deixar de destruir o planeta tal como destruiu a sociedade e tudo o que é colectivo."
(p.125)

quinta-feira, março 22, 2012

Faço greve à morte a alastrar


Título: A Arte e A Revolução
Edição Original: Die Kunst und die Revolution (1849)
Autor: Richard Wagner
Tradução: José M. Justo
Edição: 2000
Editora: Antígona
ISBN: 972-60-805-63
Paginação: 110


Um artista, para além do prazer que nutre pela finalidade da sua prática criativa, experimenta prazer na manipulação dos materiais e na respectiva modelação; uma tal actividade produtiva é em si mesma e por si mesma compensatória e plena de satisfação, ou seja, não é trabalho.

O assalariado interessa-se apenas pelo objectivo dos seus esforços, pela utilidade que possa colher do seu trabalho; a actividade que pratica não lhe traz satisfação, constitui tão-somente um fardo, uma necessidade incontornável, que de bom grado entregaria a uma máquina. O trabalho só o prende por obrigação e é por isso que o assalariado tem o espírito ausente daquilo que faz e passa o tempo a pensar noutros objectivos que pretende atingir tão depressa quanto possível.

Se o objectivo imediato do trabalhador for a satisfação de uma necessidade pessoal, por exemplo, construir uma casa, produzir os seus próprios instrumentos de trabalho ou confeccionar as suas roupas, então, juntamente com o prazer nos objectos úteis que vai tendo ao seu dispor, há-de ir crescendo a tendência para trabalhar os respectivos materiais segundo imperativos do seu gosto pessoal. Ou seja, uma vez obtido o fundamental, a actividade produtiva orientada para necessidades menos prementes, tenderá a elevar-se o nível de arte.

Mas se o trabalhador aliena o produto do seu trabalho, resta-lhe apenas o valor abstracto do dinheiro, e a sua actividade, não podendo elevar-se acima da produtividade mecânica, representa somente esforço, trabalho triste e amargo. É esta a sorte dos escravos da indústria. A imagem lamentável que dão as nossas fábricas é a da mais profunda indignidade humana: um labor contínuo, tantas vezes quase destituído de objectivos, destruidor dos corpos e dos espíritos.

E também neste ponto a influência deplorável do Cristianismo não pode ser negligenciada. Do ponto de vista do Cristianismo os objectivos do homem são totalmente alheios à vida terrena e concentram-se em Deus, num deus absoluto e exterior ao mundo dos homens. Consequentemente, a vida só pode constituir objecto de preocupação humana no que respeita às necessidades mais imediatas, já que cada um de nós, ao receber a vida, contraiu também a obrigação de a conservar até que Deus entenda ser chegado o momento de nos libertar desse fardo. Tais necessidades, contudo, não devem nunca despertar-nos para uma manipulação apaixonada da matéria de que nos servimos para as satisfazer.

Só o objectivo abstracto da estrita conservação da vida pode justificar a actividade sensorial do homem. E é assim que hoje em dia se podem observar os horrores de uma encarnação perfeita do espírito do Cristianismo, por exemplo, numa fiação de algodões, onde Deus se tornou indústria para benefício dos ricos e onde o pobre trabalhador cristão só é mantido vivo até ao momento em que as celestiais constelações empresariais se decidam pela piedosa necessidade de o dispensar para um mundo melhor.
(pp. 71-74)
É este o mesmo espírito dogmático do sempre crescimento capitalista que considera a Natureza como um bem a utilizar para benefício do homem.

"A ideia de que o crescimento económico constitui um fim em si implica que a sociedade é um meio." (François Flahaut, "Le paradoxe de Robinson", 2005)

"Não só a sociedade está reduzida a ser apenas o instrumento ou o meio da mecânica produtiva, mas o homem tende a tornar-se o resíduo dum sistema que visa torná-lo inútil e a passar sem ele." (Serge Latouche,"Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno", Ed. 70, 2011, p. 18)

sábado, junho 18, 2011

Mapa de fluxos de informação - 15M

Na natureza das sociedades humanas, a informação propaga-se de formas muito diferentes. A forma como se propaga tem uma importância vital tanto para a própria existência da vida como para o tecido social. No BIFI [Instituto Universitário de Investigação Biocomputação e Física de Sistemas Complexos, da Universidade de Zaragoza] perguntamo-nos como foi o processo de propagação da informação, se é ou não parecido com outros processos e se podia ter sido previsto.*





O estudo realizado em colaboração com Cierzo Development tinha como objectivo investigar, por um lado, as propiedades estatísticas da informação difundida e, por outro, como são os padrões de conectividade entre aqueles que emitem essa informação e entre aqueles que a recebem.

O estudo compreende o período entre o 25 de Abril e o 26 de Maio de 2011. A partir das 70 palavras-chave relacionadas com o movimiento 15M, fez-se o rastreio de todas as mensagens trocadas entre usuários que continham uma destas. No total detectaram-se e usaram-se 581.749 mensagens provenientes de 87.569 usuários. Os dados aqui analisados representam aproximadamente um terço de todas as mensagens e posts gerados no mundo. A partir destes dados, espera-se contar com novas fontes e colaborações para aprofundar ainda mais o estudo deste tipo de redes complexas.

Através de ferramentas computacionais e da teoria das redes complexas, na qual o BIFI é uma referência mundial, analisaram-se e relacionaram-se as palavras-chave que se foram criando através de uma popular rede social.nonosvamos ou democraciarealya, foram as primeiras a ser criadas. Seguiu-se um mais genérico genérico 15M, fazendo referência à data da primeira concentração. Posteriormente, a reunião de pessoas na Puerta del Sol de Madrid deu lugar a acampadasol, e a esta logo se seguiram outras em toda a geografia espanhola, as quais deram lugar a acampadabcn, acampadavlc, acampadagranada, acampadazgz, acampadabilbao e um extenso etc..., para chegar finalmente a globalcamp.

Poder obter uma quantidade suficiente de dados estatísticos em tiempo real é uma oportunidade única. Outros eventos de seguimento massivo -como os desportivos- tendem a estar demasiado concentrados numas poucas horas. Outros temas com muita estatística costumam ser de variação lenta. Algo como o 15M é uma situação perfeita para os estudos de formação e propagação de redes. E a sua presença online permite obter una informação que depois se poderá extrapolar a outras redes similares das quais não se podem obter dados directos.


Fonte: 15Mbifi.es
Tradução de Eduardo F.

* - O objectivo é prever para controlar.
Já se sabe. Não é despiciendo, portanto, com quem fica esse saber.


E por cá, como seria?

E amanhã, 19 de Junho de 2011 - dia em que em mais de 800 cidades no mundo se vai sair à rua - como será por cá?
(A normalidadezinha mesquinha do costume, já tememos...)


Não olhes
(apenas)
:
Junta-te.